Política

Augusto Comte, Barão de Itararé, Noel Rosa e Marina da Silva

Diante da comoção causada pela morte de Eduardo Campos e da tentativa de explorá-la politicamente, houve quem lembrasse de Comte e do Barão de Itararé.

25/08/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


Ao lado de algumas inutilidades, o turbilhão das redes sociais traz, vez por outra, reflexões interessantes. Há poucos dias, por exemplo, diante da legítima comoção causada pela morte de Eduardo Campos e da (ilegítima) tentativa de explorá-la politicamente, houve quem lembrasse, numa mesma postagem, Augusto Comte (1795-1857), criador do positivismo, corrente filosófica em voga no século XIX, e o nosso genial Apparicio Torelly, o Barão de Itararé (1895-1971).

De Comte foi citada a célebre frase: “Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados pelos mortos".

Já do Barão, lembrou-se de sua observação a respeito da frase do positivista: “Os vivos são cada vez mais governados pelos muito vivos”.

Já que estamos em citações retiradas das redes sociais, vale a pena lembrar também versos de Noel Rosa, em seu samba “Fita amarela”: “Meus inimigos que hoje falam mal de mim / Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim”.

Efetivamente, depois de morto, Eduardo Campos, que, como todos, tinha defeitos e qualidades, passou a personificar quase a perfeição.

Mas, deixando de lado a hipocrisia que tomou conta de muita gente, é forçoso reconhecer que a morte de Eduardo e a entrada de Marina no cenário como candidata a presidente mudou o quadro da disputa.

A única pesquisa já com a nova situação, feita pela Datafolha, mostra Marina com 21% das intenções de voto, um ponto percentual acima do tucano Aécio Neves. É um salto descomunal, pois Eduardo Campos tinha apenas 8%. Na projeção para um segundo turno, Marina bateria Dilma Roussef, por 47% a 43%.

Cabem aqui duas observações.

A primeira, causa certa estranheza o fato de que o crescimento de Marina tenha se dado unicamente sobre os votos dos indecisos e dos que pretendiam anular seu voto. Ela não teria retirado nada dos candidatos que já estavam na disputa. É pouco verossímil isso. De qualquer forma, até agora essa é a única pesquisa disponível. Paciência.

A segunda observação diz respeito ao momento em que a pesquisa foi realizada, ainda marcado pelo impacto da morte de Eduardo. É inevitável que, passada a comoção, haja mudanças.

De qualquer forma, algumas conclusões podem ser tiradas.

A entrada de Marina na disputa praticamente garante a existência do segundo turno, até então duvidosa.

No novo quadro, a candidatura Aécio pode ficar fora do segundo turno, no qual é certa a presença de Dilma.

Alguns, que mais torcem do qua analisam, defendem que o resultado da eleição passa a ser mais incerto para Dilma, apesar da disparidade de tempo de propaganda na TV (a atual presidente terá mais de dez minutos, Aécio terá quatro e Marina, apenas dois). A desproporção se repete nas inserções ao longo da programação. O maior tempo de TV é um trunfo e tanto.

Já que o quadro mudou, vale a pena estudarmos mais de perto o que poderia ser um eventual governo encabeçado por Marina.

Se fosse eleita, para que pudesse governar ela teria que tomar um de dois caminhos.

O primeiro seria mobilizar o povo em defesa de reformas que pudessem mostrar o que é, afinal, essa tal “nova política”, de que tanto fala, tendo um procedimento semelhante ao que, de forma pejorativa e preconceituosa, os conservadores chamam de chavismo. Nesse caso, com o apoio da sociedade civil, Marina poderia tentar enfrentar um Congresso majoritariamente hostil.

Essa alternativa é pouco provável. Seja pela história mesma de Marina - que é conservadora em muitos aspectos - seja porque ela não tem ligações com movimentos organizados. Por isso, mesmo que quisesse, Marina teria pouco espaço para se apoiar na sociedade civil, contrapondo-se a um boicote do Congresso. .

Além disso, há outro fator que não permite considerar esse caminho provável: ao contrário da imagem que se tenta vender às vezes, a candidatura Marina se assenta fortemente em gente muito próxima aos tucanos. Ao se examinar suas propostas (quase todas muito pouco claras), vê-se que ela é quase uma linha auxiliar do PSDB.

Seus gurus econômicos, por exemplo, a começar pelo que parece ser o mais próximo a ela, Eduardo Gianetti, são tucanos de corpo e alma. “Vamos continuar com o tripé [superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante]”. “Corrigir o salário mínimo pelo crescimento de dois anos atrás e o IPCA do ano anterior não tem o menor sentido. Também é complicado reajustar o benefício previdenciário pelo salário mínimo. Atrelar perpetuamente [as aposentadorias] ao salário mínimo não faz sentido”, afirmou Gianetti em entrevista à “Folha de S.Paulo” (21/10/2014).

É evidente que nada disso aponta para uma política que busque o apoio nas ruas.

Assim, o recurso à sociedade civil para governar sem se render à “velha política” parece improvável.

O segundo caminho possível para Marina seria compor com esse Congresso, ao preço de abandonar o discurso de que veio “para renovar a política”. Ele é possível. Mas, convenhamos, se assim for, um eventual governo de Marina não teria nada de “nova política”

Assim, tudo indica que, ou ela se renderia ao conservadorismo do Congresso ou se veria diante de um impasse.

Nenhuma das alternativas parece alvissareira para os trabalhadores.


(*) Presidente licenciado da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB e da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro



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