Política

Bolsonaro ignorou advertências sobre a Covid, diz ex-ministro Mandetta

Luiz Henrique Mandetta afirmou na CPI do Senado que o presidente estava consciente de que sua posição anticiência poderia causar ''mortes em larga escala''

06/05/2021 10:53

Mandetta oferece álcool gel a Bolsonaro (André Borges/AP)

Créditos da foto: Mandetta oferece álcool gel a Bolsonaro (André Borges/AP)

 
Jair Bolsonaro ignorou repetidos avisos de que sua resposta anticientífica ao Covid-19 estava levando o Brasil para um “caminho extremamente perigoso” e colocando em risco dezenas de milhares de vidas, relatou o ex-ministro da Saúde.

Abrindo a fase de depoimentos na terça-feira como testemunha na investigação do Senado sobre a calamidade causada pelo coronavírus no Brasil, Luiz Henrique Mandetta, que liderou o Ministério da Saúde no início da pandemia, disse acreditar que o comportamento do presidente colaborou para dimensão da tragédia e que ela poderia ter sido evitada.

Perguntado se Bolsonaro – cuja recusa em aceitar o distanciamento social tem sido condenada globalmente – tinha entendido que se não fossem seguidas medidas de contenção ao Covid que eram consenso entre a comunidade científica mundial poderia haver “mortes em enorme escala”, Mandetta respondeu: “Sim, senhor.”

“Eu o adverti repetidamente, fazendo mesmo projeções”, acrescentou o médico de formação de 56 anos, a primeira testemunha ouvida pela CPI.

Pouco antes de ser afastado do cargo em abril do ano passado, Mandetta informou ter adiantado a Bolsonaro que 180 mil brasileiros poderiam perder a vida até o fim do ano caso o governo federal não impusesse medidas restritivas. Isso não aconteceu, e no fim do ano 191 mil brasileiros haviam morrido da doença.

“Erramos em 11 mil,” contabilizou Mandetta na CPI, que adversários politicos de Bolsonaro esperam que acabe com suas chances de reeleição no ano que vem e ofereça justiça para as famílias dos mortos.

A pandemia de Covid no Brasil saiu definitivamente de controle em 2021, com o número oficial de mortos mais que dobrando para 408 mil, o segundo maior total do mundo depois dos EUA. Antes do início do testemunho de Mandetta nesta terça-feira, o relator da CPI, Renan Calheiros, disse que o Brasil precisava identificar os responsáveis pela “dantesca situação” que vive o maior país da América do Sul.

A Comissão Parlamentar foi definida na semana passada em meio a crescentes críticas públicas com a forma como Bolsonaro lidou com a pandemia, com sua recusa à imposição de lockdowns e o fracasso de seu governo em adquirir vacinas suficientes para a população.

Na sua instalação na semana passada, Calheiros traçou indiretamente um paralelo entre Bolsonaro e o “açougueiro dos Balcãs”, Slobodan Milosevic, que acabou sendo julgado por crimes contra a humanidade no tribunal de Haia. “Há culpados … e eles serão responsabilizados,” prometeu Renan Calheiros.

“O país tem o direito de saber quem contribuiu para as milhares de mortes e eles devem ser punidos imediatamente e emblematicamente.”

Mandetta, que foi demitido depois de desafiar publicamente Bolsonaro sobre como enfrentar a pandemia, defendeu sua resposta pessoal ao que chamou de “ataque global” da Covid. “Nós não tomamos nenhuma medida que não tenha sido pela ciência,” garantiu Mandetta. Ele disse que todos os esforços foram feitos para a aquisição de suprimentos hospitalares e para convencer os brasileiros – incluindo o presidente – da necessidade do distanciamento social.

Bolsonaro, entretanto, ignorou tais orientações, seguindo ao contrário crenças de assessores e aliados que minimizavam o perigo do coronavirus, promoviam medicamentos que não tinham comprovação científica, como a cloroquina, e defendiam a ideia de que o Brasil poderia alcançar a imunidade de rebanho sem fechar a economia. Um desses aliados, o deputado federal Osmar Terra, garantia em abril último que a pandemia estava chegando ao fim no Brasil.

Mandetta afirmou: “Eu fiz o possível no sentido de convencê-lo a não seguir esse caminho extremamente perigoso [de rejeitar orientações científicas]. Mas provavelmente ele tinha outras pessoas dizendo a ele que o que o ministro da Saúde dizia estava errado”.

O ex-ministro apresentou uma carta de três páginas que, segundo ele, foi entregue a Bolsonaro em março de 2020. A carta termina com a conclusão: “Recomendamos expressamente que a presidência reconsidere a posição que tem adotado, seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde, uma vez que caminhar em direção oposta pode provocar o colapso do sistema de saúde e trazer sérias consequências para a população”.

Para Mandetta, Bolsonaro foi convencido de que a imunidade de rebanho poderia ser alcançada permitindo que o coronavirus se espalhasse livremente entre a população, “e apenas aqueles que tinham de morrer (como os idosos), morreriam”. Humberto Costa, do PT, um dos 11 senadores que compõem a investigação reagiu: “Se isso for verdade, representa um ato absolutamente criminoso”.

Bolsonaro ainda tem, segundo pesquisas, o apoio de um terço dos brasileiros, mas ele parece preocupado com a investigação no Senado, e seguidores mais radicais promoveram atos de protesto em diversas cidades sábado último.

A CPI levou até um de seus filhos, Flávio Bolsonaro, a defender o isolamento social ao argumentar no Senado que as audiências deveriam ser adiadas por apresentarem grande risco caso os senadores se reunissem presencialmente para as sessões. Quatro dias antes, Flávio Bolsonaro saudou os milhares de apoiadores do pai que se concentraram na praia de Copacabana usando as cores nacionais, verde e amarelo, apossadas pelo movimento de extrema-direita de Bolsonaro.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Carlos Alberto Pavam



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