Política

As elites financeiras brasileiras estão perdendo a fé no autoritário que ajudaram a colocar no poder

Um impasse político e uma economia enfraquecida não estão justificando o apoio dado ao presidente de direita Jair Bolsonaro no ano passado

15/07/2019 16:47

Jair Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil em 2018, graças, em parte, ao apoio de ricos empresários e interesses financeiros que o preferiram em ralação ao seu oponente esquerdista, mesmo ele tendo prometido governar de maneira autoritária (Reuters)

Créditos da foto: Jair Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil em 2018, graças, em parte, ao apoio de ricos empresários e interesses financeiros que o preferiram em ralação ao seu oponente esquerdista, mesmo ele tendo prometido governar de maneira autoritária (Reuters)

 

Jair Bolsonaro pode ter se apresentado como um salvador populista, mas ao ganhar a presidência em outubro passado, o autoritário de direita  se fortaleceu com o apoio das classes mais ricas e das elites financeiras brasileiras .

Em menos de seis meses da sua presidência, a euforia e o otimismo das elites davam lugar à ansiedade, à medida que começavam a perder a fé que nunca deveriam ter tido.

A economia brasileira encolheu 0,2% no primeiro trimestre de 2019, segundo dados oficiais divulgados no final de maio, levando o país à beira de uma dupla recessão. O sutil declínio era esperado em meio a um período repleto de desastres e retornos ruins, disse o Ministro da Economia, Paulo Guedes, a repórteres.

No entanto, foi outro sinal negativo para um país onde mais de 13 milhões de pessoas permanecem desempregadas após uma crise econômica de meia década, da qual o Brasil ainda não se recuperou. E garante que o Brasil ficará aquém das altas expectativas que os economistas e os interesses do mercado estabeleceram para o país quando o presidente de direita e seu elenco de ministros econômicos neoliberais assumiram o poder em janeiro.

Ainda mais preocupante para as elites financeiras é a incapacidade de Bolsonaro e a aparente falta de vontade de cumprir a agenda ambiciosa de reformas econômicas e favoráveis ao mercado, que ele havia prometido.

"As coisas estão indo mais devagar do que esperávamos", disse Thiago Figueiredo, analista de São Paulo que antes mesmo da eleição era mais cético sobre Bolsonaro do que a maioria no setor financeiro. Isso é especialmente verdade para uma proposta de reforma do generoso sistema público de previdência do Brasil, uma prioridade dos reformistas, mas não para o próprio presidente.

Como resultado, o índice de aprovação de Bolsonaro entre a elite financeira desabou. Apenas 14% dos gerentes financeiros aprovaram o governo de Bolsonaro em uma enquete de maio  realizada pela XP Investimentos , que entrevistou 79 brasileiros no setor financeiro. Mais de 40% disseram que seu governo era ruim ou péssimo.

Isso está muito distante de como a indústria enxergava Bolsonaro em janeiro, quando assumiu o poder depois de aproveitar uma onda de descontentamento - causada pela corrupção desvairada, altas taxas de violência, economia fraca e declínio da fé no establishment político e na própria democracia – que o levou a uma vitória improvável. No início do ano, 86% dos profissionais financeiros entrevistados pela XP o viam como ótimo e bom. Apenas 1% o classificou como ruim ou péssimo.

O mercado brasileiro e os interesses empresariais - incluindo seus movimentos libertários emergentes, influentes empresários do agronegócio e elites financeiras - haviam passado por cima da inexperiência, tendências autoritárias, linguagem homofóbica, sexista e racista, e preferências políticas do presidente; na crença de que ele serviria os seus interesses.

Eles se juntaram ao lado de Bolsonaro depois de que Bolsonaro se aliou a Guedes, um economista educado na Universidade de Chicago que prometeu uma série de reformas que incluíam uma renovação do código tributário e do sistema previdenciário, reduções na regulamentação e privatização de dezenas de indústrias estatais.

            Era uma chapa familiar na América do Sul: Bolsonaro e Guedes, o autoritário-em-espera e o Chicago Boy, prontos para reformular uma economia como o ditador chileno Augusto Pinochet e sua equipe de economistas formados em Chicago fizeram. (Guedes já elogiou os economistas de Pinochet e prometeu reformas no estilo deles para o Brasil; a principal crítica de Bolsonaro a Pinochet, cujo regime matou e torturou milhares de pessoas, foi que ele  não matou o suficiente). E, embora o Brasil certamente precise de algumas reformas para fortalecer sua economia e reduzir seus índices altíssimos de desigualdade, há também  preocupações de que o caminho para o livre mercado da Escola de Chicago mexeria na balança da prosperidade pendendo para os ricos, e longe dos pobres e da classe média, assim como no Chile.

Mesmo que não compartilhassem as preocupações daqueles que viam Bolsonaro como um perigo para os direitos humanos, para as populações  brasileiras marginalizadas e potencialmente até mesmo à democracia, o otimismo das elites financeiras era sempre um pouco ansioso e muito descabido.

"Para quem acompanha política", a falta de interesse de Bolsonaro em economia e suas deficiências como líder político "eram óbvias", disse Thomas Traumann, consultor de negócios e ex-ministro das Comunicações no governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

“O mercado estava muito contente que Paulo Guedes se tornou o Ministro da Economia, mas era exatamente como Bolsonaro tentava seduzi-lo. E eles acreditaram”, disse Traumann. “Era como ‘Arquivo X’ – ‘Eu quero acreditar’. Eles queriam acreditar”.

Guedes talvez realmente acredite - no final de maio, ele ameaçou deixar seu cargo e viver no exterior se o Congresso Brasileiro modificasse sua proposta de reforma previdenciária.

No entanto, Bolsonaro nunca demonstrou tanto investimento na trajetória econômica do país. Ele chocou os investidores americanos quando no começo de sua campanha alegou ser um completo ignorante nos assuntos econômicos, e sua posição como um suposto reformista liberal dificilmente escondia um passado de um estatista direitista e que uma vez sugeriu que um ex-presidente de centro deveria ser baleado .

Como Donald Trump, o presidente americano a quem ele foi comparado, Bolsonaro sempre foi propenso a governar de forma aleatória e sem foco, garantindo que passaria mais tempo concentrado na sua base conservadora governamental que cobiça irracionalmente a agropecuária, do que nas preferências econômicas das elites, cuja aquiescência desempenhou um papel vital em impulsioná-lo ao poder.

Tuites indignados e gritos de “fake news ” vêm naturalmente para Bolsonaro, um ex-capitão do exército e deputado federal que nunca demonstrou uma afinidade com a democracia. Portanto, não é surpresa que em um governo formado por três grupos pouco alinhadas - “anti-globalistas” de direita, militares de carreira e neoliberais - é a equipe de Guedes que rotineiramente não consegue conquistar o ouvido de Bolsonaro. Guedes parece perceber isso também: o economista liberal curvou-se para a ala conspiratória "anti-globalista" do governo,  durante uma visita de Estado a Washington em março, quando disse ao "guru" de direita de Bolsonaro que ele era "o líder da revolução."

Bolsonaro, cujos 27 anos no Legislativo foram gastos como um membro, em grande parte, não influente de partidos de direita pouco influentes, mostrou pouco apetência ou capacidade para o tipo de alcance legislativo e construção de coalizões necessárias para mover qualquer coisa através do Congresso brasileiro - especialmente um esforço referente a reforma da previdência ainda mais impopular com os brasileiros do que ele.

Até recentemente, quando fazia visitas surpresa ao Legislativo, Bolsonaro passou mais tempo insultando seus supostos aliados e inimigos no Congresso do que os cortejando. Ao contrario dos Estados Unidos, não existe um movimento unificado parecido com o Partido Republicano Americano que encabece as pautas no Congresso para o autoritário distraído do Brasil.

Em vez disso, ele tem governado por decretos e busca avidamente apenas as medidas mais discriminatórias e destrutivas que prometeu como candidato. O governo de Bolsonaro retrocedeu proteções para LGBTQ e indígenas brasileiros , afrouxou as leis de armas em um país onde há aproximadamente 40.000 mortes por arma a cada ano, dando à polícia mais espaço para matar (tendo em vista seus números recordes no assunto), empurrou reformas draconianas para o sistema de justiça criminal e promulgou políticas que  promovem o desmatamento na Amazônia.

Muitos especialistas ainda acreditam que alguma espécie de reforma previdenciária passará pelo Congresso este ano, ao que tudo indica porque Rodrigo Maia, o líder da Câmara dos Deputados do Brasil, mas que dificilmente é um aliado natural de Bolsonaro, a vê como sua própria prioridade. Mas a perspectiva de outras reformas que levaram as elites a apoiar tão vertiginosamente um potencial autoritário nas eleições parece cada dia mais fraca, assim como as expectativas para a economia brasileira ainda debilitada e para as milhões de pessoas que ficaram desempregadas.

“Eu acho que o Brasil vai fazer o que faz melhor, e o que faz melhor é se virar”, disse Monica de Bolle, diretora de estudos latino-americanos da Universidade Johns Hopkins. “O Brasil é um campeão em confusões. Nós somos especialistas na arte de se virar.”

Por mais previsível que esse resultado tenha sido, as elites brasileiras quase certamente  continuarão isentas das consequências mais duras da sua decisão de ajudar a fortalecer um autoritário. Mesmo que - ao contrário de suas contrapartes mais ao norte - , nunca recebam suas reduções de impostos.

*Publicado originalmente no Huffpost | Tradução de Cristiane Manzato

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