Política

Bolsonaro quer armar o ''povo''. E daí?

 

25/05/2020 14:02

Reunião ministerial de 22 de abril de 2020 (Reprodução)

Créditos da foto: Reunião ministerial de 22 de abril de 2020 (Reprodução)

 
Jair Bolsonaro passará à história como um dos piores presidentes que o Brasil já teve. Aqueles que, no futuro, quiserem entender melhor a razão desse julgamento, poderão assistir ao vídeo da reunião ministerial de 22 de abril. Em poucas ocasiões a sociedade brasileira travou um conhecimento tão direto com um governo tomado pelo autoritarismo, estupidez e incompetência.

Além da profusão de falas irresponsáveis e fantasiosas, o tom comum da reunião é a reação violenta contra os controles que, em qualquer regime democrático, são exercidos sobre o poder executivo. Governadores e prefeitos devem ser presos (Damares Alves); servidores públicos merecem granadas (Paulo Guedes); os ministros do STF são “vagabundos” (Abraham Weintraub); o governo deve aproveitar a crise para “ir passando a boiada” (Ricardo Salles). Qualquer agente ou órgão que se coloque no caminho do governo para defender a Constituição é tratado como um inimigo e até mesmo o insignificante presidente da Caixa Econômica Federal promete reagir à bala. Os ministros seguem o tom e a grosseria do chefe, que garante que irá interferir nos ministérios caso sua vontade não seja obedecida.

Não é possível ouvir essas falas sem lembrar que a reunião ocorreu no momento em que milhares de brasileiros já haviam perdido a vida por causa da Covid-19 e era evidente que a doença continuaria retirando de nosso convívio muitas outras pessoas. Mas o presidente e seus ministros demonstram estar preocupados somente com sua manutenção no poder, mesmo que ao custo de provocar mais mortes.

A reunião também serviu para escancarar o projeto autoritário de Bolsonaro. Ele quer “que o povo se arme”, isto é, que seus apoiadores usem de violência para defendê-lo. Ações do Congresso Nacional ou do STF serão usadas como desculpas para mobilizar milícias armadas contra as instituições democráticas. Bolsonaro usa a velha fantasia da ameaça comunista para justificar seu “contragolpe”, como se não fosse ele o único candidato a ditador. Mente perversa, que tramou atentados à bomba quando ainda estava no Exército, Bolsonaro acredita que contará com o apoio do empresariado nessa empreitada, a quem promete entregar o Banco do Brasil, o pré-sal e outras riquezas.

Entende-se de uma vez por todas porque, dentre os vários ataques à democracia praticados desde o início de seu governo, Bolsonaro insistiu tanto em liberar o uso de armas. Em 2019, o presidente editou vários decretos que esvaziavam o Estatuto do Desarmamento e enfrentou as reações do Congresso Nacional e do Ministério Público. Isso não o impediu de seguir adiante. Nessa mesma reunião, com a conivência dos ministros Sérgio Moro e Fernando Azevedo, Bolsonaro anunciou uma portaria que aumenta a quantidade de munições que os proprietários de armas podem adquirir. Poucos dias antes, o governo já havia revogado três portarias do Exército que estabeleciam regras para rastreamento e identificação de armas de fogo no Brasil. Nunca o desvio de finalidade de um ato administrativo ficou tão claro.

O negacionismo e a incompetência do governo Bolsonaro são em grande parte responsáveis pelas dezenas de milhares de mortes que a Covid-19 continuará obrigando o Brasil a contar. Bolsonaro quer que mais brasileiros morram para manter-se no poder. E daí?

Antonio Moreira Maués é Professor Titular do Instituto de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Pará (UFPA)



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