Política

Bolsonaro e Macri em chamas

As chamas da Amazônia encontraram uma América do Sul em seu maior momento de desintegração, devido às políticas adotadas por Argentina e Brasil

25/08/2019 18:18

(AFP)

Créditos da foto: (AFP)

 
Pouco solidário com seu amigo, Mauricio Macri não saiu em defensa de Jair Bolsonaro após o ataque feroz do presidente francês, Emmanuel Macron. Tampouco reprovou o fato de que sua atitude diante da tragédia amazônica colocasse em dúvida o paraíso prometido por essa direita aos argentinos. O fogo mostrou dois presidentes transformados em uma dupla chamuscada, e na defensiva.

Dias atrás, Macron deu por terminadas as negociações entre a União Europeia e o Mercosul, porque “Bolsonaro mentiu” sobre seus compromissos de conservar a Amazônia, fonte da quinta parte do oxigênio mundial, como parte da lucha contra o aquecimento global do planeta. O presidente do Conselho Europeu, o polonês Donald Tusk, exigiu diretamente ao Estado brasileiro que apague o incêndio, se quiser seguir negociando com o bloco.

O Mercosul não é só o Brasil, mas também a Argentina, o Uruguai e o Paraguai. Se para Macri, um eventual acordo com a União Europeia supõe a entrada a uma espécie de éden comercial, por que se cala diante desse risco? Resposta número um: não quer nem pode brigar com a França. Resposta número dois: Bolsonaro instruiu os bancos brasileiros a participarem da conspiração do dia 9 de agosto, que inflou as cotações argentinas em Nova York. Resposta número três: nem ele sabe o que dizer, porque qualquer afirmação seria contraditória. “A Amazônia, o Aquífero Guarani e o nosso Atlântico Sul são áreas sensíveis, que não só enfrentam altos riscos de dano ambiental como também são objeto da voracidade das potências mundiais e dos interesses das grandes multinacionais”, refletiu o deputado argentino Guillermo Carmona, da aliança peronista Frente de Todos – a mesma de Alberto Fernández e Cristina Kirchner.

O incêndio na Amazônia sela com fogo o seguinte paradoxo: os projetos de integração sonhado por Macri e Bolsonaro, como o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, ou entre o Mercosul e os Estados Unidos, liquidariam o Mercosul. Para se “integrar ao mundo”, como querem os dois presidentes, Argentina e Brasil devem desintegrar os mecanismos de integração entre si, e entre seus vizinhos. Isso também significa desintegrar cada um. E não se trata de mero jogo de palavras, porque o Brasil é o destino de metade das ventas argentinas ao exterior, em termos de produtos manufaturados. Se entrasse em vigência o acordo com a União Europeia, o modelo Macri-Bolsonaro, os produtos argentinos passariam a competir com os europeus pelo mercado brasileiro, e vice-versa. A Argentina também é muito importante para o Brasil, já que é o terceiro sócio comercial dos vizinhos.

Diante do repúdio internacional pelos 72 mil focos de incêndios que terminaram gerando o grande estrago dos últimos dias, Bolsonaro disse que a Amazônia é soberania brasileira. E tem razão, mas seu conceito de soberania não parece incluir a soberania popular: a piromania dos produtores de soja do agronegócio ignorou os aletas dados pelas autoridades ambientais, e também o fato de que todos esses incêndios colocam em risco não só o oxigênio mundial como também a vida de milhões de pessoas, entre elas as que pertencem aos povos originários sem acesso ao direito coletivo à terra que deveria ser garantida a eles peal legislação internacional. Agora, também está em risco o futuro, porque o habitat se degradou de modo irreversível.

O incêndio não só iluminou o paradoxo da integração desintegradora. Também deixou evidente a irresponsabilidade de haver desarmado a Unasul com a desculpa de que era uma construção política concebida para defender o chavismo venezuelano. Essa ideia, também ideologizada – como todo o resto da política exterior de Macri e de Bolsonaro –, omitiu a verdade histórica. A Unasul começou a funcionar em 2010, a partir do trabalho de Néstor Kirchner como secretário-geral, e em contexto de pluralidade. Era integrada não só pela Argentina de Cristina Kirchner, a Venezuela de Hugo Chávez e a Bolívia de Evo Morales. Também estava a Colômbia de Álvaro Uribe, e depois de Juan Manuel Santos, além do Chile de Sebastián Piñera. Três governos conservadores.

No pior momento das relações entre Chile e Bolívia, Piñera ofereceu ajuda a Evo para enfrentar o problema do fogo que afetou a região de Chiquitania, no território boliviano. Houve outra oferta de ajuda de Macri. Evo agradeceu aos dois.

Morales também falou sobre um contexto que esteve ausente nas declarações de seus colegas da região. “O incêndio na Amazônia é um chamado aos países e governos do mundo, a proteger o meio ambiente com responsabilidade integral e compartilhada, um desafio do qual não se pode escapar, e que deve ser enfrentado através da luta contra os efeitos e as causas do aquecimento global”. Bolsonaro e Macron se sentirão aludidos?

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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