Política

Casal Garotinho vive tensão pré-eleitoral no Rio de Janeiro

21/09/2004 00:00

Rio de Janeiro – Nenhuma outra liderança política tem o futuro de seu projeto de poder tão diretamente ligado ao resultado das eleições municipais no Estado do Rio de Janeiro quanto o casal Anthony Garotinho e Rosinha Matheus. Sem jamais ter escondido que almeja candidatar-se novamente a Presidência da República, Garotinho depende de um bom desempenho nas urnas este ano para angariar cacife político e convencer a maioria de seu atual partido, o PMDB, a lhe ceder a legenda em 2006. A governadora do Rio, mesmo não sendo candidata à reeleição, depende de um quadro pós-eleitoral favorável nos municípios fluminenses para conseguir eleger o sucessor e cumprir a segunda metade do seu problemático mandato sem causar maiores danos à candidatura do marido a Presidência.

Logo após assumir a presidência regional do PMDB, em dezembro do ano passado, Garotinho anunciou que o objetivo do partido era conquistar pelo menos 55 prefeituras em todo o Estado. Além de garantir a reeleição de aliados, o plano incluía vencer na capital, com Luiz Paulo Conde, e tomar de adversários o controle de cidades importantes como Niterói, Duque de Caxias e, principalmente, Campos, seu berço eleitoral. O problema é que, como diria Mané Garrincha, faltou combinar com os russos. A realidade a duas semanas das eleições mostra que as intenções do PMDB e de Garotinho podem não se materializar.

Sem liderar as pesquisas feitas em nenhuma das cidades citadas, o PMDB do Rio provavelmente terá que se contentar com pouco mais de 30 prefeituras, o que não é pouco, mas também não faz de Garotinho um “candidato natural” a Presidência da República num partido de dimensões nacionais e que, por hora, integra a base do governo Lula. Além disso, nos últimos dias as desavenças com Conde se tornaram públicas, enfraquecendo ainda mais a candidatura peemedebista na capital. Para piorar, uma ONG fundada por Garotinho está sob a suspeita do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) por ter distribuído em Campos cestas básicas aos eleitores, com o intuito de atrair votos para Geraldo Pudim (PMDB), que é o candidato apoiado pelo casal na corrida pela prefeitura campista.

As 245 cestas básicas foram apreendidas por fiscais do TRE na noite de 11 de setembro, após determinação da juíza eleitoral Maria Tereza Andrade, que atendeu a pedido feito pela coligação que apóia o candidato Paulo Feijó (PSDB) e é composta também por PFL, PTB, PV, PHS e PTN. As suspeitas de tentativa de favorecimento a Pudim aumentaram porque as sacolas apreendidas continham a inscrição “Família Saudável”, que é o nome de um programa de assistência social desenvolvido pela ONG Instituto Visão, da qual Garotinho é fundador e membro da atual diretoria. A apreensão das cestas, efetuada na residência de uma pessoa que se disse advogado da ONG, foi acompanhada pela Polícia Federal. A juíza determinou que as evidências de crime eleitoral fossem encaminhadas ao Ministério Público.

Adversários pedem tropas
Com a eclosão do “escândalo das cestas”, todos os adversários de Pudim em Campos se uniram para solicitar à Justiça Eleitoral o envio de tropas federais para acompanhar as eleições na cidade no dia 3 de outubro e impedir a boca-de-urna que, segundo eles, o governo estadual está organizando. “A fiscalização externa é necessária porque o secretário estadual de Segurança Pública Anthony Garotinho controla a Polícia Militar no Estado, além de ser ao mesmo tempo presidente regional do PMDB”, diz o requerimento. O documento também sugere a falta de segurança para o pleito citando os atos de violência ocorridos durante comícios de Feijó e do candidato do PDT, Carlos Alberto Campista, quando pessoas foram baleadas. A Justiça Eleitoral, no entanto, descartou que os incidentes possam ter ocorrido por motivação política e tudo indica que irá rejeitar o pedido de envio de tropas federais.

Desde 1986, quando se tornou o candidato a deputado estadual mais votado do Norte Fluminense, Garotinho jamais perdeu uma eleição em Campos. Eleito prefeito da cidade pela primeira vez em 1988, ele sempre se reelegeu ou elegeu quem indicou no primeiro turno. O rompimento com o atual prefeito de Campos, Arnaldo Vianna (PDT), no entanto, modificou a situação. O candidato de Vianna é Campista, que lidera as pesquisas, mas aparece em situação de empate técnico com Feijó e Pudim. É impossível dizer quem vencerá, mas é certo que haverá segundo turno. No caso da ida de Pudim ao segundo turno, Feijó apoiaria Campista ou vice-versa, criando um quadro político que dificultaria muito a vitória do candidato do casal Garotinho.

Niterói e Baixada
O sonho dos Garotinho de conquistar a importante prefeitura do segundo maior município fluminense, Niterói, também parece a cada dia mais distante. Imaginada como imbatível, a candidatura do ex-prefeito e ex-governador Moreira Franco (PMDB) começou a erodir ainda em agosto, e a liderança nas pesquisas passou para o atual prefeito Godofredo Pinto (PT), que tenta a reeleição. Mesmo com a provável ida ao segundo turno, Moreira teria que enfrentar um Godofredo vitaminado pelo apoio do candidato João Sampaio (PDT), também ex-prefeito da cidade, que goza de grande popularidade em Niterói. O candidato petista ainda tem um outro apoio, o do vizinho carioca Cesar Maia (PFL), que pode deixar o PMDB definitivamente em maus lençóis num segundo turno.

O drama se repete na Baixada Fluminense. O sonho distante de tirar Duque de Caxias do domínio político do prefeito José Camilo Zito parecia ganhar corpo quando o candidato de Garotinho, o deputado federal Washington Reis (PMDB), surgiu nas primeiras pesquisas a frente do candidato de Zito, o jovem e sem muita bagagem política Laury Villar (PDT). Faltando muito pouco para a eleição, no entanto, as pesquisas indicam agora uma virada espetacular de Villar que, com o prefeito a tira-colo, será um adversário difícil de bater. Em Nova Iguaçu, onde o prefeito peemedebista Mário Marques tenta a reeleição com o apoio do governo estadual, Lindberg Farias (PT) disparou na liderança. Para tentar neutralizar o efeito que a candidatura do petista tem sobre o imenso eleitorado jovem do município, Garotinho determinou que a filha Clarissa Matheus, sua nova aposta política, se dedique exclusivamente à campanha de Marques. Outro osso duro de roer para o PMDB.

Briga com Conde
O caldo do PMDB preparado por Garotinho desandou mesmo foi na cidade do Rio de Janeiro, onde as desavenças com o candidato Luiz Paulo Conde – que já ferviam nos bastidores desde que a governadora Rosinha Matheus tentou negociar com o falecido Leonel Brizola uma aliança que implicava na retirada da candidatura do partido – se tornaram públicas as vésperas da eleição. Depois de exigir uma reunião da cúpula regional do PMDB na última quinta-feira (16), Garotinho afirmou em seu programa de rádio que a vitória de Cesar Maia (PFL) no primeiro turno parecia certa e que Conde falhara ao não seguir suas orientações e “bater mais” no atual prefeito. “Ele não me ouviu. E eu não tive nenhuma ingerência na campanha dele”, disse.

No dia seguinte, após esperar uma hora e meia por Rosinha, sob sol intenso, na porta do restaurante popular da Central do Brasil, Conde acabou se irritando e aceitando a provocação dos jornalistas. “O Garotinho ajuda, mas o candidato é o Conde. O Garotinho e a Rosinha apóiam o Conde, mas quem dá sempre a última palavra é o Conde. Sou independente, não sou teleguiado”, disse, referindo-se a si mesmo na terceira pessoa. Horas mais tarde, Conde e Garotinho tentaram abafar a crise e soltaram notas reafirmando a confiança na ida da candidatura do PMDB para o segundo turno no Rio. Mas o mal-estar ficou evidente para os eleitores.


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