Política

Camarada Marighella!

04/11/2009 00:00

Neste 4 de novembro de 2009, cumprem-se quarenta anos do covarde assassinato de Carlos Marighella pelas forças da repressão da ditadura militar. São justas e necessárias todas as iniciativas para homenagear este herói.

É impossível falar de Marighella sem falar do PCB - a grande escola onde se formou e militou a maior parte de sua vida como revolucionário – e sem ao menos tangenciar alguns aspectos das divergências sobre a linha política pendular do partido da década de 50 à de 80 do século passado, que geraram uma verdadeira diáspora dos comunistas brasileiros.

É impossível também falar de Marighella, fundador da ALN (Ação Libertadora Nacional), sem lembrar de outros revolucionários que também divergiram da orientação política do PCB e criaram dissidências ou aderiram a elas após o golpe imperialista de 1964, que assumiu a forma de golpe militar, como Apolônio de Carvalho, Carlos Lamarca, Joaquim Câmara Ferreira, Mário Alves e tantos outros.

O PCB, que se manteve em 1992 em resistência aos que lhe quiseram liquidar e que, dezoito anos depois, se dispõe a se reconstruir como partido revolucionário, olha para Marighella e todos os que saíram do Partido àquela época com respeito e simpatia, sentimentos que não se pode nutrir pelos que o abandonaram pela direita, traindo sua história e o socialismo. Este respeito vem da compreensão de que as divergências com a linha política do Partido têm sua origem nos equívocos que levaram à derrota popular em 1964.

No entanto, respeitar e compreender o surgimento destas organizações que racharam com o PCB após 1964 não significa concordar com a forma de luta adotada por elas. Apesar de legítima, a luta armada não era adequada àquela correlação de forças e ao nível de organização e mobilização da resistência popular à ditadura.

O grande equívoco do PCB, a nosso ver, foi no governo João Goulart, ao acreditar que as chamadas reformas de base não iam gerar um enfrentamento com o imperialismo e o grande capital. Este equívoco tem suas raízes na Declaração de Março de 1958, que estabelece uma estratégia nacional e democrática pela via da institucionalidade burguesa. Acreditando em alianças com setores da burguesia e numa via pacífica de transição ao socialismo, o PCB desarmou a possibilidade de resistência popular. Alguns dias antes do golpe, sua direção o subestimava.

Diante do erro cometido antes de 1964, consideramos correta, até 1979, a linha política adotada pelo VI Congresso do PCB, em 1967, de enfrentamento à ditadura pela via do movimento de massas e da frente democrática, até porque não restavam outras alternativas. Novos erros vieram depois, nos anos 80, com a manutenção da política de frente democrática que já havia perdido a atualidade. Foi a década perdida do PCB, do ponto de vista revolucionário, marcada pela conciliação de classe.

No entanto, não estamos entre aqueles que negam ou subestimam o papel da insurgência armada adotada por algumas organizações no período que, ao preço de muitas vidas que nos fazem falta, também contribuíram para a derrubada da ditadura.

Também é preciso ficar claro que a ditadura não escolhia suas vítimas apenas em função dos meios com que lutavam. Entre 1973 e 1975, foram assassinados dezenas de camaradas do PCB, cujos corpos jamais apareceram, dentre eles quase todos os membros do Comitê Central que aqui atuavam na clandestinidade.

Marighella não pertence apenas ao PCB nem à ALN. Pertence a todos os revolucionários e se inscreve na galeria de heróis que, em todo o mundo, lutaram e lutam contra a opressão e a exploração, por uma sociedade em que todos nos possamos chamar de companheiros.

(*) Nascido em 18/03/46, no Rio de Janeiro. Foi militante do MR-8 até 1976 e depois ingressou no PCB. Bancário aposentado, é hoje Secretário Geral do PCB.

Conteúdo Relacionado