Política

Brasil, laboratório mundial da ultradireita

 

25/06/2020 16:44

(Nelson Almeida/AFP)

Créditos da foto: (Nelson Almeida/AFP)

 
O Brasil se tornou um laboratório mundial para um novo tipo de extrema direita. Não é apenas uma nova hegemonia no poder, mas um projeto de mudança na sociedade, de uma revolução cultural conservadora, onde Jair Bolsonaro representa um projeto transitório, com claras tendências fascistas.

O papel de Bolsonaro nesse jogo de poder parece ser o de distração do modelo final, que se deseja impor no país desde o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016. O Brasil é hoje o único país do mundo que, em meio à pandemia, também há uma grande crise política, e que pode vir a ser uma crise do regime político.

Bolsonaro é tão descartável quanto o ministro da Economia Paulo Guedes, um neoliberal pró-estadunidense que foi funcionário do ditador chileno Augusto Pinochet (1973-1990), e cujo projeto parece ter sido freado pelo plano de emergência apresentado pelo general Walter Souza Braga Netto, chefe do gabinete da Presidência, quem todos acreditam ser, hoje, uma espécie de presidente operacional.

Nesta luta entre poderes, onde se misturam disputas entre setores militares, o STF (Supremo Tribunal Federal), o Congresso, as elites econômicas, a imprensa hegemônica e as igrejas evangélicas, destaca-se o nome de Sérgio Moro, o ex-ministro da Justiça levou Bolsonaro ao poder após condenar, como juiz, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo sem provas, afastando-o da disputa eleitoral.

Moro, o destruidor

A renúncia de Sérgio Moro ao Ministério da Justiça tem várias causas, mas a principal é a tentativa de se diferenciar de Bolsonaro. A causa específica foi que, sob sua proteção, a Polícia Federal estava prestes a incriminar os filhos de Bolsonaro (e talvez até o próprio presidente) em atos de corrupção e vínculos com máfias paramilitares.

Moro é um homem dos Estados Unidos e candidato de Washington para as eleições de 2022, e é por isso que ele teve que ser destacado de um governo em declínio.

Há um ponto a ser destacado: durante seu mandato como juiz de Lava Jato, ele executou, ponto por ponto, o plano de destruir a economia e as instituições brasileiras, além de aniquilar a esquerda para permitir que a extrema-direita abrisse caminho para sua candidatura.

Portanto, não se deve excluir a possibilidade de que, por trás de todos esses movimentos nos cenários de poder, esteja a embaixada dos Estados Unidos. Hoje, para Moro, Bolsonaro não é mais um recurso que facilita sua candidatura, mas um obstáculo descartável. A popularidade do ex-ministro da Justiça está acima da do presidente. No meio da crise, Moro preferiu o silêncio, deixando que seus adversários se desgastem.

Escarcéu

A guerra institucional pelo poder continua no Brasil: por um lado, o STF abriu uma investigação sobre os abusos de poder de Bolsonaro e publicou um vídeo de uma reunião ministerial na qual o presidente explicitou sua intenção de dispensar qualquer funcionário que se atreva a investigar sua família.

Como resultado da ampla divulgação do que aconteceu, novas fendas institucionais foram aprofundadas no Brasil, cujas consequências serão vistas em breve. Os militares, sobretudo os que compõem o gabinete de Bolsonaro, terão muita interferência. Se, no campo jurídico, é muito difícil prever quais serão os próximos passos, em termos institucionais, o que foi revelado ao país é um desastre.

O principal fato por enquanto é o crescimento da influência dos militares na política, com a clara mensagem de que as Forças Armadas apoiam Bolsonaro nesta guerra contra o STF. Nunca antes um golpe de Estado fascista foi tão divulgado, tão televisionado e tão replicado nas redes sociais.

Por esse motivo, é urgente que todas as forças democráticas renunciem a suas diferenças históricas e/ou conjunturais, na busca de um objetivo comum, que é a criação de uma frente em defesa da democracia. Certamente não é uma tarefa fácil, considerando o comportamento dos partidos durante o golpe contra Dilma Rousseff, quando certos setores que hoje se apresentam como defensores da democracia tiveram postura vergonhosa.

A possibilidade de formar uma frente democrática significa, acima de tudo, renunciar a desentendimentos e conflitos do passado por parte de partidos e movimentos sociais, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) ou os movimentos feminista e LGBT , juntamente com dezenas de organizações ambientais e de solidariedade.

Surgem algumas iniciativas, como uma das 400 organizações sociais e 7 partidos que expressaram sua intenção de solicitar um julgamento político do presidente, em um momento em que a centro-esquerda está desorganizada, a socialdemocracia tenta ocupar seu espaço tradicional e a disputa pelo poder, na verdade, fica centrada entre as várias faixas da extrema-direita e da direita tradicional. Também há um apelo nas redes sociais pelo lema #Somos70porcento.

As manifestações de grupos antifascistas organizados começaram a disputar as ruas com os bolsonaristas. Não haverá solução institucional para a profunda crise, se não for impulsionada, empurrada por uma grande mobilização cidadã, conquistando as ruas e a opinião pública.

Revolução

Há quem fale de direito revolucionário: assim como os grupos armados nos Anos 60 e 70 foram capazes de arriscar suas vidas por uma ideia, essa lógica revolucionária poderia ser uma contrapartida à extrema-direita.

As Forças Armadas estão em uma posição cômoda e a única coisa que poderia deter sua marcha é o surgimento de uma força popular forte, da esquerda real, que as enfrentem.

Já existem milícias armadas de direita, que defendem um plano de “ucranização” o país (um termo que eles mesmos usam), dada a impossibilidade de governar o Brasil, na tentativa de conseguir mudanças radicais através de um golpe de Estado ou co-governo paramilitar. A estrutura é desenvolvida a partir das redes sociais (YouTube, WhatsApp, Twitter), onde os filhos de Bolsonaro controlam o chamado “gabinete do ódio”.

Militar com roteiro estrangeiro

Alguns analistas ficam impressionados com o fato de as Forças Armadas apoiarem um modelo neoliberal como o de Paulo Guedes, dada a tradição desenvolvimentista do golpe de 1964. Hoje, existe um grupo de militares que insiste em preservar algumas estruturas do Estado, especialmente as que eles controlam e se servem delas (como a Petrobras), mas não há um grande projeto nacional ou um estrategista como Golbery do Couto e Silva.

A disputa na extrema-direita levou o ensaísta Olavo de Carvalho, considerado um referencial ideológico do presidente, a se distanciar dele, ao afirmar que derrubaria esse “governo de merda”, caso ele permanecesse “inativo” e “covarde”. Carvalho mora na Virgínia, nos Estados Unidos, de onde influenciou a nomeação de vários funcionários. Agora, em um vídeo, ele aponta que Bolsonaro nunca foi seu amigo. Alguns analistas apontam que o presidente relutou em conceder a ele a condecoração que havia prometido.

Até a direita esqueceu o projeto de fazer do Brasil uma “potência industrial”: hoje quem dirige o país não é uma elite industrial, mas uma elite financeira, que não pretende ser uma burguesia nacional, mas insiste em ser parceira muito minoritário da burguesia global, e gendarme ou capataz regional.

Pela primeira vez em sua história, o Brasil insistiu em um forte alinhamento absurdo com os Estados Unidos. Isso não aconteceu nem quando o país enviou tropas para a Europa, para combater os nazistas. Mas não deveria surpreender: seus principais quadros militares foram doutrinados pelos Estados Unidos.

Ciro Gomes, candidato a presidente pelo PDT, destaca, por exemplo, que o general Heleno Ribeiro Pereira, ministro da Secretaria da Presidência, “é golpista, ele tem apreço pela vida, matou muitas pessoas pobres no Haiti, foi expulso das forças das Nações Unidas e já foi chefe de gabinete do general golpista Sylvio Frota. Ele é um americanófilo fanático”.

Fascismo, esquerda

O fascismo não é novo no Brasil. Existe há 90 anos: o maior partido fascista brasileiro, a Ação Integralista Nacional, chegou a ter 1,2 milhão de membros e um candidato a presidente em 1955: Plinio Salgado. Esse fascismo está reaparecendo, ressuscitando.

Brasil não teve – como a Argentina teve, por exemplo – um trabalho de memória sobre a ditadura civil-militar. Nenhum torturador do país foi processado, apesar dos sucessivos governos “esquerdistas” no começo deste século.

Nessa estrutura do militarismo brasileiro – que não é homogêneo, mas inclui tendências fascistas muito fortes e é uma peça importante na política brasileira –, Bolsonaro representaria a ala dura, um setor que mesmo na ditadura não era hegemônico, exceto com Emilio Garrastazú Médici (1969-1974).

A esquerda brasileira não existe mais, e nem a oposição a Bolsonaro, liderada pela direita, é uma minoria. Os movimentos sociais e sindicais desapareceram das ruas, cooptados há alguns anos pelo aparato governamental do PT, ou desiludidos, ou sem liderança.

Em momentos de radicalização da política, a esquerda – legalista e defensora das instituições do Estado burguês – não sabe como se reunir e tampouco se radicalizar. Hoje, a luta política no Brasil ocorre entre a extrema-direita e a direita tradicional, e a liderança é exercida por dois governadores de direita, o de São Paulo (João Doria) e o do Rio de Janeiro (Wilson Witzel).

E para que tudo seja ainda mais inacreditável: houve um momento em que Lula teve 80% de aprovação e credibilidade popular. Mas sua política era de reformas pontuais, talvez com a ideia de que seria fácil preservar as conquistas. Mas… a única verdade é a realidade, e o resultado foi uma catástrofe.

Aspirações expansionistas

As aspirações geopolíticas do Brasil desde sua restrição regional sempre se concentraram em tornar-se o satélite privilegiado dos Estados Unidos, para hegemonizar a América do Sul, até seus devaneios globais contemporâneos, apesar de desafios internos como a pobreza extrema, os 14 milhões de desempregados, a fome, a desnutrição.

Já nos primeiros dias de sua presidência, havia comandantes militares brasileiros “relutantes” com o plano de Jair Bolsonaro de abrigar algumas bases militares norte-americanas (em Alcântara, no Norte do país, na tríplice fronteira com Argentina e Paraguai, na Amazônia), que eles consideraram desnecessário e inoportuno, não em sintonia com a política de defesa nacional do Brasil, pois permitiria que os Estados Unidos usassem a base de Alcântara para lançar foguetes.

Paradoxalmente, as bases norte-americanas no Brasil tiveram participação no combate ao nazifascismo junto com a FEB (Força Expedicionária Brasileira), no início dos Anos 40. O medo ganhou força quando, no final de 1941, os japoneses atacaram Pearl Harbor e os Estados Unidos decidiram entrar de vez na guerra, pressionando o Brasil a negociar o uso das bases de Belém, Natal e Recife, e o presidente Getúlio Vargas não se opôs.

As teses do expansionismo brasileiro e sua política externa claramente colonialista não são novas, e tiveram um voo especial durante a ditadura civil-militar, entre 1964 e 1985, quando o general Golbery do Couto e Silva – autor, em 1966, da tese “Geopolítica do Brasil” – se tornou o teórico da ditadura. Mais tarde, também seria o teórico da abertura democrática, promovendo a total fragmentação da oposição civil em vários partidos.

Várias teorias claramente expansionistas surgiram da Escola Superior de Guerra, que foram a força motriz da ditadura: as das fronteiras ideológicas, a da Força Interamericana de Paz, a do gendarme que mantém a ordem continental, a do satélite privilegiado e a do destino manifesto de Brasil ao sul do Caribe, a sua vocação rioplatense, a de levar suas fronteiras até os Andes, a das aberturas no Pacífico, a de buscar um porto livre no Caribe, a de controle do Atlântico Sul, a de instalação na Antártica, etc.

Os freios nos processos de integração da América Latina e do Caribe também surgiram a partir daí, com o desmantelamento do Mercosul (Mercado Comum do Sul), da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) e da CELAC (Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe). Do mesmo Brasil que, com Lula da Silva, foi um dos promotores do fracasso da ALCA (Área de Livre Comércio da América Latina), proposta pelos Estados Unidos em 2005.

Mas, mesmo nos anos dos governos do PT (2002-2016), começaram a proliferar entre os militares de direita (na Escola Superior de Guerra e no Estado-Maior das Forças Armadas) e também entre diplomatas brasileiros, teorias sobre o papel hegemônico que seria reservado ao Brasil na América do Sul.

Hoje, essas velhas teses e teorias parecem ter se recuperado, com o governo de Jair Bolsonaro, que acredita que a União Soviética ainda existe, e por isso o comunismo deve ser combatido. Também por isso, ele ameaçou intervir militarmente contra a Venezuela.

Sobre as posições do Brasil com relação aos seus vizinhos, que vão até as ameaças mais ou menos veladas de intervenção militar, é necessário reanalisar a teoria do satélite privilegiado, ou do subimperialismo brasileiro, o a das fronteiras ideológicas, como já apontava, em 1971, o analista e cientista político brasileiro Paulo Schilling.

O general Golbery resumiu a questão desta maneira: “as nações pequenas são reduzidas ao status de estados pigmeus da noite para o dia, e seu fim melancólico já está previsto, devido ao avanço da inevitável integração regional; a equação de poder no mundo é reduzida a um pequeno número de fatores, e nele apenas poucas constelações feudais – estados barões – cercadas por estados satélites e vassalos serão percebidas (…)”.

“Não há outra alternativa para nós senão aceitá-los (os planos de integração do império), e aceitá-los conscientemente”, disse o estrategista. Ou seja, de acordo com a geopolítica da “Sorbonne” (a inteligência vernácula), os Estados Unidos deveriam reconhecer o destino manifesto do Brasil na América do Sul, escolhendo-o como “satélite privilegiado”.

“O Brasil também pode invocar um destino manifesto, ainda mais quando este não se choca, no Caribe, com o de nossos irmãos do norte”, acrescenta.

Com o golpe militar de 1º de abril de 1964 e a eliminação das forças nacionalistas populares, as teses da Escola Superior de Guerra tornaram-se a estratégia para a América Latina impulsionada pelo Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. “A ideia de criar um estado militarista subdesenvolvido a serviço do plano imperialista latino-americano de integração e manutenção da paz imperial poderia, então, ser posta em prática”, observou Schilling, meio século atrás.

Novos tempos?

Há comandantes militares que entendem que a situação agora é muito diferente, e insistem que não estão dispostos a entregar territórios (muito menos a Amazônia) à hegemonia do norte. Especialmente quando a economia brasileira depende de suas exportações para a China e de seus possíveis investimentos em projetos de infraestrutura. Os Estados Unidos já exigiram que o Brasil reduza sua dependência econômica da China, seu maior parceiro comercial.

Quase metade do que o país produz a partir dessas mercadorias (47,3 bilhões de dólares, de um total de 53,2 bilhões) foi destinada à China, enquanto 12% do total viajou para os Estados Unidos. Desde 2001, quando a União Europeia detinha 50,6% das vendas, com um valor de 13,2 bilhões de dólares, as exportações de produtos primários não estavam tão concentradas em um único destino.

As forças da extrema-direita, mesmo que sejam minorias, estão bem articuladas nas redes e nas ruas, com o apoio financeiro de alguns empresários e comerciantes que apoiam cegamente um Bolsonaro, mesmo sem este ter a capacidade de um líder nato e agitador carismático, de organizador especialista, orador cativante e convincente.

Um líder que também não possui um projeto ou ideias importantes, exceto a de armar toda a população para defender uma nação imaginária que está em campanha contra o marxismo cultural, a ideologia de gênero e a globalização.

Existem inúmeros sites de milícias digitais que se dedicam a divulgar notícias falsas sobre instituições e pessoas, insultar e ameaçar membros do STF, congressistas, políticos, jornalistas ou representantes de associações que denunciaram o avanço de setores exaltados da extrema-direita.

Potencialmente, Bolsonaro pode agregar, ao seu golpe e aos seus impulsos ditatoriais, uma parte significativa das Forças Armadas, que são tentadas a obter maior poder dentro de um governo que já possui um grande grupo de ministros, subsecretários e oficiais de alto escalão de corporações militares.

Aram Aharonian é jornalista e comunicador uruguaio, fundador do canal TeleSur, presidente da Fundação para a Integração Latino-Americana (FILA) e diretor do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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