Política

As brechas que inspiram: 68 e nós

A brecha é o feliz título de um livro escrito a quente (e torna-se um documento particularmente instigante ao ser produzido no calor da explosão) por um trio de pensadores afetados pelo evento (Edgar Morin, Claude Lefort e Cornelius Castoriadis), aos quais se somam textos seus retomando o acontecimento décadas depois

26/05/2018 13:57

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Por Jean Tible

A brecha é o feliz título de um livro escrito a quente (e torna-se um documento particularmente instigante ao ser produzido no calor da explosão) por um trio de pensadores afetados pelo evento (Edgar Morin, Claude Lefort e Cornelius Castoriadis), aos quais se somam textos seus retomando o acontecimento décadas depois.[1]

Logo antes de Maio, tudo parecia dominado. Havia um certo consenso de que tudo estava nos trilhos: trabalhadores integrados à ordem, conquistas sociais do pós-guerra (pelo acordo do Conselho Nacional da Resistência, composto, entre outros, por gaullistes/nacionalistas e pelo Partido Comunista Francês), sociedade de consumo bombando, forte crescimento econômico, fim da guerra na Argélia, calmaria política da V República, padrão midiático-cultural predominando… Uma estabilidade quase total. No dia 15 de março de 1968, Pierre Viansson-Ponté resume esse espírito em editorial do Le Monde: a França está entediada, enquanto o mundo queima (Vietnã, Oriente Médio, estudantes em Berkeley, Espanha, Polônia, Egito, Japão…).

No entanto, como bem colocou o militante revolucionário Ernest Mandel[2] (que esteve nas barricadas), pensando com Marx, em períodos em que o capitalismo está em acelerado crescimento econômico, novas necessidades do proletariado surgem com força. Alguns sinais apontavam isso, como as greves dos mineiros em 1963 e a revolta operária na Renault no ano seguinte no qual o mote foi “queremos tempo para viver”. O que parecia sólido se desmanchou no ar, o que parecia estável, vazou (ainda que somente por alguns dias, semanas, meses – mas os efeitos ainda nos atingem).

Experimentação e autonomia

Uma das frases símbolo dos muros de Paris:[3] a barricada fecha a rua, mas abre caminhos. Brechas e experimentação nessa “prodigiosa vitalidade” (Morin) do Maio francês. A imaginação no poder. Como dizia um dos textos considerados anunciadores dessa disrupção, “a cisão entre teoria e prática foi a rocha contra a qual esbarrou o velho movimento revolucionário. Somente os mais altos momentos das lutas proletárias ultrapassaram essa cisão para encontrar sua verdade”.[4] Se no PCF permanecia uma distância inaudita entre o falar e o fazer (a revolução sendo no fundo impossível para eles naquele momento), um dos pontos fortes da revolta será o de encurtar essas distâncias – seja realista, reivindique o impossível. Decididamente, tratava-se de outro realismo – tomo meus desejos por realidade porque acredito na realidade dos meus desejos.

Maio expressa várias faces das ideias e práticas da autonomia (Castoriadis) – e não do autonomismo, ou seja a autonomia como confluência e não na forma de ideologia e identidade. Mudanças aqui e agora (não existem pensamentos revolucionários, somente atos revolucionários), amparadas por ações diretas (não reivindicaremos nada, não pediremos nada. Pegaremos, ocuparemos). Estar na rua, com um pavé (paralelepípedo): a beleza está na rua lemos num cartaz do Atelier populaire. Ou como os Provos, grupo de Amsterdã precursor da contra-cultura, diziam: não temos ideologias, temos métodos.[5] O Movimento 22 de Março expressou essa aliança insólita entre anarquistas, libertários, situacionistas e gauchistes que desencadeia a revolta – decisiva – em Nanterre, saindo da lógica identitária e autofágica de esquerda. Defendia, nesse sentido, a unidade na ação (direta) e não em volta de uma linha política ou ideologia (e assim o reconhecimento da pluralidade e diversidade das tendências políticas na corrente revolucionária), o direito de fala de todos (sem intermediários e representantes), a revogabilidade dos mandatos e a gestão das empresas pelos trabalhadores.[6]

Um elemento fundamental da imaginação política desse acontecimento foi a reativação das práticas (nas ocupações das universidades, fábricas e outros locais de trabalho) da tradição revolucionária dos conselhos – a auto-gestão generalizada, “a posse direta dos trabalhadores sobre todos os momentos de suas atividades”.[7] Um vetor revolucionário – assim como Marx celebrou a Comuna de Paris não por decretar (pura e simplesmente) o comunismo mas sim por apontar para outras relações (comunistas) a partir de políticas precisas: sufrágio universal com mandatos revogatórios, salários de operários para todos os funcionários públicos, separação do Estado e da Igreja, congelamento dos aluguéis… Esse conjunto fez Marx se entusiasmar e a perceber como a forma política enfim encontrada para a emancipação do trabalho. Uma direção subversiva: autogestão em todos os espaços, lugares e setores – forma e conteúdo da real transformação.

Outra faceta importante do movimento, foi a do jogo e humor (sou marxista tendência groucho ou também amai-vos uns sobre os outros) e sobretudo da festa e diversão (trabalhadores de todos os países, diverti-vos!). Nesse mesmo momento, Henri Lefebvre reinterpreta a Comuna de 1871 como um festival, no qual as mulheres trabalhadoras desarmaram os soldados vindo buscar os canhões recebendo-os com festa e alegria nesse 28 de março que teria sido o primeiro dia de sol da primavera.[8] Em outra data-chave das lutas parisienses, no dia 24 de fevereiro de 1848, a tomada do Palácio das Tuileries constitui uma verdadeira festa popular, a multidão percorrendo os aposentos reais e levando o trono até a Praça da Bastilha, onde será solenemente queimado. Um carnaval.[9] Uma alegria espinosiana? “Que libertação não é uma festa”?[10] Morin conta que os consultórios médicos ficaram vazios. Diz-se, também, que a venda de livros estourou: 40% de aumento nesse mágico mês.[11] Desejos de autonomia, de novas vidas: o levante de uma geração político-existencial – uma frase indica bem essa característica, um policial dorme em cada um de nós, temos que matá-lo.

O oposto da morte é o desejo. A faísca imediata em Nanterre foi a partir de uma reivindicação de visita dos rapazes nos dormitórios femininos (o contrário era permitido). São inúmeras as frases pintadas nos muros que remetem à liberdade sexual – gozar sem entraves; mais faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. mais faço a revolução, mais quero fazer amor; também se faz amor na Ciência Política, não somente nas praias e bosques. O detonador deveu-se a essa questão pontual, mas uma repressão (sempre estúpida, nem sempre eficaz…) mal calibrada intensificou a mobilização (lembram do 13 de junho de 2013 na esquina da Consolação com a Maria Antônia?).


Universidade e capitalismo, luta e cotidiano

A universidade francesa estava em franca expansão (em dez anos, o número de estudantes multiplicou-se por três), o que gera uma série de problemas de infraestrutura (salas, restaurantes, espaços de estudos e dormitórios), mas também demandas por bolsas e permanência (parte dos novos universitários vinha das classes populares) e críticas à instituição como reprodutora das desigualdades. Simultaneamente ocorre um choque entre aspirações libertárias e hierarquias fortíssimas e sua estrutura autoritária. Enfim, questão fundamental, essa nova geração parte de uma onda mundial, questiona as relações capital-poder-saber (Lefort): para quê servem as ciências humanas? Uma virada: de sítio onde o capitalismo francês selecionava e moldava seus tecnocratas para um vulcão, local incendiário. Pergunta, assim, Daniel Cohn-Bendit: “e os estudantes? Quem são seus opressores, salvo todo o sistema?”[12]

Um dos pontos mais interessantes se situa nas tensões e conexões entre estudantes e operários. Se num primeiro momento, havia um distanciamento por parte dos segundos (os universitários seriam filhinhos de papai e seus futuros patrões), este começou a dissolver-se (sem deixar de existir) após as barricadas e a resistência da noite do 10 de maio, da qual participaram também jovens desempregados e trabalhadores. A violência policial levanta uma enorme onda de solidariedade e isso vai se reforçar, a partir do dia 13 com o contágio geral da desobediência e uma das maiores greves gerais espontâneas da história (num país de 50 milhões de habitantes, 10 milhões em greve).

Entramos aí nos dias loucos. Ninguém mais cumpre o papel que lhe havia sido reservado na sociedade. Tudo e todos em ebulição – todas as autoridades e hierarquias passam a ser questionadas. Ocupações em toda parte. Na Ópera e no Conselho Nacional de Pesquisa Científica. No Teatro do Odeon e na Federação Francesa de Futebol, já que seu objetivo era “impedir que os simples amantes do futebol pudessem ter prazer com ele”.[13] Rádios e televisões. Escolas, estações de trem, lojas de departamento, hotéis. Bandeiras vermelhas (e pretas) tremulando. As dançarinas do Folies Bergères aderem aos protestos. Policiais anunciam que não serão mais usados para propósitos repressivos. O Banco da França não consegue mais imprimir notas por falta de trabalhadores. Ciclistas profissionais e jovens médicos e enfermeiros dos hospitais contestam. O Festival de Cinema de Cannes é cancelado.

Além da tomada da produção, certas cidades são totalmente controladas pelos trabalhadores, como Nantes ou Caen, por um ou poucos dias. Em alguns casos, estabelecem-se novas relações com o campo, entre operários e camponeses (e suas cooperativas). Em outros, contatos diretos entre fábricas. Alguns episódios de destituição de gerentes e sequestro de patrões. Numa gráfica, a recusa de imprimir o jornal Le Figaro com certa manchete e o La Nation com conteúdo contrário à greve. Em Saint-Nazaire, houve a ocupação da planta por dez dias, os trabalhadores recusando-se a fornecer uma lista de demandas imediatas apesar da pressão do aparelho sindical.[14] Chega de perder nossa vida para ganhá-la!

Todos os aspectos da vida postos em xeque, numa abertura do potencial criativo das pessoas e num contexto em que “é uma base que age, não é uma elite que pensa”.[15] Algo talvez inédito começou a movimentar-se, uma irrupção do impossível. A revolta se expande dos centros de produção industrial para ganhar os trabalhadores dos serviços. Produção e reprodução da vida social. Nenhuma região ou categoria escapa da correnteza subversiva. Nesse mês de maio, formam-se, também, os comitês de ação, grupos de até uma quinzena de pessoas, em sua maioria sem atuação política anterior, organizados por setor, bairro ou local de trabalho que apoiam as greves em curso. Sem uma ideologia unificadora, eleições internas ou adesão formal, constituíam-se em grupos de afinidade e plurais, misturando idades e origens sociais. No fim do mês, existiam 460 comitês só na região de Paris.[16] Uma criação política de Maio, sovietes do cotidiano? Busca da não separação entre vida e intervenção política, militância e questões cotidianas – a “atmosfera específica engendrada pela infiltração da política na vida cotidiana das pessoas”.[17]

O ano de 1968 marca o início do nosso mundo contemporâneo. Uma fenda no sistema de domínio, que provocou uma reação profunda, tanto política como econômica – “enquanto crises econômicas objetivas podem ser funcionais para a acumulação capitalista, crises que são subjetivas e políticas (ou realmente, igualmente econômicas e políticas) colocam um desafio real ao capital”.[18] Essa crise é produzida não só pelas demandas por melhores salários e melhores condições de vida dos trabalhadores, mas também por uma insubordinação generalizada, articulada com outros movimentos e demandas. Daí a reação-repressão por todos os lados nos dias, meses e anos seguintes, por toda parte do planeta (como colocado por Irene Cardoso em seu texto nesta edição brasileira de A brecha).

A economia se reorganizou e buscou capturar a inventividade expressada, reforçando uma tendência do capitalismo contemporâneo e os elos cada vez mais fortes entre produção e conhecimento – não por acaso uma das questões mais candentes hoje diz respeito às patentes e propriedade intelectual. Algo presente em 1968, as universidades como as novas fábricas?[19] Os poderes viram um excesso de democracia (onde ela existia minimamente) e de demandas sociais e existenciais. Uma contra ofensiva mesclando um Estado mínimo (em termos de direitos sociais e participação política) e máximo (o recrudescimento da repressão e encarceramento). Como disse, num contexto estadunidense, o poeta Lawrence Ferlinghetti, após a abertura de arquivos do FBI, “nos anos 1960 nos chamavam de paranoicos, nos anos 1970 de ingênuos”[20]  – em 1969, o Black Panthers Party teve 27 dos seus militantes mortos e 749 presos.[21]

Revolução?

68 reativa o símbolo revolucionário francês por excelência, a barricada. Foi 1968 uma revolução? Seria 68 um détournement na ideia de Revolução, como sugere Olgária Matos (em seu texto nesta edição brasileira de A Brecha)? O capítulo francês de uma revolução mundial impulsionada pelo terceiro mundo?[22] O primeiro movimento verdadeiramente global que veio de baixo como o defende Tariq Ali[23]? Uma revolução mundial?[24] Uma revolução simbólica, da palavra?[25] Revolução permanente pela soberania da vida?[26] Numa contraditória – e boa para pensar – fórmula, Morin propõe que 68 muda tudo e nada muda. De Gaulle vence o duelo com apoio entusiástico da França conservadora e reacionária, o capitalismo segue, a vida volta ao normal… Mas será que voltou mesmo? 68 desloca divisões binárias entre fugaz/permanente, organização/espontaneidade, vitória/derrota, mudança/não-mudança.

Interessante como no dia a dia desse Maio, De Gaulle continuamente se preocupa com a autoridade do Estado em jogo, com a ameaça à manutenção da ordem, com como as ocupações da Sorbonne e do Odeon a perturbam, indica suas preocupações com as greves (quase joga a toalha e renuncia; chega a sumir do país no dia 29) e a ênfase de que o Estado não poderia recuar.[27] O país fica realmente paralisado, com sua infraestrutura básica (eletricidade, correios, telefones, trens e transporte) sob controle dos sindicatos ligados à Confederação Geral do Trabalho (CGT). Nesse momento, a possibilidade de uma nova ordem se coloca – diz-se que PCF e CGT paralisaram o país mas não o governo, pois não quiseram arriscar uma ruptura.[28] Do 23 ao 30 de maio, o governo estava extremamente fraco, se arrastando, e o PCF chega a levantar a bandeira de um “governo popular” no dia 27. Sua tática, no entanto, num contexto de Guerra Fria, era acumular forças, sair de um certo isolamento, disputando eleições aliado à esquerda não comunista (que teve 45% dos votos na eleição anterior). A política externa gaulliste, evitando o alinhamento aos Estados Unidos e promovendo vínculos com o Bloco Socialista e o Terceiro Mundo, era percebida com simpatia pelo PCF. Buscando não perder o controle do movimento grevista, desencadeado por fora dos sindicatos, teria embarcado (e paradoxalmente, ajudado a ampliar os protestos na última semana de maio) para não perder o controle dos rumos e evitar uma solução por fora das instituições (que seria irresponsável, uma aventura, em sua leitura). Sua atitude não deixa de ser intrigante, pois agiu frente ao governo gaulliste como em 1936 em relação à Frente Popular (coalizão de esquerda), governo no qual foram conquistados novos direitos sociais – uma curiosa aliança entre De Gaulle e o PCF.

Se na faísca, no estouro, não havia líderes (nem estudantis nem operários), quando o confronto chegou ao ápice, o papel das organizações tradicionais (PCF e da CGT) foi fundamental, tanto nas possibilidades de uma greve insurrecional, quanto na negociação do fim das greves em troca de aumentos salariais. Em junho, conquistas concretas são acertadas entre o governo e a Central: aumento de 35% do salário mínimo, 10% dos salários em geral, direitos sindicais – que são inicialmente recusados no fim de maio na fábrica-símbolo do capitalismo industrial francês e da CGT, a Renault de Boulogne-Billancourt (outra planta, a de Flins, vai manter a greve até o dia 15 de junho).

Conquistas sociais ou mudar a vida? 68 abre uma libertação das vozes – “a única chance do movimento é justamente essa desordem que permite às pessoas falar livremente e que pode desembocar, por fim, em certa forma de auto-organização”.[29] Os provos insistirão, em meados da década de 1960, que “não estão interessados no poder, não o querem e não sabem o que fazer com ele […], só querem esvaziá-lo”.[30] Seria essa uma resposta 68 à questão da tomada do poder? Como o coloca Castoriadis, “sem nada instituir no sentido formal, eles deixam traços profundos na mentalidade e na vida efetiva das sociedades: foi, sem dúvidas, o caso da Comuna de Paris de 1871, foi, certamente, o caso dos movimentos dos anos 1960”.[31] Wallerstein, por sua vez, faz um paralelo com as revoluções de 1848 e 1905 que não levaram a uma tomada do poder ou das instituições, mas marcaram a emergência de novos valores, ideias e aspirações – talvez indicando a força de outra famosa frase de 68, eles poderão cortar todas as flores, mas não impedirão a chegada da primavera.

Um novo espírito do tempo, tempo do mundo, que se relaciona com uma perspectiva importante (o Socialisme ou Barbarie de Castoriadis sendo pioneiro) e sua ênfase nos elos entre exploração e hierarquia. A luta dos estudantes e operários (e em outros países isso ganha outra potência com as mulheres, negros e outras mais) contra a hierarquia questiona não somente o arbítrio das universidades e fábricas, mas todo um sistema que se baseia nelas, na obediência e na ordem. Trata-se de uma revolta contra o sistema (de produção) como um todo. Algo que não faz sentido, vai dizer (e se contrapor) Raymond Aron, Tocqueville de 1968: as sociedades industriais só podem ser burocráticas, as alternativas sendo a vertente socialista (autoritária) ou liberal (livre).[32]

Deleuze e Guattari elaboram outra compreensão, ao perceberem o Evento 68 como uma abertura do possível. Uma intrusão do devir. Um devir revolucionário em vez de um futuro da revolução. Não se trata de um imaginário, mas de um real que aparece, surge – uma baforada de real em estado puro. A importância de 68 se situa em ser “um fenômeno de vidência, como se uma sociedade visse de repente o que ela continha de intolerável e visse também a possibilidade de uma outra coisa”. Nesse sentido, “o possível não pré-existe, ele é criado pelo acontecimento. É uma questão de vida. O evento cria uma nova existência, produz uma nova subjetividade (novas relações com o corpo, o tempo da sexualidade, o meio, a cultura, o trabalho…)”.[33] O problema-chave foi, assim, de não estarmos à altura desse acontecimento, de ter predominado a tentativa, nos anos seguintes, de esmagamento em vez de nos dotarmos de novas instituições e subjetividades.

Pode-se dizer que 1968 está sendo?[34] Tentam abafar, esconder, caluniar, esquecer (o próprio Cohn-Bendit faz isso!), mas uma memória das lutas, misteriosa, se faz presente – 68 vivo e vive, vital. Falamos antes de uma linha parisiense das lutas que conecta 1848, 1871, 1936 e 1968. A efeméride dos cinquenta anos vem sendo comemorada. 68 segue, prolonga-se, desdobra-se. Como? Nos protestos contra a Lei do Trabalho na primavera de 2016 e sua verve expressada nos muros (não é a manifestação que transborda, é o transbordamento que manifesta!ou Lei, trabalho: retirada de ambos e sejamos ingovernáveis).[35] Também na greve dos ferroviários e nas diversas universidades ocupadas neste exato momento contra as políticas de austeridade do jovem presidente autoritário Macron.[36] E, sobretudo, na resistência da ZAD em Notre-Dames-des-Landes e sua constituição de novas vidas num terreno pantanoso onde se encontram veteranos de 68 (que em Nantes, região de certa tradição anarco-sindicalista foi particularmente forte e cuja associação camponesa combativa vem desses anos) com jovens libertários de vários modos e formas.[37] Spinozad. Após a vitória deste ano – o Estado desistiu de construir um novo aeroporto na área –, essas mesmas forças da ordem, atropelando seu próprio direito, tentaram desmantelar a ZAD que continua resistindo. O Estado argumenta que eles não querem submeter projetos individuais para poderem permanecer na terra – os zadistes contestam, propondo um projeto coletivo. Poder tentando afirmar seu comando contra o povo da lama: 68?

Vivemos um interregno, uma transição, desde 1968. De lá para cá, uma sobreposição de fins de mundo (capitalismo com democracia representativa e estado de bem-estar, socialismo autoritário, projetos de libertação nacional, planeta com a mudança geológica do capitaloceno) nos desafia. 68, esse acontecimento, nos diz, como inscrito novamente nos muros de Paris em 2016, que um outro fim de mundo é possível.

*Jean Tible é professor do Departamento de Ciência Política da USP

[1] Pela primeira vez está senda publicada a tradução no Brasil deste livro, traduzido e organizado por Anderson Lima da Silva e Martha Coletto Costa e que conta também com prefácio deste ano de Morin e apresentação de Marilena Chaui, além de textos de Olgária Matos e Irene Cardoso e orelha de Franklin Leopoldo.

[2] Ernest Mandel (1968). “The lessons of May.” New Left Review, n.52, Nov/Dec, p. 9-31.

[3]As frases pixadas nos muros de Paris e nos cartazes do Atelier populaire estão em itálico ao longo do texto.

[4] De la misère en milieu étudiant considérée sous ses aspects économique, politique, psychologique, sexuel et notamment intellectuel et de quelques moyens pour y remédier, escrito em 1966 (um ano e meio antes) por um grupo/coletivo situacionista.

[5] Matteo Guarnaccia. Provos: Amsterdã e o nascimento da contracultura. São Paulo, Veneta, 2015.

[6] “Mouvement 22 mars”. Em: Alain Schnapp e Pierre Vidal-Naquet. Journal de la Commune Étudiante: textes et documents. Novembre 1967-juin 1968. Paris, Seuil, 1969.

[7] Guy Debord. La société du spectacle. Paris, Gallimard, 1967, p.47.

[8] Henri Lefebvre. “A Internacional Situacionista”. Em: Sergio Cohn e Heyk Pimenta (orgs.). Maio de 68. Rio de Janeiro, Azougue, 2008.

[9] Maurizio Gribaudi e Michèle Riot-Sarcey. 1848: la révolution oubliée. Paris, La Découverte, 2009.

[10] Michel de Certeau. La prise de parole. Paris, Seuil, 1994, p. 40.

[11] Kristin Ross. Mai 68 et ses vies ultérieures. Paris, Agone, 2010.

[12] Jean-Paul Sartre e Daniel Cohn-Bendit. “A expansão do campo do possível”. Em: Sergio Cohn e Heyk Pimenta (orgs.). Maio de 68. Rio de Janeiro, Azougue, 2008, p.24.

[13] Solidarity. Paris: Maio de 68. São Paulo, Conrad, 2002, p.73.

[14] Ernest Mandel (1968). “The lessons of May.” New Left Review, n.52, Nov/Dec, p.9-31.

[15] Alain Touraine. Le communisme utopique; le mouvement de mai 1968. Paris: Editions du Seuil, 1972, p.40.

[16] Kristin Ross. Mai 68 et ses vies ultérieures. Paris, Agone, 2010, p.121-122

[17] Nicolas Daum. Mai 68 raconté par des anonymes. Paris, éditions amsterdam, 2008, p.15.

[18] Michael Hardt e Antonio Negri. Commonwealth. Harvard University Press, 2009, p.143.

[19] Para termos uma imagem que nos lembre a considerada primeira cena do cinema, dos irmãos Lumière indo filmar a saída dos operários de uma fábrica da família, hoje em São Paulo, podemos observar a saída das aulas da noite na Uninove na Barra Funda ou do polo de universidades na rua Vergueiro.

[20] Sergio Cohn e Heyk Pimenta. “Apresentação”. Em: Sergio Cohn e Heyk Pimenta (orgs.). Maio de 68. Rio de Janeiro, Azougue, 2008.

[21] Dan Berger. Weather Underground: histoire explosive du plus célèbre groupe radical américain. Paris, L’échappée, 2010.

[22] É um tanto estranha a quase ausência do internacionalismo nos textos de A brecha, apesar de muito presente nos acontecimentos de Maio (fronteiras = repressão; somos todos judeus alemães), inclusive as origens do Movimento 22 de março vêm da detenção de militantes do Comitê Vietnã Nacional na Universidade de Nanterre. Outra fonte de inspiração vem das lutas contra a Guerra na Argélia e o apoio à FLN (Frente de Libertação Nacional) como marco de um novo ativismo (o PCF não encampou essa luta). No calor de Maio, uma das propostas será a abolição do estatuto de estrangeiro na França.

[23] Tariq Ali. O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60. São Paulo, Boitempo, 2008.

[24] Immanuel Wallerstein. “1968: Revolution in the World System”. Theory and Society, XVIII, 4, July, 1989, 431-49.

[25] Michel de Certeau. La prise de parole. Paris, Seuil, 1994.

[26] Raoul Vaneigem. A arte de viver para as novas gerações. São Paulo, Veneta, 2016 [1967-1991].

[27] Após a virada, o governo francês vai pôr na ilegalidade várias organizações, como o Movimento 22 de março e a Juventude Comunista Revolucionária.

[28] Laurent Joffrin. Mai 68: histoire des événements. Paris, Seuil, 1988.

[29] Jean-Paul Sartre e Daniel Cohn-Bendit. “A expansão do campo do possível”. Em: Sergio Cohn e Heyk Pimenta (orgs.). Maio de 68. Rio de Janeiro, Azougue, 2008, p.40.

[30] Matteo Guarnaccia. Provos: Amsterdã e o nascimento da contracultura. São Paulo, Veneta, 2015, p.134.

[31] A França vê o surgimento em 1969 do importante MLF, Movimento de Libertação da Mulher.

[32]Raymond Aron. La révolution introuvable: reflexions sur la Revolution de Mai. Paris, Fayart, 1968 (esse interessantíssimo livro sai poucas semanas depois de A brecha, na mesma editora, constituindo um contraponto direto aos três autores. Para se ter uma noção do clima da época, Aron se propõe, nesse livro, a romper com o que ele denomina de “conformismo revolucionário” (!)).

[33] Gilles Deleuze et Félix Guattari. “Mai 68 n’a pas eu lieu”. Les nouvelles, 3 a 9 de maio de 1984.

[34] Essa formulação remete ao prefácio coletivo de Junho: potência das ruas e das redes (Fundação Friedrich Ebert, 2014), escrito junto com Alana Moraes, Bernardo Gutierrez, Henrique Parra, Hugo Albuquerque e Salvador Schavelzon.

[35] Les Temps Modernes. “Nuit debout et notre monde”. n. 691, nov-déc. 2016.

[36] Macron mantêm e reforça a onda repressiva (estado de emergência, militarização dos bairros periféricos…).

[37] Collectif Mauvaise Troupe. Contrées: histoires croisées de la zad de Notre-Dame-des-Landes et de la lutte No TAV dans le Val Susa. Paris, l’éclat, 2016.

Originalmente pubicado no Le Monde Diplomatique Brasil.



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