Política

Brasil, Rússia, Grã-Bretanha e EUA têm algo em comum

 

02/06/2020 19:11

Bolsonaro entre seus apoiadores, no domingo (Evaristo Sa/Agence France-Presse/Getty Images)

Créditos da foto: Bolsonaro entre seus apoiadores, no domingo (Evaristo Sa/Agence France-Presse/Getty Images)

 
Os quatro grandes países em que os casos de coronavírus têm, recentemente, aumentado rapidamente são Brasil, Estados Unidos, Rússia e Grã-Bretanha. E eles têm algo em comum.

Todos eles são dirigidos por líderes homens populistas que se consideram antielite e antiestablishment.

Os quatro líderes - Jair Bolsonaro, Donald J. Trump, Vladimir V. Putin e Boris Johnson - também têm muitas diferenças, é claro, assim como seus países. No entanto, todos os quatro subscrevem versões do que Daniel Ziblatt, professor de governo em Harvard e coautor do livro "Como morrem as democracias", chama de "populismo radical liberal de direita".


Legenda do gráfico: “Onde o surto está pior agora” - novos casos por 100 mil habitantes em países com mais de 50 milhões de habitantes.

Muitos cientistas políticos acreditam que esse padrão não é uma coincidência. Os populistas iliberais tendem a rejeitar as opiniões dos cientistas e a promover as teorias da conspiração.

"Muitas vezes eles criticam intelectuais e especialistas de quase todos os tipos", disse Steven Levitsky, coautor com Ziblatt. Os líderes, disse ele, “afirmam ter um tipo de sabedoria do senso comum que os especialistas não têm. Isso não funciona muito bem em relação à Covid-19."

No Brasil, Bolsonaro demitiu seu ministro da Saúde e pediu repetidamente que os estados suspendessem as ordens de ficar em casa. Nos Estados Unidos, Trump rejeitou a opinião de especialistas por quase dois meses, prevendo que o vírus desapareceria "como um milagre". Na Grã-Bretanha, o governo de Johnson inicialmente incentivou as pessoas a continuarem a socializar, mesmo quando outros países estavam impondo bloqueios.

Todos os quatro líderes também desrespeitaram as orientações sobre medidas de proteção individual, recusando-se a usar uma máscara ou continuando a apertar as mãos.

O padrão é aparente além desses países também. O Irã - um país com um líder supremo teocrático - é o quinto no caso de crescimento nas últimas duas semanas entre países com pelo menos 50 milhões de pessoas. Especialistas em saúde dizem que o governo não acatou as advertências de não reabrir muito rapidamente. O México - onde o presidente Andrés Manuel López Obrador é um populista de esquerda cujo governo publicou pôsteres dizendo que o vírus “no es grave”- é o sexto.

Um esforço acadêmico para rastrear as respostas dos países ao vírus mostrou que um atraso na reação do governo permite que o vírus se espalhe muito mais rapidamente, disse Thomas Hale, da Escola de Governo Blavatnik da Universidade de Oxford, que lidera o esforço. Muitos dos países que estão tendo surtos graves agora compartilham um "reconhecimento tardio da urgência da crise", disse Hale.

Frequentemente, os líderes que responderam mais lentamente mencionaram a necessidade de priorizar o crescimento econômico. Mas as trocas comerciais entre economia e saúde pública possivelmente não existem de fato, dizem cientistas e economistas: O caminho mais rápido para a normalidade econômica envolve controlar a propagação do vírus.

"Existe essa falsa tensão entre a saúde pública e a saúde econômica", disse Wafaa El-Sadr, epidemiologista da Universidade de Columbia.

O outro lado do padrão envolvendo populistas iliberais é que os países dirigidos por mulheres parecem ter tido mais sucesso no combate ao vírus, como alguns observadores observaram anteriormente. Alemanha, Nova Zelândia e Taiwan são todos exemplos.

A conexão entre líderes populistas e surtos ruins não é perfeita. Viktor Orban, na Hungria, e Rodrigo Duterte, nas Filipinas, também são populistas iliberais que responderam rapidamente. A contagem de casos parece ser relativamente baixa nos dois países. Orban e Duterte usaram a crise como uma desculpa para reprimir ainda mais os oponentes políticos.

Mas os padrões globais geralmente incluem exceções. "De fato, existe um padrão", disse Levitsky. "Os populistas não gostam de especialistas - ou não gostam de confiar em especialistas - e uma resposta antiexpertize ao novo coronavírus é mortal".

Alguns líderes populistas, como Johnson e Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, passaram, recentemente, a levar o vírus mais a sério. Nos Estados Unidos, a resposta de Trump variou quase a cada dia e também foi diluída pelo sistema federalista, no qual os governadores estão tomando muitas decisões.

Ainda assim, Hale suspeita que os países populistas possam continuar lutando mais do que outros.

"Estamos vendo a onda inicial agora", disse ele, "mas será uma longa jornada, e minha forte intuição é que países com sistemas de governança realmente robustos serão, no final das contas, os que terão melhor desempenho."

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de César Locatelli

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