Política

Castelo Branco por Legalidade: uma troca bem-vinda

Castelo Branco e Legalidade são antípodas, bem como Castelo Branco e Democracia. A menos que se aceite a tese esdrúxula de que a ditadura só iniciou em 68.

01/10/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


A troca pormulgada pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre do nome “Avenida Castelo Branco” por “Avenida da Legalidade e da Democracia” (proposta pelos vereadores Pedro Ruas e Fernanda Melchiona, do PSOL) é muito bem-vinda. Não se trata de uma avenida qualquer. É uma das principais entradas e saídas da cidade: um cartão de visitas, como a Avenida Farrapos, a Ponte do Guaíba, o Aeroporto Salgado Filho, a Estátua do Laçador, a Avenida Beira-Rio e outras referências.

Castelo Branco e Legalidade são antípodas, bem como Castelo Branco e Democracia. A menos que se aceite a tese esdrúxula de que a ditadura brasileira só durou 11 anos, de 1968 a 1979.

O Movimento pela e a Rede da Legalidade (radiofônica) foram a primeira oportunidade em nosso continente que uma mobilização popular reverteu um golpe de estado já em curso. Para quem viveu aqueles dias na capital dos gaúchos, no estado ou no Brasil, ficaram momentos inesquecíveis.

Por exemplo: o discurso de despedida do governador Leonel Brizola, pelo rádio (28 de agosto), quando chegavam notícias ao Palácio Piratini de que o Comando das Forças Armadas ordenara seu bombardeio aéreo a partir da Base Aérea de Canoas, e que uma coluna de tanques se deslocava do Quartel da Serraria para o centro da cidade. Também chegava a notícia de que o Comandante do III Exército, General Machado Lopes, se dirigia para lá.

O bombardeio, afinal previsto para a madrugada de 29, não aconteceu graças à ação decisiva dos sargentos da Base Aérea, impedindo os aviões de levantar vôo, apoiada por alguns oficiais, entre eles o Coronel Aviador Alfeu de Alcântara Monteiro, que assumiu o comando da base quando seu comandante golpista, Brigadeiro Aureliano Passos, fugiu para São Paulo.

Os tanques não vinham para atacar o Palácio, mas para defendê-lo. Naquela altura (manhã de 28) o General Machado Lopes já cedera às instâncias de muitos dos seus oficiais subordinados e vinha anunciar a Brizola sua adesão à Campanha da Legalidade, desobedecendo aos ministro militares que queriam impedir a posse do vice-presidente João Goulart, diante da inesperada renúncia do presidente Jânio Quadros no dia 25.

Machado Lopes ordenara o deslocamento dos blindados para o cais do porto da cidade, onde estavam ancoradas algumas corvetas da Marinha, que poderiam dali bombardear o Palácio. Quando o General chegou à Praça da Matriz, seu carro não conseguiu avançar entre a multidão compacta na frente do Palácio. Ele desceu com alguns oficiais do carro e militares e civis aglomerados cantaram o hino nacional, ouvido a quilômetros de distância.

A partir dali a Rede da Legalidade se espalhou pelo Brasil inteiro, pelo rádio, apesar das tentativas de cendura impostas pela junta militar, e o golpe foi revertido. Foram memórias como esta que o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco atropelou, ao ser “eleito” presidente dias depois por um Congresso Nacional manietado, expurgado e desmoralizado. Seu nome não merece estar num dos cartões de visita da cidade. Se alguém quiser homenagear nomes ligados ao golpe de 64, que os ponham, por exemplo, em algum matadouro que restar na cidade ou nas suas vizinhanças.

O nome da Legalidade e o da Democracia, sim, merecem.

Alegam os críticos da medida que mudar nomes não muda a história. Muda sim. Não para o passado, mas para o futuro, para as novas gerações, que aprenderão que o arbítrio pode ter fim, sim. Que confirmarão a ideia de Lincoln, de que é possível enganar alguns o tempo todo, ou todos por algum tempo, como pretendeu e em grande parte fizeram os golpistas de 61 e de 64, mas que é impossível enganar todos o tempo do todo. Afinal, como dizia o Padre Vieira, a história mais importante é a do futuro.

PS1A propósito: volto a insistir na tese de que falta pelo menos um nome na nossa cidade, que poderia ser o de uma praça: o do Coronel-Aviador Alfeu de Alcântara Monteiro, que assumiu o comando da Base Aérea de Canoas em 1961 e nela morreu assassinado por um oficial golpista em 4 de abril de 1964.

PS2 Citam o exemplo de Getúlio Vargas, se seu nome não deveria também ser trocado. Mas Vargas pelo menos foi um personagem contraditório e de múltiplas facetas. Os golpistas de 64 não. Tiveram uma só, contra o povo brasileiro.

PS3 Na Bahia o nome da Escola Garrastazu Médici foi trocado pelo de Carlos Marighella graças a uma votação de alunos, pais e professores. A ideia é boa: levantar a discussão. Em São Paulo, por exemplo, houve a intenção de mudar o nome de uma rua muito movimentada e populosa, da Vila Madalena, de Rodésia para Zimbábue. Fizeram um plebiscito na rua, e a mudança perdeu. Eu teria votado por ela, mas respeito o resultado.



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