Política

Capitalismo, Novo Imperialismo e a Geopolítica Brasileira

A lógica do governo neofascista estabelecido no país está definitivamente condicionado ao grau de imposição dos interesses do império decadente

15/04/2019 12:11

 

Nos últimos anos entramos em uma nova fase das relações geopolíticas do capitalismo. A lógica de formas econômicas integradas e politicamente subservientes se revelam como a face explicita de um novo imperialismo, sendo que a condição de inserção de variadas economias nacionais se altera a partir de então. Podemos afirmar que as condições políticas autoritárias que se estabelecem no Brasil a partir de 2016 são parte desta nova ordem geopolítica global.

A retomada da análise do desenvolvimento do capitalismo e, especialmente, de suas contradições, crises e ações do Estado constituem a base de dois livros de grande importância para o entendimento dos acontecimentos econômicos e políticos recentes ao nível internacional e brasileiro. Os trabalhos de David Harvey e Eric Hobsbawm, por mais que ambos publicados na década passada (2004 e 2007, respectivamente) constituem textos problematizadores e, até certo ponto, elucidativos do nosso atual complexo presente-futuro.

Harvey, em seu “O Novo Imperialismo” (encurtador.com.br/evGHO), assinala que certas características da sociedade estadunidense (EUA), tal como o “inflexível individualismo competitivo”, soma-se aos padrões de domínio econômico, político e militar dessa potência imperial, para impor o atual perigoso jogo de domínio internacional, cuja ultimas vitimas foram as “tristes e recentes” democracias latino-americanas, sendo o Brasil a principal sociedade exposta ao poder do império decadente.

Quando Harvey escreveu ainda tínhamos certa discrição nas ações de império. Vale lembrar que Obama ao autorizar a morte televisionada de Bin Laden o fez com a percepção de tornar “hollywoodiana” a ação, estabelecendo desde então um novo padrão de ação imperial: o uso da tecnologia suprema para subordinação máxima dos oponentes. O uso da reorganização do poder de império se acelera desde fins de 2010, sendo que o eixo da lógica geopolítica estadunidense se redireciona para América Latina, seu “quintal” sublevado.

Harvey, que é professor da City University of New York, bebe em Marx para compreender como a acumulação capitalista produziu as modernas formas de domínio imperialista, denotando as diferenças entre o imperialismo britânico (1814/1914) e o que ele denomina de Novo Imperialismo Norte-Americano. O desiderato desse novo imperialismo para ser entendido necessita da compreensão de como interagem a acumulação interminável de propriedade e a acumulação interminável de poder político.

O capital financeiro, a capacidade produtiva e a força militar são os pilares em que se apoia a hegemonia no capitalismo. Vale reforçar que a consolidação do poder político burguês no âmbito dos Estados europeus foi uma precondição necessária a uma reorientação territorial segundo os requisitos da lógica capitalista. Harvey observa que a partir do final do século XIX, os EUA passam gradualmente a mascarar o caráter explicito das conquistas e ocupações territoriais sob a capa de uma universalização não espacial de seus valores, discurso que culminaria na atual retórica da globalização. Neste ponto temos uma importante convergência entre Harvey e Hobsbawm.

Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, infelizmente falecido em 2012, também se tem a universalização de certos padrões econômicos e culturais enquanto cerne de construção da hegemonia internacional estadunidense. Hobsbawm, porém, enfatiza que o mundo por ser demasiado grande, complexo e plural inviabiliza qualquer possibilidade de que os Estados Unidos, ou qualquer outra potência singular possam estabelecer um controle duradouro, mesmo que o desejassem sobre a economia mundial. O questionamento então caminha para a inevitável indagação de como se consolidará a hegemonia estadunidense ou se a atual crise já demarca o campo do devir do imperialismo norte-americano e de sua inevitável decadência.

Os recentes episódios internacionais econômicos e políticos parecem reforçar a percepção de Hobsbawm. A ausência de autoridades globais não consegue ser substituída pela presença de uma única superpotência, com o agravante, como mostram os episódios de crises cambiais internacionais e de crises das dividas soberanas de um grande número de países, que a adoção de medidas de autoproteção por parte desta superpotência enfraquece os elos de convergência hegemônica e o aparecimento de crescentes vozes destoantes entre subpotências regionais, as principais hoje Alemanha, Rússia e China.

O autor de “Globalização, Democracia e Terrorismo” (encurtador.com.br/ceuN5), denota que quatro movimentos estariam por detrás das tentativas de manter “um império mundial” decadente (o primeiro teria sido o Britânico):

i) o acelerado processo de globalização desde a década de 1960, contudo com consequências deletérias de elevação ou agravamento das desigualdades econômicas e sociais entre e intra-nações, além da incapacidade, até aqui, de efetivação de uma globalização da política; o que nos parece que se impõe nos últimos cinco anos é justamente o poder de império político se estabelecendo, sendo que a América Latina constitui o quintal para experimentação da globalização política do império decadente;

ii) o colapso do equilíbrio internacional de forças oriundos da Segunda Guerra Mundial, especialmente o desmantelamento da antiga URSS e o desaparecimento de forças divergentes necessárias ao equilíbrio do sistema de forças. Neste caso o reapacimento do poder de interação geopolítica da Rússia e a nova ordem de ascensão da China, curiosamente tem na América latina seu espaço de estreia;

iii) a crise dos Estados nacionais soberanos e/ou a fragilização desses agentes frente outros agentes de acumulação, tais como as mega transnacionais. A lógica aqui parece ser de uma nova corrida ao controle de recursos naturais estratégicos, assim a subordinação radical da América Latina ao controle dos estoques de recursos naturais como petróleo e minérios constitui o centro da nova escalada de dependência destas sociedades em relação ao império decadente;

iv) o regresso de catástrofes humanas maciças e a presença de medo generalizado, seja na forma mais simples de violência causada por disputas banais, por exemplo, a violência juvenil, até formas como a expulsão de populações e o genocídio são aspectos que são comuns em diversas partes do planeta ao longo do século XX, mas agora são parte da dinâmica geopolítica estabelecida na América Latina, provavelmente se aprofundando nos próximos anos na forma de intensas fugas migratórias no continente, sendo que o ocaso venezuelano somente antecipa o que será o futuro próximo continental.

Por mais que os autores não tenham se detido na análise da crise recente do capitalismo central, mas no geral apontam para desdobramentos bastante sérios e a necessidade de compreensão e ação por parte da esquerda. O agravamento da crise estadunidense, como assim parece estar dada, tem levado ao avanço do discurso fascista tanto nos EUA, quanto na Europa. Vale reforçar que a história nos mostra que a condição de crise mais radical do capitalismo e de decadência de sua potência hegemônica na época histórica se resolve sempre pela radical subordinação das sociedades periféricas, geralmente impondo formas autoritárias subservientes ao centro decadente.

As análises em foco concluem com o impasse quanto aos desdobramentos da economia e sociedade estadunidense, do mesmo modo quanto às incertezas que assopram sobre o desenvolvimento internacional. Da nossa parte nos parece que as condições brasileiras de se impor soberanamente e colaborar com uma saída propositiva foram derrotados com o golpe de 2016 e com a eleição de Bolsonaro. A lógica do governo neofascista estabelecido no país está definitivamente condicionado ao grau de imposição dos interesses do império decadente. A luta social neste momento impõe, mais do que nunca na história brasileira, o discurso anti-imperialista e a queima das bandeiras do império decadente.

José Trindade é Professor da UFPa

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