Política

Bolsonaro e o Cinema como Instrumento de Doutrinação

Para compreender o projeto em marcha no governo de Jair Bolsonaro não basta tomar em consideração o papel do cinema e da produção televisiva na construção de ideais nacionalistas. Há um segundo elemento: a religião.

06/09/2019 13:32

(Adriano Machado/Reuters)

Créditos da foto: (Adriano Machado/Reuters)

 
Joseph Goebbels e Adolf Hitler desenharam um programa de propaganda e doutrinação que tinha no cinema eixo fundamental, ao elevar os símbolos da germanidade. Papel determinante neste programa é desempenhado por Leni Rienfensthal, cineasta do regime, elevando as cerimónias do regime nazi nas películas O Triunfo da vontade (1934) e Os deuses do esta%u001dio (1938). Da mitificação do Fu%u008hrer à glorificação da “nação” germânica, o cinema das subtilezas, das mensagens e da doutrinação atingia o seu clímax. Aplicando a ideologia de combate cultural, o regime nazi encontra no cinema instrumento central para produzir uma ideia de alteridade contrastativa que “justificava” o programa racial. Em Jude Su%u008ss (1940) é narrada a história, vagamente inspirada em acontecimentos reais, de um judeu que é justamente tratado por uma comunidade alemã depois de ter cometido inúmeros delitos. No entanto, Der ewige Jude (“O eterno judeu” 1940) aparece como a obra mais emblemática do programa ideológico cinematográfico ao apresentar os judeus polacos como intrinsecamente maus, feios, preguiçosos e corruptos.

A utilização do cinema para fins de propaganda de regime não foi, necessariamente, um exclusivo nazi. No Estado Novo português, longe da crueldade nazi, o cinema serviu para valorizar um modelo social e moral. Em 1933 Salazar cria o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) entregue à direção de António Ferro. O Portugal das canções e do mundo rural idílico é explorado a fim de constituir uma ideologia coletiva, filmadas as aldeias limpas, as gentes sempre em traje tradicional, trabalhando na lavoura de forma sorridente e despreocupada. O Portugal imaginado pelo Estado Novo foi o de um país de gente pobre, honrada, serena, devota, cantadeira e regionalista. O cinema de comédia mostra-nos uma Lisboa de gente bem-humorada, de domésticas e criadas, de cantadeiras, de bairrismos. Uma Lisboa que se alegra na sua vivência serena dos fados e dos futebóis.

No caso brasileiro, durante a chamada “Era Vargas”, o Estado Novo, o cinema inscrevia-se num programa maior que era o da “educação das massas”. Esse programa de instrução da população permitia a doutrinação nacionalista sob a tutela do Departamento de Propaganda e Difusa%u003o Cultural. No período da ditadura militar, a propaganda subliminar ficou a cabo de empresas que mantinham parcerias com o governo, produzindo uma ideia de democratização da produção cultural. No meio de programas de entretenimento radiofónicos e televisivos, a simpatia para com o regime ia sendo feita de forma clara, aplicando o modelo de valorização das figuras do regime. No entanto, foi através das telenovelas que a ação da ditadura militar mais se fez sentir, por via da valorização do “homem novo” em contraste com a decadência do passado que importava suprimir. A produção Irmãos Coragem (1970) trata, precisamente, desse conflito e do olhar “intra-colonialista” do regime, valorizando a descoberta do Brasil e das suas potencialidades.

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Para compreender o projeto em marcha no governo de Jair Bolsonaro não basta tomar em consideração o papel do cinema e da produção televisiva na construção de ideais nacionalistas por via da elaboração de modelos e arquétipos que permitem difundir uma doutrina. Há um segundo elemento que conjugado à propaganda ideológica estão como pano-de-fundo da ação do regime bolsonarista: a religião. O combate cultural na sociedade brasileira, marcado por uma agenda de erradicação das minorias, encontra na religião a sua força-motriz. O cenário de tomada do poder por parte das igrejas evangélicas, quer por via direta, com a eleição de políticos abertamente evangélicos e com agendas abertamente evangélicas, como a ministra Damares Alves, e inúmeros prefeitos que impuseram leituras da Bíblia em sessões solenes, quer por via mediática, com o controlo de infindáveis meios de comunicação, possibilita a formação de uma propaganda que visa a instauração de um modelo social brasileiro alavancado na fé e na moral evangélica, que não permite sinais contrários de multiculturalismo e liberdades individuais, combatendo uma suposta “ideologia de género”, as religiões de matrizes africanas, os movimentos LGBTI, os movimentos negros ou os movimentos feministas.

Através da ANCINE (Agência Nacional do Cinema), Bolsonaro vetou o financiamento para filmes que tratem da diversidade de género e questões LGBT, afirmando, publicamente, a necessidade e a intenção de eleger alguém com um “perfil evangélico” para o cargo, a fim de existir um controlo moral sobre o cinema brasileiro. Ora, num país onde a maioria dos órgãos de comunicação estão sob o controlo das maiores igrejas evangélicas, em que os canais de televisão transmitem, continuadamente, cultos e produções televisivas sobre temáticas bíblicas, bem como fomentam o combate espiritual e cultural, o controlo sobre a ANCINE ditará, por fim, a instituição de um aparelho de propaganda de regime.

João Ferreira Dias é Doutorado em Estudos Africanos pelo ISCTE-IUL. Mestre em História e Cultura das Religiões pela FLUL. Investigador Integrado do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL.

*Publicado originalmente no portal Esquerda.net



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