Política

André Luiz é cassado e seus amigos ameaçam deputado

05/05/2005 00:00



Rio de Janeiro - Trezentos e onze votos a favor, 104 contra, 33 abstenções e três votos em branco. Talvez inspirada pelo Dia do Parlamento, comemorado na véspera, a Câmara dos Deputados decidiu nessa quarta-feira (4) cassar, por quebra de decoro parlamentar, o mandato do deputado André Luiz (sem partido-RJ), acusado de tentar extorquir R$ 4 milhões do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Os 257 votos necessários para aprovar a cassação só foram obtidos por volta de 21h, após um longo dia no qual aconteceu de tudo: de orações da bancada evangélica pedindo a absolvição do deputado até exaltadas defesas da cassação, em nome da honra da casa. Ao final da votação, uma ameaça feita ao deputado Chico Alencar (PT-RJ) por pessoas ligas a André Luiz fez com que a Corregedoria da Câmara fosse acionada e os trabalhos se estendessem até a madrugada desta quinta-feira (5).

 

Havia quem apostasse que, protegido pelo voto secreto, André Luiz conseguiria escapar da cassação, apesar das evidências contra ele. O mesmo já acontecera na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro com o deputado estadual Alessandro Calazans (sem partido), ex-presidente da CPI da Loterj, que investigava Cachoeira e também fora flagrado pedindo dinheiro para o bicheiro para minimizar as acusações contra ele. O pessimismo dos defensores da cassação aumentou ainda mais na terça-feira (3), quando a Mesa Diretora da Câmara rejeitou um pedido de abertura de investigação por quebra de decoro contra o presidente do PP, deputado Pedro Corrêa (PP-PE). Como havia beneficiado o aliado, Severino Cavalcanti (PP-PE) poderia fazer o mesmo com André Luiz que, ao final das contas, havia apoiado com entusiasmo a eleição do “rei do baixo clero” para a presidência da Câmara.

 

A senha de que esse quadro não se concretizaria começou a ser dada logo cedo, nas primeiras entrevistas dos envolvidos. Primeiro, o relator do pedido de cassação, Gustavo Fruet (PSDB-PR), afirmou que “ou votamos pela cassação ou legitimamos, aqui, hoje, a corrupção na Câmara”. Em seguida, Severino Cavalcanti chegou dizendo que a cassação seria “a prova de que a Câmara não tolera quem comete desvios éticos e morais”. Por último, o próprio André Luiz acionou a metralhadora giratória verbal, dando mostras de um desespero de quem sabia que sairia derrotado do plenário. O leque de declarações feitas pelo ex-peemedebista ao longo do dia variou da ameaça de que “quando abrisse a boca levaria muita gente com ele” até a denúncia da existência de uma fita de vídeo em poder do procurador da República José Roberto Santoro onde “vários deputados aparecem conversando com Cachoeira”.

 

Nem mesmo a força das orações de dezenas de deputados durante o culto realizado na Câmara pela Frente Parlamentar Evangélica ajudou a mudar o destino do agora ex-deputado. Puxador das orações, o deputado e pastor Philemon Rodrigues (PTB-PB) pediu aos colegas que “não tomassem partido da maioria para fazer mal ao próximo”, no caso, André Luiz: “Precisamos nos unir nesta casa, que é envolvida pelos espíritos demoníacos”, conclamou o orador. Talvez Rodrigues estivesse fazendo referência a alguns parlamentares graduados de partidos como PMDB, PTB e PSDB que passaram o dia alertando seus correligionários sobre o perigo de se desmoralizar o Congresso perante a sociedade e seus conseqüentes prejuízos políticos e eleitorais. Esta pregação, sim, obteve grande resultado.


Medo nos adversários

Mais de cem deputados votaram contra a cassação de André Luiz, mas dava para se contar nos dedos aqueles que manifestaram apoio explícito ao colega. Entre os amigos, a maioria era de deputados fluminenses ligados ao grupo do ex-governador Anthony Garotinho. Entre os adversários declarados, a euforia pela vitória nas urnas foi substituída por apreensão e medo. Assim que foi atingido o patamar de 257 votos que garantiu a cassação, uma mulher (identificada como pessoa ligada a André Luiz, mas que ainda não teve a identidade revelada) se aproximou do deputado Chico Alencar e, segundo relato do petista à Agência Carta Maior, declarou: “Você conseguiu, né? Agora deve estar satisfeito!”.

 

Chico Alencar conta que, antes que tivesse tempo de contra-argumentar, um homem do mesmo grupo (mais tarde identificado como Oyama Bastos Freitas) se aproximou e disse: “É. E o próximo vai ser você”. O petista lembra que, num primeiro momento, chegou a pensar que o homem dissera que ele seria o próximo a ser cassado: “Logo depois, no entanto, percebi pelo tom de ameaça em sua voz que ele queria dizer outra coisa”. Assustado, Chico procurou imediatamente o deputado Inocêncio Oliveira (PMDB-PE), que nesse momento presidia a sessão, e relatou o episódio.

 

Adversário de André Luiz desde que ambos eram deputados estaduais no Rio de Janeiro, Chico afirma conhecer “a fama de truculento” do ex-peemedebista e seu “histórico de práticas pouco ortodoxas”. Por isso, achou melhor se precaver: “Encarei como uma ameaça de morte e é razoável que, diante das circunstâncias, eu tenha tido essa leitura. Não posso admitir que queiram me intimidar ameaçando minha integridade”, disse.

 

Qualquer pessoa de bom-senso faria o mesmo que o petista. Apesar de nenhuma prova contra ele jamais ter sido apresentada, é melhor não brincar com André Luiz. Em outro trecho das mesmas gravações feitas por Cachoeira onde aparece pedindo os R$ 4 milhões a um interlocutor do bicheiro, o ex-deputado afirma ter mandado matar pessoas que haviam tramado o assassinato de um segurança seu: “Tive que encher aquela porra de bala”, dizia.


Sobrou para o bispo

Depois de informado, Inocêncio Oliveira acionou a Polícia Legislativa. A mulher não foi encontrada, mas Oyama Bastos Freitas foi detido. Reconhecido por Chico Alencar, ele ainda assim negou que tivesse dirigido qualquer palavra ao deputado carioca. Momentos depois, um outro homem se apresentou à polícia dizendo ter sido ele o autor da declaração de que Chico seria “o próximo”. O homem se apresentou como César Pimentel, advogado, e disse ter apenas “rogado uma praga” no petista, sem intenção de ameaçá-lo. Pimentel, no entanto, admitiu ser amigo de André Luiz: “Eles trocaram a pessoa, mas ficaram visivelmente acuados. Agora vamos ver se a Corregedoria da Câmara acha necessária a abertura de investigação”, disse Chico. O caso será encaminhado nesta quinta-feira (5) pela Mesa Diretora.

 

Chico Alencar não é o único deputado federal fluminense a estar com pulgas atrás da orelha. Inimigo declarado de André Luiz, o ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Carlos Rodrigues (PL-RJ), manifestou a interlocutores diversas vezes na última semana o temor de que o ex-peemedebista passasse a persegui-lo, se fosse cassado. Segundo relato do jornal O Globo, Bispo Rodrigues teria chegado a invadir o gabinete do relator Gustavo Fruet para implorar para que ele não recomendasse a cassação: “Se cassarem o André Luiz, ele vai me matar!”, teria dito. A resposta de Fruet, segundo o jornal, mostrou a Rodrigues que atividade parlamentar no Brasil é atividade de risco: “Se o senhor que é bispo está nessa situação, imagina o que ele vai fazer comigo, que nunca fui nem sacristão”.


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