Política

Busca da terceira via mobiliza sucessão na Câmara

26/09/2005 00:00

Brasília - Aqueles que acharam a eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara imprevisível e surpreendente já podem se preparar para fortes emoções na próxima quarta-feira (28), quando os deputados escolherão em plenário o sucessor do ex-deputado no comando da casa. A menos de 48 horas do início da votação, o resultado final da disputa é imprevisível e os principais partidos e blocos políticos acirram seus esforços em busca de apoio. A principal movimentação ocorrida na Câmara nesta segunda-feira (26) foi protagonizada pelas candidaturas que pretendem consolidar-se como terceira via numa disputa que em princípio é polarizada pelo Palácio do Planalto, através da candidatura de Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e pelo bloco de oposição PSDB-PFL, que apóia José Thomaz Nonô (PFL-AL).

As dificuldades que enfrenta o governo para emplacar a candidatura de Aldo e a falta de unidade da oposição em torno de um nome de consenso tornaram concretas nos últimos dias as possibilidades de uma terceira candidatura chegar ao segundo turno com chances reais de vitória. Para tanto, essa candidatura de terceira via terá que se colocar como legítima representante do chamado “baixo-clero”, grupo composto pela maioria menos visível dos deputados e que já demonstrou sua força ao levar Severino ao segundo turno em fevereiro último. Aliados de Severino, dois membros da atual direção da Câmara – o corregedor Ciro Nogueira (PP-PI) e o quarto-secretário João Caldas (PL-AL) – reivindicam esse papel, mas para conseguirem emplacar suas candidaturas terão que resistir às crescentes pressões para que desistam da disputa em favor de um nome mais denso, no caso o de Michel Temer (PMDB-SP).

Caldas e Nogueira avisaram que vão esperar até o prazo final estabelecido para 18h de terça-feira (27) para retirar uma das duas candidaturas e fortalecer a outra. “Vamos botar as cartas na mesa. Quem estiver mais forte fica e outro passa a apoiá-lo”, disse Caldas. A intenção desse setor é atrair para um acordo ainda no primeiro turno também a candidatura de Luiz Antonio Fleury Filho (PTB-SP), que agrupa setores conservadores da Câmara que atualmente se encontram soltos. Fleury conversou com Caldas, mas saiu do encontro garantindo que segue firme até a disputa de quarta-feira. “Vamos nos encontrar de novo amanhã, mas avalio que minha candidatura, pelos apoios que já conquistou, é irreversível”, disse o deputado.

A não adesão do PTB coloca em dúvida a capacidade do candidato do “baixo-clero” de chegar na frente de Aldo ou Nonô e garantir lugar no segundo turno. Este foi o principal argumento utilizado pelo PMDB oposicionista para tentar impor o nome de Temer. Durante conversa com Nogueira e Caldas, o peemedebista garantiu que terá “mais de 80% dos votos” do partido que preside, o que tornaria sua candidatura “imbatível num segundo turno”.

Outro fator que pode ajudar Temer a consolidar o apoio do “baixo-clero” é a manutenção da candidatura de Francisco Dornelles (PP-RJ), que está dividindo o PP e pode fazer com que Nogueira acabe desistindo. “Minha candidatura está colocada porque tem grande apoio dentro do partido. Desconheço qualquer negociação em contrário”, garantiu Dornelles, que durante todo o governo de Fernando Henrique Cardoso foi aliado de Temer. Nogueira, por sua vez, admitiu que a candidatura do correligionário o incomoda. “Vamos sentar para conversar. O deputado Dornelles é um quadro respeitável do PP. Se o partido preferir sua candidatura, posso até retirar a minha”, disse.

De olho na vice
O empenho pessoal de Temer pela própria candidatura parece maior do que o empenho do PMDB. Por isso, muitos deputados não acreditam que ele, apesar de ser presidente nacional do partido, consiga o voto da grande maioria dos deputados peemedebistas, como prega. Temer, na verdade, teve seu nome lançado pela direção do PSDB, que depois o abandonou em favor de Nonô. Também chegou a ser cogitado como candidato do governo, mas seu perfil oposicionista acabou fazendo com que fosse bombardeado por peemedebistas governistas, como os senadores José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL), e preterido em favor de Aldo. Mas mesmo magoado, Temer sabe que pode chegar ao segundo turno, e não pretende queimar pontes. “Já conversei com o deputado Nonô sobre a possibilidade de apoio no segundo turno”, disse, sem especificar quem apoiaria quem.

O candidato do PFL, no entanto, parece certo de que será ele quem terá o apoio de Temer no segundo turno. O principal trunfo de Nonô para garantir esse apoio será a possibilidade de oferecer ao PMDB a vice-presidência da Câmara, cargo ocupado atualmente por ele e que ficará vago caso ele vença a eleição de quarta-feira (28). “Quem cobiça a vice-presidência terá que me apoiar no segundo turno”, disse o deputado. Devido à dispersão das diversas forças políticas, Nonô é o candidato que aparece com maiores chances de chegar ao segundo turno, e pode deixar essa posição ainda mais confortável nesta terça, quando o bloco independente formado por PPS, PV, PDT e Prona deve confirmar apoio à sua candidatura ainda no primeiro turno.

Recurso na CCJ pode tumultuar
Apesar da confiança de PFL e PSDB, um problema de última hora pode impossibilitar a candidatura de José Thomaz Nonô, assim como as de Ciro Nogueira e João Caldas. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) deu entrada nesta segunda-feira em um recurso na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) no qual questiona a possibilidade de os deputados que ocupam postos na atual Mesa Diretora disputarem a presidência da Câmara. Segundo o recurso apresentado por Cunha – que é aliado do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PMDB), e apóia Michel Temer –, a apresentação de um nome que já compõe a Mesa significará a disputa de dois cargos na mesma legislatura, o que é proibido pelo regimento interno da Câmara.

Cunha fez esse questionamento pela primeira vez em plenário, na última quinta-feira (22), em forma de questão de ordem. Ela, no entanto, foi indeferida por Nonô, que presidia a sessão e afirmou que a dúvida apresentada pelo deputado “já havia sido sanada anteriormente pela consultoria jurídica” da Câmara. O peemedebista deu então entrada na CCJ, que vai definir uma posição sobre o caso nesta terça-feira. “O fato de um deputado diretamente interessado ter indeferido a questão de ordem que propus já mostra a gravidade do problema. Em caso de nova derrota, vou acionar o STF (Supremo Tribunal Federal)”, disse.

Em caso de impugnação da candidatura de Nonô, existe a possibilidade de um outro recurso ser impetrado na CCJ, desta vez questionando a candidatura de Aldo Rebelo. O motivo do recurso seria a liberação pelo governo de R$ 500 milhões em emendas parlamentares, fato que, segundo a oposição, estaria beneficiando de maneira ilegal o candidato governista. Nenhuma chapa, no entanto, apresentou ainda este questionamento. “A hora é de esperar. É até bom que o governo libere as emendas dos deputados, pois isso beneficia suas bases”, disse Nonô, ciente de que, em relação à eleição do novo presidente da Câmara, o equilíbrio é tênue e que, até quarta-feira, tudo pode ainda acontecer.



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