Política

Campanha de rua no Rio começa mal para Conde e Crivella

08/07/2004 00:00

Rio de Janeiro – A campanha de rua começou há apenas dois dias, mais esse pouco tempo já foi suficiente para dois candidatos a Prefeitura do Rio sentiram aquela amarga sensação de que a sorte, tão importante nas disputas eleitorais, lhes virou as costas. Vitimados pela volta a tona de erros cometidos no passado, pelo abandono de seus mais fortes cabos eleitorais ou até mesmo pelas próprias palavras, os candidatos Marcelo Crivella (PL) e Luiz Paulo Conde (PMDB) iniciaram o corpo-a-corpo com os eleitores nas ruas da cidade na defensiva.

O caso mais delicado é o do senador Marcelo Crivella. Ele foi intimado pela Polícia Federal no inquérito que apura as irregularidades cometidas na compra das emissoras de televisão TV Record, em São Paulo, e TV Rio, no Rio de Janeiro, por pessoas ligadas a Igreja Universal do Reino de Deus, da qual ele é pastor. No inquérito, Crivella é citado pela prática dos crimes de sonegação fiscal, evasão de divisas e manutenção de conta bancária no exterior sem o conhecimento das autoridades fiscais.

As duas emissoras foram compradas no início da década de 1990. A compra da TV Rio, que teve a participação indireta de Crivella, aconteceu em fevereiro de 1992, em plena época de Carnaval. Naquela ocasião, chamou a atenção das autoridades o fato de que a emissora carioca havia sido adquirida por um grupo de pessoas de classe média baixa, possuidoras de um patrimônio exíguo. Todos funcionários ou adeptos da Igreja Universal, Alba Maria Silva da Costa, Claudemir Mendonça de Andrade, Márcio Araújo Lima e José Fernando Passos da Costa conseguiram o incrível empréstimo de US$ 20 milhões para realizar o negócio. O dinheiro foi emprestado por duas empresas off shores com sedes em paraísos fiscais: a Cableinvest, com sede nas Ilhas Jersey, e a Investholding, com sede nas Ilhas Cayman. Segundo a Polícia Federal, Crivella era dono da Cableinvest e diretor da Investholding, que foi desativada em 1999.

Pode até ser que tenha havido alguma motivação política para o fato de a intimação ao candidato do PL ter sido divulgada exatamente no início da campanha eleitoral, mas Crivella terá dificuldade em provar isso, pois o desenrolar dos acontecimentos remete mesmo ao acaso. Tudo começou quando o procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, solicitou ao Supremo Tribunal Federal, onde se encontra atualmente o inquérito, a quebra do sigilo fiscal da Igreja Universal. O ministro Carlos Velloso, relator do inquérito, acatou a sugestão de Fonteles, mas determinou que o sigilo só fosse quebrado depois que a PF tomasse os depoimentos de Crivella, do pastor e ex-deputado federal Laprovita Vieira, e do atual dono da Rede Record – e líder da Igreja Universal – Edir Macedo.

Maldade com os velhinhos
O senador negou a participação nas empresas off shores citadas no inquérito, afirmando que em 1992 estava morando na África, onde dirigia projetos da Igreja Universal na Suazilândia. Mas, talvez abalado pela novidade ruim, acabou cometendo uma gafe que pode ter um custo eleitoral ainda mais alto. Cercado pela imprensa durante um corpo-a-corpo no calçadão de Bangu, Crivella escolheu um caminho infeliz para criticar uma declaração do atual prefeito Cesar Maia, candidato à reeleição pelo PFL, que afirmou não ter tempo de ir todos os dias as ruas ver eleitores porque precisa administrar a cidade: "O prefeito não vem às ruas porque ficará constrangido com as críticas que receberá do povo. Principalmente porque o prefeito tem 60 anos e já governou três vezes. A gente, quando vai envelhecendo, se constrange com mais facilidade", disse.

Além da imprecisão – Cesar acabou de fazer 59 anos e só governou o Rio duas vezes – o pastor Crivella cometeu o pecado de não saber onde estava pisando, ou então não teria dito o que disse. Capital brasileira com a maior população de idosos – cerca de 13% dos habitantes tem mais de 60 anos, segundo o último Censo – o Rio costuma consagrar nas urnas quem consegue associar sua imagem política a defesa do direito dos idosos, mas também costuma rejeitar quem "maltrata os velhinhos". Exemplo do primeiro caso é o senador Sérgio Cabral Filho (PMDB), campeão de votos na terceira idade. No segundo exemplo se encaixa o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, depois de taxar os aposentados de vagabundos, viu sua popularidade ruir de vez na cidade.

Os adversários de Crivella não tardaram a criticar o candidato do PL. Quem mais soube faturar o vacilo alheio, para variar, foi o próprio Cesar Maia, que afirmou não ser ele, mas sim "todos os 700 mil eleitores da terceira idade no Rio" quem deve dar uma resposta ao comentário do senador: "Tenho 59 anos, sou um homem maduro e experimentado e me sinto muito bem. Segundo o Estatuto do Idoso, com 60 anos a pessoa já entra na terceira idade, mas nos dias de hoje as pessoas conseguem viver e trabalhar bem por muitos anos além dos 60. A declaração do senador Crivella não me ofende particularmente, mas ofende a todas as pessoas da terceira idade", disse.

Menos importante que pudim
A situação de Luiz Paulo Conde frente aos eleitores pode não ser tão delicada quanto a de Crivella, mas causa a mesma preocupação no candidato do PMDB. Seu problema não é uma história mal-explicada do passado nem incontinência verbal. Está mais para abandono dos entes políticos queridos, com tendência a deterioração acelerada de candidatura. Além de ser o único candidato em curva descendente nas pesquisas de opinião pública, Conde amargou o vexame de ver tornada pública a negociação avançada que seu partido travava com o PDT do falecido Leonel Brizola e que, não fosse outra a vontade do destino, culminaria fatalmente na incineração da candidatura do atual vice-governador do Rio.

Se estava magoado com a governadora Rosinha Matheus e com Anthony Garotinho, Conde deve ter passado ao desespero nos dois primeiros dias de campanha de rua, quando foi ignorado pelos caciques do PMDB. Na visita aos vendedores ambulantes do Centro do Rio, potencial reduto de ódio ao prefeito Cesar Maia, não se deu a presença da governadora para associar sua imagem a de Conde, como combinado. No corpo-a-corpo realizado no bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste, onde o casal Garotinho tem um de seus mais fortes redutos eleitorais, Conde também não pôde contar com nenhum dos dois. Sua maior preocupação, segundo assessores, é não conseguir se identificar como candidato do governo estadual e criar confusão na cabeça dos eleitores, uma vez que já foi afilhado político de Cesar, hoje seu maior adversário; "Com o início da propaganda na televisão, tudo vai ficar mais claro", espera o candidato do PMDB.

O motivo do sumiço de Garotinho e Rosinha é a situação eleitoral delicada que vivem em seu município de origem, Campos, onde o candidato apoiado por eles aparece em terceiro lugar nas pesquisas. Depois que foi eleito prefeito da cidade pela primeira vez, em 1988, dando início a sua meteórica ascensão política, Garotinho sempre conseguiu eleger a si mesmo ou aos candidatos que apoiava em Campos sem maiores dificuldades. Para se ter uma idéia, nunca houve a necessidade de segundo turno na cidade, que conta com 230 mil eleitores. Desde que rompeu com o atual prefeito Arnaldo Vianna, no entanto, essa realidade mudou.

Filiado ao PDT, Vianna é amigo de longa data de Garotinho, mas rompeu a aliança política de 16 anos em 2003, não dando tempo ao ex-governador de encontrar um candidato com densidade eleitoral em Campos. Como não pode mais ser candidato, o prefeito apóia o ex-deputado federal Carlos Alberto Campista, que também rompeu com Garotinho e é um político muito conhecido na cidade. Sem alternativa, Garotinho lançou pelo PMDB a candidatura de um antigo parceiro de movimento estudantil, Geraldo Pudim. Quem se aproveita do duelo entre os ex-aliados é o candidato do PSDB, o deputado federal Paulo Feijó, que dispara nas pesquisas e parece garantido no segundo turno.

O drama de Conde é que a situação de Campos está fazendo com que Garotinho e Rosinha priorizem a disputa em seu berço eleitoral e, ao menos por enquanto, deixem de lado a capital. Na cabeça do casal mais importante da política fluminense, a tarefa primordial agora é eleger Pudim: "Uma derrota em seu berço eleitoral seria desagradavelmente emblemática para um político que ambiciona ser candidato à presidência da República como Garotinho. Além disso, ele está cada vez mais descrente das possibilidades eleitorais de Conde", explica um assessor próximo ao ex-governador.


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