Política

Bolsonaro sofre pela derrota de Macri

"Não queremos irmãos argentinos fugindo para cá, caso o resultado de ontem se confirme em outubro", afirmou o presidente brasileiro, em alusão a uma possível eleição do peronista Alberto Fernández

14/08/2019 13:05

Bolsonaro continua fazendo campanha para Maurício Macri

Créditos da foto: Bolsonaro continua fazendo campanha para Maurício Macri

 
No dia seguinte às eleições primárias na Argentina, o presidente brasileiro deu declarações comparando a Argentina com a Venezuela: “não queremos irmãos argentinos fugindo para cá, caso o resultado de ontem se confirme em outubro”, afirmou, em alusão a uma possível eleição do peronista Alberto Fernández.

No Rio Grande do Sul, perto da cerca da fronteira com a Argentina, Jair Bolsonaro não dissimulou sua contrariedade pela derrota de Mauricio Macri, quem ele chegou a classificar como seu “irmão”, em alguns discursos recentes.

Rodeado de militares, o capitão da reserva comparou esta região meridional com Roraima, no extremo setentrional do país, que faz fronteira com a Venezuela. “Se essa esquerdalha voltar ao poder aqui perto, na Argentina, poderemos ter no Rio Grande do Sul uma nova Roraima”, afirmou.

Em contraste com essa inconsequência diplomática do mandatário, os militares e os aliados do poder mediático recomendaram que ele tivesse maior dose de realismo.

Segundo o diário Folha de São Paulo, o alto comando das Forças Armadas considera que a intromissão do ocupante do Palácio do Planalto na campanha argentina pode trazer mais custos que benefícios ao país, e aconselharam a ele adotar uma certa continência verbal.

Sugestão a qual ele não deu atenção, como ficou demonstrado nas declarações dadas na segunda-feira (12/8), em terras gaúchas, onde mostrou a ampliação de uma estrada federal – obra realizada por soldados do Exército, e talvez por isso mereceu um evento de apresentação à mídia que fez parecer como a inauguração de uma represa hidroelétrica.

Para a Rede Globo, e também para alguns generais preocupados em garantir a sobrevivência do governo e evitar seu isolamento internacional, já é hora de colocar um freio no ativismo bolsonarista em prol de um bloco neofascista sul-americano.

“Bolsonaro já prejudicou Macri quando foi pessoalmente a Buenos Aires expor seu apoio, o que não rendeu votos, e agora prejudica nossa relação com um sócio econômico importante, porque é quase impossível reverter a vitória de Alberto Fernández”, comentou o colunista Merval Pereira, um dos editorialistas d Globo.

Por sua parte, o PT (Partido dos Trabalhadores) celebrou o desempenho da Frente de Todos, com as vitórias de Alberto Fernández nas primárias presidenciais e de Axel Kicillof na Província de Buenos Aires.

“A esperança é argentina”, resumiu sua presidenta, Gleisi Hoffman, ao fazer um balanço do impacto da vitória da chapa Alberto Fernández-Cristina Kirchner.

“O presidente Lula recebeu este resultado com muita alegria. Hoje, ele foi visitado por seus advogados em Curitiba, a quem comentou sua satisfação”, acrescentou.

“Com este triunfo, também ganham os movimentos populares do Brasil e da América Latina, e os que perdem são, em primeiro lugar, Jair Bolsonaro, que apoiou Macri publicamente, e também o seu aliado Donald Trump”, analisou Hoffmann.

No último encontro entre esses dois presidentes, ocorrido em junho, Bolsonaro propôs ao norte-americano que eles viajassem juntos a Buenos Aires reforçar o apoio à candidatura governista e à formação de uma frente de mandatários direitistas na região.

Durante seu diálogo com o diário argentino Página/12, a líder petista mencionou a recente “visita de grande importância simbólica e política” de Alberto Fernández a Lula, na Superintendência da Polícia Federal, e que “nossa histórica relação com a presidenta Cristina (Fernández de Kirchner), que sempre se manifestou contra a perseguição judicial contra Lula e o lawfare (guerra judicial), que também foi criticado neste fim de semana por 17 juristas estrangeiros de grande prestígio”.

Se o primeiro turno, em outubro, confirmar o retorno do kirchnerismo à Casa Rosada, poderia surgir um novo eixo progressista na América Latina, junto com o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, que contribuirá para fortalecer a democracia ameaçada.

Assim como Lula e Hoffmann, Dilma Rousseff também falou sobre o resultado das primárias argentinas, e sustentou que elas foram “um triunfo animador para as forças progressistas sobre o neoliberalismo”.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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