Política

Aumento da frota de veículos “satura”as ruas de Belo Horizonte

21/09/2012 00:00

Lívia Bacelete

Belo Horizonte - A frota de veículos de Belo Horizonte duplicou nos últimos dez anos. Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), o número de automóveis subiu de 706.480 em 2001 para 1.438.723 em dezembro de 2011. O efeito desse aumento em uma cidade em obras é óbvio: congestionamentos e acidentes de trânsito.

E os dados da Denatran mostram que mesmo em um intervalo curto de tempo o crescimento da frota na capital mineira é acelerado. Em dezembro de 2011 circulavam 1.005.634 automóveis e 178.480 motocicletas. Em maio de 2012, já eram 1.015.058 carros e 183.743 motos. Em cinco meses, quase 15 mil veículos a mais circulando em uma cidade com 627 km de vias arteriais e em uma área de 331 km².

Para o diretor de ação regional e operação da BHTrans (Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte S/A), Edson Amorim de Paula, o crescimento da frota está relacionado com a melhora econômica da população. “Isso implica em uma saturação das vias, pois há mais carros do que as vias suportam”, alerta. Ele conta que essa realidade não é exclusiva de Belo Horizonte: trata-se de um fenômeno generalizado no país. “Os incentivos dos governos normalmente priorizam o transporte individual. Temos pouco incentivo para transporte público”, argumenta.

Osias Baptista Neto, consultor em transporte e trânsito, garante que seria impossível acompanhar o crescimento da frota com o aumento das vias de circulação. “Não se pode substituir a cidade das pessoas pela cidade dos carros, por isso é preciso aumentar a eficiência do sistema de circulação”, afirma. Ele ressalta que o ponto chave para resolver o problema dos congestionamentos é “arranjar uma forma de conduzir o maior número possível de pessoas, não de veículos, no menor espaço possível”. Ou seja: aumentar a eficiência do transporte público.

O diretor da BHTrans Edson Amorim concorda que a forma de atender a mobilidade nas cidades médias e grandes é através do investimento em transporte público. Ele ressalta, contudo, que é preciso também fazer melhorias no sistema viário e nos veículos para que os eventuais acidentes sejam de menor gravidade e não provoquem acidentes secundários.

Há tempos os belorizontinos esperam por um transporte coletivo que atenda as demandas da cidade. Muitas são as reivindicações pela expansão da linha de metrô, mas Osias Baptista explica que, por causa da topografia da cidade, mesmo que houvesse recursos não seria possível implantar um transporte público totalmente baseado no sistema metroviário. “Você não consegue levar o metrô a regiões como Belvedere, avenida Raja Gabáglia, Concórdia e várias outras áreas”, lamenta. Belo Horizonte é uma cidade montanhosa e não há registros de metrôs em cidades com essa topografia, de acordo com Baptista.

O metrô da capital mineira tem apenas uma linha em operação, com 19 estações, 25 trens e 28,2 km de extensão, para uma demanda de 2,4 milhões de habitantes. O sistema de trens transporta cerca de 140 mil passageiros e realiza 245 viagens por dia. Na região metropolitana, que há oito anos não vê inaugurações de novas estações, o movimento pró-metrô reivindica ampliação da linha.

Uma alternativa para o transporte público na cidade é um sistema de ônibus em vias de trânsito rápido, evitando que os coletivos fiquem presos em congestionamentos. Tal sistema está sendo posto em execução como preparação para a Copa de 2014 e terá duzentos ônibus articulados, que circularão nas avenidas Dom Pedro I, Antônio Carlos e Cristiano Machado e na área central. O projeto prevê o transporte de 750 mil do 1,2 milhão de passageiros diários do sistema público de transporte. De acordo com a BHTrans, as obras serão concluídas nos próximos sete meses.

Acidentes e fiscalização
Com o crescimento da frota de veículos, aumentou também o número de acidentes. “É uma lógica intuitiva”, afirma o diretor da BHTrans Edson Amorim. Em 2000, foram 13.346 ocorrências; em 2011, 21.137, um crescimento de 58,4%. No entanto, Amorim lembra que o índice de acidentes fatais tem decrescido. De acordo com a BHTrans, aconteceram 297 acidentes fatais em 2000, enquanto em 2011 esse número ficou em 262. Além disso, a cidade diminuiu sua taxa de mortalidade no trânsito, passando de 4,27 para cada 10 mil veículos em 2000 para 1,97 em 2011. Mesmo assim, Amorim afirma que não se pode aceitar que uma pessoa morra todos os dias no trânsito. “Enquanto cidadão, não posso aceitar isso como natural, porque todo acidente é evitável”, ressalta.

Para o consultor Osias Baptista, Belo Horizonte precisa recuperar o respeito no trânsito. “Isso vai reduzir acidentes e congestionamentos”, acredita. Ele afirma que para isso é preciso se basear em três pontos: engenharia, educação e fiscalização. O estudioso ressalta a importância de campanhas que tratem do respeito no trânsito com seriedade e enfatiza que a BHTrans deve recuperar a capacidade de fiscalizar.

Há três anos, a empresa está proibida pela justiça de realizar autuações, atribuição que passou ficou destinada à Guarda Municipal e à Polícia Militar. Edson Amorim conta que a função da BHTrans não seria apenas multar – essa seria mais um instrumento da fiscalização do trânsito. Ele adverte que a proibição dificultou os procedimentos operacionais da empresa. “Essa situação é muito ruim, mas temos procedimentos adequados que nos permitem gerenciar o trânsito”, diz. Amorim espera que a empresa retome o direito de aplicar autuações quando o caso for a julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), ainda sem data prevista.

De acordo com a BHTrans, em 2011 foram aplicadas em Belo Horizonte 693.679 multas, que geraram uma arrecadação de R$ 54,6 milhões, montante aplicado em implantação e manutenção de sinalização; operação de tráfego e fiscalização de trânsito; ações de segurança e campanhas educativas. Atualmente, a cidade possui cinquenta radares fixos, três radares estáticos, 32 detectores de avanço de semáforos e quatro detectores de invasão de faixa exclusiva. Para Osias, o poder de multar significa o poder de operar o trânsito. O consultor questiona a falta de pessoas suficientes para realizar a fiscalização do trânsito na cidade e destaca que solucionar o congestionamento é uma questão de conhecimento em engenharia de trânsito.

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