Política

Berzoini e Pont no 2º turno; Campo Majoritário perde espaço

27/09/2005 00:00

Brasília - A divulgação do resultado final do 1º turno das eleições diretas do PT foi festejada pelos parlamentares da legenda por conta da grande participação dos militantes. A marca de 314.934 votantes, 40,7% dos filiados aptos a votar, foi classificada como positiva tanto para deputados e senadores de correntes ligadas ao Campo Majoritário (conjunto de tendências que comandam o PT) quanto pelas correntes internas da chamada esquerda do partido. As atenções estão voltadas agora para o 2º turno, que será disputado entre Ricardo Berzoini, candidato da situação, e Raul Pont, ligado à tendência Democracia Socialista. Outro fato que concentrou atenções foi a saída de vários parlamentares do partido, anunciada no início desta semana.

Apesar das diferenças, a maioria dos setores que tiveram as melhores colocações no pleito concordou que a "boa" participação dos filiados no PED foi uma mostra de que o partido está vivo. "Foi uma bela resposta à direita brasileira, que apostava na desmobilização do PT e no fracasso do PED. Os militantes mostraram que acreditam na recuperação do partido", avaliou a deputada Iriny Lopes (PT-ES), ligada à candidatura de Valter Pomar, também da esquerda partidária e que ficou em terceiro lugar. "A militância que mostrar à sociedade que o partido não acabou", comenta a senadora Ana Júlia (PT-PA), do grupo do candidato Raul Pont. "A participação da militância foi resposta à alegria raivosa da direita, como disse Chico Buarque. Mostramos agora e vamos mostrar em 2006 que o sentimento geral da nação não é este que a mídia tenta passar, de que o PT se esgotou", diz Maurício Rands (PT-PE), integrante do Campo Majoritário.

A grande quantidade de votos mostrou uma vitória razoavelmente folgada do candidato do campo majoritário e uma disputa acirrada entre outros quatro candidatos. Foram contabilizados 293.955 votos válidos. Berzoini e Pont, que disputam no próximo dia nove de outubro a segunda fase do pleito, obtiveram 123.534 (42%) e 43.190 votos (14,7%), respectivamente. A apuração, que durou mais de uma semana, foi um teste de ferro para os corações dos integrantes das duas principais chapas oposicionistas. Nas últimas urnas, Raul Pont passou Valter Pomar, ligado à corrente Articulação de Esquerda, que acabou com 42.899 votos (14,6%). Na quarta colocação aparece o já ex-petista Plínio de Arruda Sampaio, que recebeu 39.342 votos (13,4%), seguido por Maria do Rosário, ligado à tendência Movimento PT, recebeu 39.059 votos (13,3%).

Um dos pontos festejados pelos oposicionistas foi a redução do poder do Campo Majoritário no Diretório Nacional do partido, que possui 81 cadeiras, além das dos líderes petistas na Câmara e no Senado e do presidente do partido. Na posse da próxima gestão, o grupo comandado por personalidades históricas como José Dirceu e Lula deixará de ter 52% e passará a ter 42%, o que o impede operar um comando automático - decidir internamente e apenas comunicar ao resto do partido -, como acontece hoje. Para a senadora Ana Júlia, este processo não é apenas resultado da crise, mas de uma manifestação do conjunto da militância da necessidade de "refundar o PT". "A nova composição do diretório, com um caráter mais a esquerda, vai contribuir para aumentar a autonomia do partido em relação ao governo. O PT não pode ser uma correia de transmissão do Planalto", pontua.

Para Ana Júlia, a intenção da esquerda não é formar um novo campo majoritário, mas garantir que o partido seja a somatória das diferentes visões presentes nele a partir de mecanismos que recuperem a democracia interna. Apesar de pertencer ao campo majoritário, Maurício Rands avalia que o fenômeno é positivo, pois irá "descristalizar" a atuação de blocos dentro da legenda e obrigar as forças a negociarem mais suas posições no interior do diretório. Rands vê com tranqüilidade a redução do tamanho do seu grupo e credita isso a um movimento natural frente à crise por que passa o PT. "A crise afeta sempre a tendência majoritária. Mas sou contra generalizações, quem cometeu os erros tem de pagar individualmente por eles".

Na opinião da deputada Iriny Lopes, a diminuição não é uma conseqüência "natural", mas uma mostra de que a militância compreendeu que a crise não é apenas o deslize de alguns dirigentes, mas um problema geral da política conduzida pelo campo majoritário. "Os setores conservadores atacam o PT pela direita, querendo destruí-lo. Já a resposta dos militantes foi pela esquerda, o que mostra uma postura crítica e não um adesismo às teses propagadas pelos meios de comunicação", avalia. Para confirmar este movimento de enfraquecimento, mesmo que relativo, do campo majoritário, as tendências de esquerda querem transformar o 2º turno do pleito em um "plebiscito entre o continuísmo e a mudança". Para isso, as tendências buscam consolidar os apoios das outras candidaturas e fazer valer os 58% de votos que não foram depositados em Berzoini.

Neste cenário, a saída do PT de parte da corrente Ação Popular Socialista, que sustentou a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, pode ser um obstáculo difícil a ser vencido. Os 13,4% votos depositados em Arruda Sampaio podem fazer falta na reta final. Maurício Rands avalia que há outros pontos a favor do Campo Majoritário e destaca o descolamento de grupos regionais ligados a tendências do chamado centro do PT, como é o caso do Movimento PT da candidata Maria do Rosário, e a perda de apoio por parte dos oposicionistas de alguns setores do Campo que não votaram em Berzoini, como o grupo ligado à Martha Suplicy em São Paulo. Já a senadora Ana Júlia confia na consolidação do movimento de mudança baseada nas pessoas que rejeitaram Berzoini no 1º turno. "Elas deram um sinal que querem mudar o partido e irão mostrar isso de novo", garante. "O desafio é trazer os filiados que não votaram no 1º turno para a candidatura de Raul no 2º", avalia o deputado Paulo Rubem Santiago (PT-PE).

Um pé dentro e outro fora
Se o resultado do PED é olhado com esperança por alguns, foi a gota d‘água para um setor do partido. A realidade no Congresso na situação tensa vivida pelo chamado Bloco Parlamentar de Esquerda, formando no início do ano por parlamentares descontentes com o PT. Já anunciaram a saída do partido os deputados Ivan Valente (SP), Chico Alencar (RJ), Orlando Fantazzini (SP), Maninha (DF) e João Alfredo (CE). Há ainda a possibilidade de novas desfiliações, mas parte dos parlamentares do bloco já firmou compromisso de permanência e discute agora como continuar a disputa do partido no novo cenário. "Queremos debater para o diretório um programa da esquerda, que debata e proponha alternativas aos problemas do PT e do governo", diz Paulo Rubem Santiago, coordenador do bloco.

O deputado pernambucano informou que os parlamentares do bloco devem até esta quarta (28) fechar uma carta sobre a sua situação no PT, expondo suas posições sobre o porquê de ficar no PT e como continuar no partido. "Temos de ser capazes de partir para uma agenda de esquerda, de autonomia do partido em relação ao governo, de promoção de debates sobre os rumos do governo e sobre o provável programa de governo de Lula para 2006", comenta. Ele cita como exemplo a baixa execução orçamentária da União neste ano. "Além de ter ampliado o superávit, está aprofundando o arrocho fiscal", critica. No entanto, ele avalia que a saída dos parlamentares ligados ao bloco prejudica a disputa do PT e do governo à esquerda.

A debandada também repercutiu nas forças mais votadas no PED. O Campo Majoritário criticou e olhou com certo desdém as desfiliações. "As saídas foram menores do que se dizia", fala Maurício Rands. Já as tendências de esquerda lamentaram a atitude dos agora ex-petistas por conta das conseqüências diretas na disputa interna. "Foi feita de forma equivocada e pouco democrática, uma vez que condicionou a permanência deles à vitória de Plínio. O maior problema é que a ausências destes grupos enfraquece a disputa contra o Campo Majoritário", analisa a deputada Iriny Lopes. "Foi uma atitude precipitada e individualista, visando apenas 2006", comenta a senadora Ana Júlia.

Para o deputado Dr. Rosinha (PT-PR), também ligado à candidatura de Raul Pont, o episódio é triste não só para o PT como para a esquerda. "Lamento que tenham saído do PT algumas pessoas sérias e honestas. Aqueles que deveriam ficar estão saindo e os que deveriam sair, ficam. Pior ainda para a esquerda, por que tem agora mais pessoas num processo difícil de reconstrução da sua estratégia de luta". Em relação à bancada, o deputado paranaense afirma que as saídas a prejudicam, mas que a situação ainda é uma incógnita. Para Ana Júlia, a debandada de pessoas ligadas à esquerda pode enfraquecer ainda mais as disputas na bancada por posições ligadas historicamente aos grupos que se opõem ao campo majoritário.



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