Política

Brasil ajuda países do Sul a ressurgir na política mundial

A 5ª Reunião Ministerial da OMC (Organização Mundial do Comércio), encerrada dia 14 em Cancún, marca o surgimento de uma força internacional articulada no Sul, com influência para questionar fundamentos da ordem econômica global

22/09/2003 00:00

(Reprodução/OMC)

Créditos da foto: (Reprodução/OMC)

 

A 5ª Reunião Ministerial da OMC (Organização Mundial do Comércio), encerrada no último dia 14 em Cancún, representa o fato político mais importante do ano na política internacional, pela novidade que representa. Essa análise deve ser vista a partir de um pressuposto: ao contrário dos anos de bipolaridade da Guerra Fria, agora qualquer enfraquecimento dos Estados Unidos atual, hegemônico e unipolar, aumenta a desordem mundial.

A novidade de Cancún é o surgimento de uma outra força internacional, que questiona alguns fundamentos da ordem econômica mundial atual, articulando uma parte significativa do Sul do planeta – essa região que aglutina a 85% da população mundial, mas que detém apenas 15% da riqueza mundial. E o que esse movimento – o Grupo dos 22, liderado pelo Brasil, que conta inclusive com a participação da China, da Índia, da Nigéria, da África do Sul e de mais de dez países da América Latina – tem de novo?

A primeira grande novidade é a existência de uma articulação mundial independente dos EUA e da Europa, feita por países até então excluídos das relações de poder em escala mundial, desde o desaparecimento dos movimentos ligados ao Terceiro Mundo e aos não-alinhados. Essa articulação atuou, em Cancún, não apenas contra os EUA e a OMC, mas também contra a Europa, que se aliou estreitamente a Washington.

A segunda é que ela representa um golpe ao unilateralismo, a ponto de que as grandes potências não pudera impor suas decisões à OMC, mesmo estando unidas, o que reflete exatamente o surgimento de um outro protagonista no jogo de forças da política mundial. Ao invés de ficar dependendo de fissuras nas relações entre os EUA, a Europa e o Japão para ter uma margem de atuação, somando-se a um deles contra o outro, o Grupo dos 22 tomou iniciativa e defendeu uma posição própria, levando ao alinhamento países do centro do sistema.

Esse novo panorama permite projetar um quadro internacional novo, dado que até aqui os países globalizados ficavam à mercê dos globalizadores, tanto na pauta de debates, quanto nas margens de atuação. A partir de Cancún pode-se supor que os temas em debate no mundo podem ser renovados a partir dos interesses e dos projetos políticos dos países do Sul do mundo.

Temas como Alca, Mercosul, negociação das dívidas, produção de medicamentos genéricos, “paraísos fiscais”, livre circulação do capital especulativo, entre outros, poderão ganhar novo fôlego e passar a constar das agendas das reuniões dos grandes organismos internacionais e de outros eventos afins.

Da mesma forma, os movimentos que se articulam em torno do Fórum Social Mundial de Porto Alegre têm que levar em conta essa novidade. Começa a existir uma frente de governos que enfrentam as potências protagonistas das políticas neoliberais em escala mundial. Os movimentos por uma outra globalização precisam redefinir suas formas e espaços de intervenção, para encontrar formas de, mantendo sua autonomia, somar forças na direção da construção de um mundo multipolar, condição de “um outro mundo possível.”

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