Política

As utopias e a estupidez em crise

 

14/02/2021 10:26

Jair Bolsonaro (Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: Jair Bolsonaro (Reprodução/Youtube)

 
Gosto de ler autores com os quais não concordo, de uma parte porque me ajudam a glosar posições diferentes e – de outra – porque as pessoas inteligentes – de direita e de esquerda – desde que estejam no campo da República e da Democracia, sempre têm algo de relevante a dizer. Lembrei do livro de Cébrian, “Caos – o poder dos idiotas” (Espasa, 2020, Barcelona, 167 pgs.), para invocar seu testemunho insuspeito sobre a crise atual no Brasil, dois anos depois da vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais.

Lembro-o para comparar sua posição com a postura de figuras políticas do Brasil, que em épocas não muito distantes se mostravam como democratas “sociais” e acabaram, não só homologando hostilidades fascistas, de natureza judicial e policial, à esquerda, onde ancoravam as suas origens, mas também se aproximaram perigosamente do fascismo, falseando a sua covardia como se ela pudesse chancelar um episódio de “luta contra a corrupção”.

Abro este artigo mencionando o texto do amigo espanhol, que hoje não é um homem de esquerda, que partiu de uma jornada extraordinária como jornalista no “El País” e tornou-se um homem de empresa, na Europa, onde coleciona graves adversidades com as esquerdas espanholas, com as quais tenho as minhas principais afinidades. Trata-se de um jornalista brilhante, ficcionista e autor de ensaios importantes sobre a transição do franquismo para a democracia e outros tantos textos sobre a política europeia e espanhola, na passagem do Século XX para o Século XXI

É importante, nos dias que correm, fazer a crítica da crise liberal-democrática de um ângulo de esquerda, mas não é menos importante mostrar a incoerência dos personagens, que se dizem liberal-democratas -em momentos agudos de crise – a partir do centro e da direita, para mostrar que por dentro do racionalismo ilustrado percorrem importantes contradições que integram a política moderna.

Estas contradições não são principalmente entre o materialismo e o idealismo, mas entre o racionalismo e o irracionalismo, duramente visíveis na era bolsonárica. O que divide um católico da teologia da libertação e um crente nos feijões milagrosos dos pastores evangélicos, não é o ateísmo materialista versus o espiritualismo religioso. É a oposição entre o racionalismo e o irracionalismo.

Eis a passagem lembrada de Cébrian (pg.96): “Ainda que no início do mandato sua aliança (de Bolsonaro), com setores liberais, despertasse em alguns certa esperança de moderação no vulgar comportamento do novo presidente, é mais do que evidente a sua derivação para um autoritarismo tão obsceno como estúpido, bem ilustrado por sua luta pessoal contra a “máscara”, durante a pandemia e suas afinidades histriônicas com Donald Trump.” No dia que escrevo este artigo, estou esgotado por um aluvião de informações sobre a conspiração de Moro-Dallagnol e Cia. Ilimitada; impressionado com a não convocação do Vice-Presidente para uma reunião Ministerial; aturdido com a leitura das últimos mensagens da conspiração midiático-judicial contra Lula; pasmado com a ausência das mensagens no jornalismo da TV Globo (mas não-surpreso com o silêncio cúmplice de um ex-Presidente da República); recompensado – como advogado – pelas falas dos Ministros Gilmar Mendes, Lewandowski e Cármen Lúcia, sobre a conspiração contra Lula.

Lembrei-me neste novo contexto de dois livros: este, de Juan Luis Cébrian; e outro – de Isaiah Berlin (“Limites da Utopia”, Cia das Letras, 1991, pg. 94) que nos fala de De Maistre, místico, ultra religioso, discretamente liberal na juventude, simpático à Maçonaria num certo período, que se torna um radical direitista, “crítico feroz de toda a forma de constitucionalismo e liberalismo”, com a eclosão do período jacobino da Revolução Francesa: “crente na divindade da autoridade e do poder” e assim “inimigo inflexível do individualismo e do comprometimento liberal e secular das luzes.”

Nos mais densos e críticos períodos da história, vem à superfície, não só nas classes sociais como totalidade orgânica, mas nas comunidades e nas famílias, na solidão da individualidade da alma de cada um, o que estava nos porões desconhecidos de cada ser humano. Esta revelação se expressa sempre numa relação com o “outro”, próximo ou não, mas certamente e ela se faz por laços de memória, adquiridos na proximidade familiar, na restrita vida comum de um lugar ou na experiência social mais ampla da vida histórica.

Assim, um pai angustiado e triste, folgazão e feliz, rígido ou “liberal” nos costumes -por exemplo- vai influenciar a criança no futuro, passando-lhe “recados” de vida, que vão aparecer em comportamentos que caracterizarão sua relação com o mundo. Mais ainda as mães, para alguns, os irmãos e amigos diletos, podem ter inferências decisivas, formando a cultura da época, transfigurada em personalidades singulares que se tornam referências ou negações para muitos.

Pense-se em uma criança. Ter um pai ou uma mãe que defende a tortura, que despreza o “outro” diferente de si, que é racista ou misógino, vai ser um fator de “moldagem” de personalidades que vão ter interferência na vida pública ou na vida comum de natureza privada. Neste sentido é que tanto o “bem” como o “mal” são históricos e determinados socialmente e não atributos pré-constituídos fora da vida do gênero humano.

O olhar de De Maistre sobre a Revolução Francesa, revelado por Berlin, e o olhar de Bolsonaro sobre o mundo, apontado por Cébrian (dizendo-o “obsceno” e “estúpido”) revelam, a seu modo, os fios sofisticados da formação subjetiva de uma época, em que se preparam tragédias brutais, nas quais o “bem” e o “mal” estão compreendidos na integralidade da política, espaço no qual está se gestando, fluentemente, a vida e a morte, a opressão e a liberdade, a solidariedade ou a indiferença, que é promíscua com o fascismo e suas torturais físicas e morais.

Derrubar o Governo Bolsonaro, dentro da ordem da Constituição que nos resta – depois de tudo que aconteceu no país – passa a ser um dever ético-moral e mais um passo na separação dos seres humanos de uma irracionalidade revestida de mandato popular. Na verdade, nesta quadra histórica, na qual ser “pessoas de bem” é cultuar o mal absoluto da tortura, o símbolo da razão ilustrada deveria ser o simples grito da vida contra a mortandade, da liberdade contra o obscurantismo: o grito contra os massacres do negacionismo e da fome.

Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.

*Publicado originalmente em 'Sul 21'



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