Política

Bolsonaro enfrenta sua maior crise - e está se debatendo

Grandes panelaços mostram como o presidente do Brasil está vulnerável em meio ao surto de coronavírus. Os próximos dias serão críticos

20/03/2020 16:10

Bolsonaro em entrevista coletiva em Brasília (Andre Coelho/Getty Images)

Créditos da foto: Bolsonaro em entrevista coletiva em Brasília (Andre Coelho/Getty Images)

 
SÃO PAULO – Enquanto o coronavírus, impiedosamente, se espalhava nas últimas semanas, Jair Bolsonaro procurava, frequentemente, minimizar o risco, alegando que a pandemia era uma "fantasia" e "histeria" promovida pela mídia para enfraquecer o governo. Apesar das advertências de especialistas em saúde pública, Bolsonaro convocou seus apoiadores a participarem de protestos pró-governo em diversas cidades pelo país.

No dia da marcha, Bolsonaro cumprimentou pessoalmente centenas de simpatizantes em frente ao palácio presidencial enquanto ainda aguardava seus próprios resultados de testes para o vírus (eles resultaram negativos, ao final), depois que mais de uma dúzia de seus conselheiros testaram positivo após uma viagem para os Estados Unidos.

Para seus críticos, a decisão de Bolsonaro não apenas colocou em risco a vida de muitas pessoas. Também marcou um ponto de virada em sua presidência. "Os ventos políticos estão mudando", escreveu no Twitter Pedro Doria, colunista de jornal e comentarista de rádio. Joel Pinheiro, colunista da Folha de São Paulo, escreveu na segunda-feira que "uma chave virou". Um vídeo de um migrante haitiano confrontando Bolsonaro dizendo "Você não é mais o presidente" se tornou viral nas mídias sociais.

Por duas noites consecutivas na terça e na quarta-feira, enormes protestos, com as pessoas batendo panelas, contra Bolsonaro foram ouvidos em áreas de classe alta e média-alta de várias cidades brasileiras que votaram esmagadoramente pelo presidente nas eleições de 2018. Muitos fizeram paralelos com protestos semelhantes que destruíram as presidências de Dilma Rousseff e Michel Temer - a primeira foi deposta por impeachment, e alguns agora estão se perguntando abertamente se Bolsonaro enfrentará um destino semelhante.

Parece muito cedo para avaliar se o vírus representa um risco terminal para a presidência de Bolsonaro; outros líderes, incluindo seu aliado Donald Trump, adotaram um tom mais sério após os primeiros erros. Mas o Brasil não é os Estados Unidos. Nos últimos anos, demonstraram a rapidez com que o público aqui pode se virar contra seus líderes. Está claro que os próximos dias serão críticos.

Pesquisas de opinião pública em janeiro mostraram o índice de aprovação pessoal de Bolsonaro nos 40% - nada mau para qualquer líder global neste mundo polarizado. Mas mesmo antes que a gravidade da pandemia se tornasse clara, havia um claro descontentamento entre os moderados que votaram em Bolsonaro porque esperavam que ele consertasse a economia - e acreditavam que, apesar de sua retórica radical, Bolsonaro deixaria as questões políticas complexas para os especialistas.

Agora que o Brasil parece destinado de voltar à recessão em 2020, é esse grupo de ex-eleitores de Bolsonaro que está abandonando o presidente em massa. Afinal, o espaço para uma ação fiscal decisiva, como visto na Europa, é muito limitado e, com os preços das commodities em seu nível mais baixo desde 1986, é provável que as economias latino-americanas sejam especialmente afetadas.

Nas últimas semanas, muitos moderados que apoiam a agenda liberal de Guedes parecem ter percebido, enquanto Bolsonaro pode se sobressair em divertir e provocar adversários, ele "não tem capacidade, atitude e bom senso para administrar esta crise", como João Amoêdo, um ex-candidato à presidência de centro-direita, escreveu no Twitter.

Não ajuda que o presidente, segundo comentam, esteja cada vez mais descontente com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, médico e o único membro do gabinete que se recusou a apoiar as teorias do presidente sobre a pandemia. Mandetta é "técnico demais", reclamaram os assessores mais ideológicos do presidente.

Talvez mais importante, vários aliados conservadores começaram a se distanciar do presidente. Janaína Paschoal, uma deputada estadual de São Paulo que ganhou fama como uma das autoras da petição que iniciou o processo de impeachment de Dilma em 2016, disse que Bolsonaro precisa ser destituído.

O governador de São Paulo, João Doria, declarou que "se arrependia" de ter votado em Bolsonaro, e Ronaldo Caiado, um governador conservador de Goiás e apoiador de Bolsonaro, criticou ferozmente os manifestantes pró-Bolsonaro em 15 de março por ignorar a recomendação do governo de manter o distanciamento social.

Até José Luiz Datena, um famoso apresentador de TV de direita, disse que o comportamento de Bolsonaro em ignorar os conselhos de especialistas médicos para se autoisolar até que os resultados dos testes se tornassem disponíveis é um "exemplo muito ruim". Thomas Traumann, um destacado analista político, escreveu que "pela primeira vez Bolsonaro perdeu o controle das mídias sociais" – o que não é um pequeno detalhe, considerando como as plataformas online são centrais para a estratégia geral do presidente.

Tudo isso deve aumentar a dependência de Bolsonaro de seus apoiadores mais radicais, poucos dos quais culparão o presidente pela grave crise que está se aproximando. Uma análise dos debates em vários grupos do WhatsApp pró-Bolsonaro sugere que muitos radicais estão convencidos de que a pandemia é inexistente ou faz parte de um ataque premeditado da China ao capitalismo e ao Ocidente. Os adeptos mais fervorosos Bolsonaro rejeitam virtualmente qualquer coisa que apareça na grande mídia. Isso torna difícil prever se eles se voltarão contra o presidente, mesmo que o número de mortos cresça e a economia colapso.

A pandemia ainda pode oferecer oportunidades para Bolsonaro responder à crise. Antes de tudo, inspirado pela insistência de Trump em usar o termo "Vírus chinês", ele procurará fortalecer sua narrativa antiglobalista e reavivar sua retórica anti-China.

Depois de ficar quieto sobre o Reino do Meio por meses, Eduardo, filho de Bolsonaro, argumentou recentemente que a China era a culpada pela pandemia, mostrando como é importante para o governo brasileiro afrontar continuamente inimigos e ameaças poderosos. (O embaixador da China no Brasil respondeu vigorosamente no Twitter, dizendo a Eduardo Bolsonaro para não ser um "porta-voz dos EUA".) Quanto mais destrutiva a crise se tornar, mais atraente a difamação da China poderá se tornar para os eleitores de Bolsonaro.

Em segundo lugar, uma pandemia global e um colapso econômico, que pode ser mais grave do que o da crise financeira global em 2008, pode ajudar Bolsonaro a assumir o papel de "presidente em tempos de guerra" e possivelmente restringir as liberdades civis, permitindo que ele peça à população que supere divisões internas para combater um inimigo maior. Isso pode "funcionar" mesmo que a estratégia geral do governo para combater a pandemia seja insuficiente - afinal, considerando a complexidade da crise, mesmo países com uma infraestrutura médica sofisticada provavelmente sofrerão muito, como sugere a situação no norte da Itália.

Com milhares de mortes, hospitais e necrotérios transbordando, é improvável que mesmo os críticos mais ferozes de Bolsonaro rejeitem seus pedidos de unidade e solidariedade e de deixar de lado as divisões partidárias. Como resultado, um desafio aberto à sua autoridade durante o auge da pandemia se tornaria menos provável. Se as coisas atingirem um certo nível de desespero público e a energia e a atenção do país forem absorvidas pela crise, a oposição poderá ter dificuldade para obter apoio para os processos de impeachment até que a pandemia diminua - afinal, os manifestantes não podem nem sair às ruas para protestar contra o presidente, dados os requisitos de distanciamento social.

Não há dúvida de que a estratégia de Bolsonaro para lidar com a pandemia teve um início catastrófico, custando ao presidente um capital político valioso e colocando inúmeras vidas em risco. Enquanto o Brasil entra na tempestade, ele está enfrentando a maior crise de sua turbulenta presidência.

*Publicado originalmente em 'Americas Quarterly' | Tradução de César Locatelli



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