Política

Arte e política inseparáveis - no Brasil e na Coreia

 

12/01/2020 11:29

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
''A censura prévia do Especial de Natal do Porta dos Fundos* é o "mais adequado" a se fazer até que seja julgado o mérito da questão,'' decidiu o desembargador. Disse ele, também, que assim "recorre-se à cautela, para acalmar ânimos".

A produtora do Porta dos Fundos foi atacada com coquetéis molotov por um grupo que se diz integralista. Então a censura acalma os ânimos de quem e para quem? A "cautela" está servindo a quem? A "ponderação" sugestionada na decisão judicial serve a qual grupo, afinal?

O censor da peça Roda viva, de Chico Buarque, dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa, justificou a censura, em 1968, dizendo que o autor "criou uma peça que não respeita a formação moral do espectador, ferindo de modo contundente todos os princípios de ensinamento de moral e de religião herdados de nossos antepassados".

A moralidade parece ser sempre o parâmetro, na censura. No caso do Roda viva, o que ocorreu em seguida foi um grupo de pessoas do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) depredar o teatro onde a peça era encenada, espancando os atores.

Nestes tempos de censura em 2020, é sempre bom lembrar dos pioneiros, e Flávio de Carvalho é um deles. Considerado o pai da performance brasileira, em 1933 apresentou o seu Teatro de Experiência com a peça O bailado do deus morto. A peça teve uma única apresentação e logo foi proibida pela polícia, que alegou atentado ao pudor.

O título da peça já era uma afronta aos moralistas conservadores. Flávio também já havia realizado a Experiência nº 2, em 1931, que consistia em caminhar, usando um boné na cabeça, na direção contrária de uma procissão católica.

Foi quase linchado, tendo que se esconder no sótão de uma leiteria. Provou que aquelas pessoas, que se diziam cristãs, com a simples incitação de uma leve contrariedade já libertavam sem pudores uma sanha de vingança e assassínio.

Quando O bailado do deus morto sofreu censura, ele escreveu, didático: "Um laboratório de teatro, em base, nada difere de um laboratório de química ou física. O espírito que o dirige deve estar aberto a todos os fenômenos".

A censura era, portanto, ridícula. A Igreja Católica, que usa a imagética do terrível inferno, que esculpiu monstros e gárgulas em suas construções góticas, que tem como símbolo a imagem de uma pessoa morta numa cruz, que se utiliza, enfim, de imagens violentíssimas, não pode admitir outras imagens num contexto artístico? Será que ela, e apenas ela, detém o monopólio de certas imagens?

Depois que o golpe jurídico-parlamentar deu certo - tirando Dilma Rousseff da presidência - e Sérgio Moro foi alçado ao posto de herói nacional, o clima de perseguição política do lavajatismo ainda é vigente e vigoroso. Não é difícil verificar que uma profusão de processos contra jornalistas e artistas está em curso neste momento, na nossa sociedade de judicialização dos conflitos.

E o recado parece ser claro para a maior parte da população: essa briga é dos grandes, não se meta com política; se você criticar algum político, for pobre e for processado, já será automaticamente condenado, pelo menos economicamente, por conta do alto peso das custas de um processo.

Convém evitar dores de cabeça, é o que parecer ser dito.

Mas a arte se mantém: tanto no caso do Porta dos Fundos, que conta com recursos econômicos, e por isso continua e continuará fazendo seus vídeos de humor, quanto no caso Zé Celso e o Teatro Oficina, que, mesmo sem patrocinadores, trabalham incessantemente e conseguiram remontar Roda viva recentemente, no esquema de guerrilha, através de crowndfundings.

No próximo dia 15 de janeiro será aberta a temporada de O bailado do deus morto, de Flávio de Carvalho, na sede do Teatro Oficina, em São Paulo. Enquanto isso, Bolsonaro faz uma live para mostrar que está extasiado assistindo seu ídolo, Donald Trump, na televisão, discursando sobre os jogos de guerra que promove.

Bolsonaro parece se divertir assistindo a Globonews (que tanto critica), como se estivesse vendo mais um blockbuster estadunidense.

Bong Joon-ho, o diretor do filme sul coreano Parasita (2019), possível vencedor de Oscar deste ano, diz defender a "desamericanização" da indústria do cinema. Seu filme é, essencialmente, sobre capitalismo; mas também sobre a adoração aos Estados Unidos que pessoas como Bolsonaro fazem questão de mostrar.

Parasita é a história de uma família que vive em um semi- porão - e a partir daqui vou contrariar fortemente o diretor, que recomenda que quem não viu ainda o filme o faça sem ter informações prévias: essa família ganha dinheiro dobrando caixas de pizza pois está formalmente desempregada. Continuo a partir daqui, sem pudores, uma análise com spoilers (ou com "espoliação", para tentar sair da referência inglesa), sabendo que quem já viu não se importará e que esta espoliação poderá mais excitar do que anular a curiosidade daqueles que não assistiram o filme.

O filho mais velho dessa família pobre se vê diante da oportunidade de dar aulas de inglês a uma menina rica, e a partir daí a família Kim vai se infiltrando na abastada família Park. Os Kim, muitos unidos, moram "quase" no limite da rua.

Possuem, até, alguma ventilação na casa/semi-porão, mas aquele ambiente deixa nos pais e nos dois irmãos um cheiro indefectível. É o cheiro da pobreza. Em dado momento do filme, por exemplo, há uma dedetização na rua. Eles deixam as janelas abertas, e o pai diz: "Dedetização grátis!". Os Kim seguram a respiração, alguém tosse, mas eles continuam dobrando as caixas de pizza em meio à fumaça. Seriam eles mesmos os insetos, os parasitas?

Essa família tem talentos incríveis: a filha aprende rapidamente os princípios básicos da arte terapia com o objetivo de ser a tutora do caçula rico; a mãe aprende a cozinhar qualquer coisa, para se tornar governanta; e o pai consegue, rapidamente, entender o funcionamento de carros modernos, para se tornar o motorista dos Park.

Os Kim constroem uma meticulosa farsa de si mesmos para os ricos, que de nada desconfiam - afinal, não lhes interessa a vida dos pobres. Os Park não têm nenhuma curiosidade a respeito dos seus empregados - nada perguntam sobre suas vidas íntimas, nada querem saber, apenas precisam de seus serviços, e só.

Um dia, os Park saem para um acampamento. Os Kim ficam na casa e descobrem que existe uma outra pessoa que vive em um porão escondido, ou seja: um outro ser ainda mais invisível e pobre do que eles. É o marido da antiga governanta, que vivia ali porque fugia de dívidas, não tinha dinheiro, emprego ou perspectivas, e muito menos para onde ir.

Em suma, vivia numa prisão para escapar de outra. Este personagem é um perfeito símbolo da luta de classes, porque mesmo estando no mais baixo grau da sociedade ele tem adoração pelo ex-patrão de sua esposa, que sequer o conhece. A antiga governanta, em visita inesperada, tenta resgatar o marido: propõe um acordo com os Kim, mas sem sucesso.

Chove torrencialmente, e por isso a família rica volta da viagem antecipadamente. A família pobre se esconde como uma família de baratas (podemos lembrar aqui do termo cucarachos, utilizado pelos estadunidenses para designar os latino-americanos imigrantes), sob uma mesa. O caçula dos Park resolve montar uma tenda de brinquedo, de "índio" norte-americano, na varanda do casarão, durante a chuvarada. Seus pais estão tranquilos: a tenda foi comprada nos EUA e aguentará a chuva torrencial.

Mas a casa dos Kim não é uma tenda de brinquedo, e fica totalmente alagada, o que o pai e os dois irmãos descobrem quando conseguem fugir do casarão e chegar até seu bairro pobre.

A filha precisa sentar na tampa do vaso sanitário para impedir que o esgoto seja expelido. Pouco antes, o casal rico e moralista transava no sofá, fantasiando com o sexo dos pobres.

Há uma série de metáforas sobre capitalismo neste filme, e acho que uma das mais fortes é esta: no capitalismo, o horizonte para a única solução dos problemas é sempre o dinheiro. Mas, afinal de contas, quem são os parasitas ali? Os pobres ou os ricos? Os da porta da frente? Ou os da entrada de serviço?

O jovem da família Kim se agarra a um presente, uma pedra-símbolo da prosperidade, oferecida pelo amigo que lhe deu a possibilidade de ser tutor de inglês da filha dos Park. Este jovem não quer largar o objeto de jeito algum, mas diz que, na verdade, a pedra é que não quer largá-lo - e ele quase morre por causa dela.

Na luta de classes não há Oscars, Globos de Ouro ou qualquer outro prêmio da indústria do entretenimento. Somente a aposta na parvoíce dos espectadores. No caso de Bolsonaro e dos moralistas de ocasião, essa aposta é barbada.

Alex Frechette estudou Pintura na Escola de Belas Artes da UFRJ, tem especialização em Arte e Cultura pela Universidade Candido Mendes e Mestrado em Turismo pela UFF. Livros publicados: Copa pra quem? Olimpíadas pra quem? Arte e megaeventos esportivos no Rio de Janeiro - contra narrativas na cidade turística.

*Disponível novamente no catálogo da Netflix por decisão do Supremo Tribunal de Justiça que levantou a censura anteriormente imposta



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