Política

Bate-boca esquenta campanha no último debate na tevê, no Rio

01/10/2004 00:00

Rio de Janeiro – A campanha para a Prefeitura do Rio de Janeiro este ano foi a mais morna e sem-graça dos últimos tempos. Isso, até o debate de quinta-feira (30) à noite, promovido pela Rede Globo, quando os cinco principais candidatos protagonizaram momentos de tensão e descontrole, que tiveram seu ápice numa dura discussão entre o prefeito Cesar Maia (PFL) e Luiz Paulo Conde (PMDB), que se acusaram mutuamente de desonestidade diante de milhões de telespectadores.

Como era esperado, todos os adversários de Cesar centraram sua artilharia no prefeito, que lidera as pesquisas e pode ser reeleito ainda no primeiro turno. Algumas dobradinhas entre Jorge Bittar (PT) e Marcelo Crivella (PL), e também entre Bittar e Jandira Feghali (PCdoB) foram feitas para atacar a administração de Cesar, sobretudo o sistema municipal de saúde, que é o calcanhar-de-aquiles do candidato do PFL.

Foi fazendo críticas a esse setor que Conde disse estranhar que o prefeito mantenha como secretário de Saúde o banqueiro e deputado federal tucano Ronaldo Cezar Coelho: “Ainda por cima, o Ronaldo foi o principal doador individual da campanha de Cesar em 2000”, disse o peemedebista. A insinuação de favorecimento irritou Cesar que, ao ganhar direito de resposta, começou a briga. Ele mostrou documentos do Ministério Público sobre uma investigação que indica que duas empresas pertencentes à família de Conde – a LPC Arquitetura e a STA – passaram de um faturamento de R$ 208 mil em 1996 para R$ 6,2 milhões logo depois que o candidato do PMDB assumiu a prefeitura no ano seguinte.

A acusação é velha, já havia sido usada pelo mesmo Cesar Maia no último debate da campanha de 2000, mas tirou completamente Conde do sério. Aos gritos, sem atender aos apelos de calma feitos pela jornalista mediadora, Leilane Neubarth, e até mesmo por seus assessores, Conde fez com as mãos um gesto indicando que Cesar é ladrão, além de chamar o prefeito de mau-caráter e sem-vergonha. O bate-boca se estendeu por vários minutos, diante de uma incrédula Leilane, que acabou também se excedendo ao dizer que o debate só continuaria “se os candidatos conseguissem calar a boca”.

Sobrou para a mediadora
A mediadora acabou recebendo uma resposta dura de Jandira, depois que a candidata comunista foi aconselhada a formular rapidamente sua pergunta ao invés “de fazer uma dissertação”: “Sua opinião sobre a minha pergunta não me interessa”, disse a deputada para a jornalista. Muito irritada desde o início do debate e aparentando estar gripada, Jandira foi à loucura com a Globo, que deu três direitos de resposta a Cesar: “Ele é prefeito e não pode ter direito de resposta a cada vez que criticamos sua administração. Nós estamos aqui para isso, senão não seriamos candidatos e estaríamos apoiando o prefeito. A emissora tem que corrigir isso”, pediu.

Jandira protagonizou um momento engraçado ao se queixar das piadas que Cesar fez com sua aparência física durante toda a campanha: “Lamento o seu preconceito, Cesar. Esse cabelo aqui é fruto da miscigenação do povo brasileiro”, disse a deputada, apontando para as próprias madeixas encaracoladas. Ao final do debate, Jandira presenteou o prefeito com uma longa peruca cor-de-laranja, levando todos às gargalhadas. Outro momento que arrancou risos da platéia presente no estúdio foi o desastrado pedido de desculpas de Conde pela briga com Cesar: “Quando falam mentiras sobre mim, tenho que reagir com energia. Prometo que vou me controlar daqui pra frente, mas de vez em quando saio dos trilhos. De vez em quando, eu sou humano”, disse Conde que fora comparado a uma baleia encalhada por Cesar durante a campanha.

Fugindo da briga
Sem entrar no clima de briga ou demonstrar irritação diante das câmeras, Bittar e Crivella foram bem, permanecendo dentro da estratégia que traçaram para si no debate. Fugindo da conversa quando o assunto era a retirada da TV Record do ar pela Justiça por fazer propaganda ilegal de sua candidatura, Crivella, que é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, voltou a misturar política e religião: “A situação do Rio clama aos céus e aos homens de boa vontade”, disse, logo na sua primeira intervenção. Ao ser questionado sobre isso novamente pelo petista, o candidato do PL respondeu: “Pregando o evangelho, eu liberto escravos. Como homem público, quero libertar a sociedade da escravidão das dificuldades econômicas”.

Bittar ressaltou durante todo o debate que sua candidatura seria a única, devido ao apoio do governo Lula, em condições de oferecer aos eleitores um verdadeiro confronto de projetos no segundo turno: “Não vote no Cesar por medo do Crivella ou do Conde. Leve o PT ao segundo turno”, pediu. O duelo com Jandira, que atrapalhou a ambos durante toda a campanha, foi revivido quando a candidata comunista questionou como “poderia se dizer de esquerda um deputado que votou contra os servidores e a favor desse salário mínimo”. Bittar respondeu dizendo que o PCdoB integra a base e apóia o governo Lula e sua política econômica: “O ministro mais importante, o Aldo Rebelo da Coordenação Política, é do seu partido. O seu partido, Jandira, votou nos mesmos pontos que eu votei”, disse.

No encerramento, todos os adversários de Cesar rogaram aos eleitores que proporcionem o segundo turno, cada um pedindo votos para si, evidentemente. Canalizando sua irritação para uma bela fala de despedida, Jandira perguntou: “Se a Saúde vai mal, se o Transporte vai mal, se tudo vai mal, por que reeleger esse prefeito?”. Como última pérola, Conde comparou Cesar ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush: “Cesar faz parte de uma escola que está instituindo a cinicocracia, governando com mentiras e “factóides”. É como o Bush, que está para ser reeleito. Não podemos permitir isso”, disse.



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