Política

Tite contra Bolsonaro, Rapinoe contra Trump e Messi contra a Conmebol; a política entrou em campo neste fim de semana

 

08/07/2019 19:58

 

 

Quem acredita que futebol e política não se podem misturar certamente não entendeu nada do que ocorreu neste fim de semana. Tanto na França, onde se jogou a final do Mundial de Futebol Feminino, quanto no Brasil, que foi cenário das últimas partidas da Copa América, a política esteve presente nas declarações e no imaginário dos que acompanharam os eventos.

Comecemos pelo melhor, que foi o visto na França. Alguém poderá reclamar que, na verdade, não houve nada de polêmico ou de político na partida em si entre os Estados Unidos e a Holanda, no Estádio Olímpico de Lyon. E tem certa razão, mas também é verdade que esses elementos já estavam instalados desde antes, mesmo que não estivessem visíveis.

Recordemos os que não se lembram, ou nem ficaram sabendo: a capitã da equipe estadunidense Megan Rapinoe, assegurou que se ganhavam o torneio ela não iria à “fucking” Casa Branca levar o troféu ao presidente Donald Trump. A atleta é conhecida por ser uma craque também fora dos gramados: por exemplo, é uma das mais fortes lutadoras pela igualdade de prêmios entre esportistas homens e mulheres nos Estados Unidos, e por isso acredita que sua equipe multicampeã não é devidamente valorizada – o que é verdade, porque, pasmem, ganha menos que os futebolistas homens do país, que nunca foram uma seleção de destaque a nível internacional. Além disso, ela também é uma crítica costumaz das medidas do atual governo que considera racistas e homofóbicas. Trump respondeu a sua negativa da meia-atacante chamando-a de “arrogante” e dizendo que ela “primeiro tem que ganhar o torneio, e depois pensar em rejeitar o convite”.

Embora a polêmica maior tenha surgido nos dias anteriores ao da partida, a final em si também teve suas nuances políticas. O jogo foi vencido pelas estadunidenses por 2x0, e os momentos decisivos foram marcados de detalhes que aludem à disputa de declarações dos dias prévios. Aliás, o gol que abriu o placar em Lyon foi da própria Rapinoe, cobrando pênalti, e celebrando com um sugestivo gesto de abrir os braços, como quem diz “queria que eu ganhasse o título antes? Pois aqui está”.

Claro que essa polémica seguirá vigente nas próximas horas. A jogadora provavelmente cumprirá sua promessa, mas também é certo que algumas de suas companheiras de equipe deverão sim ir à Casa Branca, para levar a Copa do Mundial a Trump. Entretanto, não estarão na visita as estatuetas de melhor jogadora e de goleadora do torneio, prêmios individuais que foram dados a Rapinoe, por seu excelente desempenho na competição disputada em terras francesas.

Enquanto isso, no Brasil de Bolsonaro, o ex-militar transformado em presidente se esqueceu do seu discurso de impulsar “a nova política” (aliás, seu estilo de gestão mostra que ele se esquece disso com alguma frequência) e tentou fazer o que todo mandatário faz quando tem um grande triunfo esportivo em seu país: se apropriar do título, como se fosse obra do seu governo, ou uma façanha pessoal. O que ele não esperava é que sua entrada no gramado do Maracanã, após a vitória de 3x1 sobre o Peru, fosse seguida de uma tremenda vaia de grande parte dos torcedores brasileiros presentes nas arquibancadas. Um ruído ensurdecedor, que deixou em evidência os 32% de apoio popular que o presidente tem hoje, bem longe dos 49% com os que iniciou seu mandato, em janeiro passado – uma queda preocupante para um presidente que está há somente meio ano no poder.

Além disso, Bolsonaro tampouco esperava que o treinador do Scratch, Adenor Tite, tentasse evitar seu cumprimento, o que o obrigou a agarrar o seu pescoço, para não deixar que ele escapasse, numa cena muito parecida a uma cena de 2010, protagonizada pelo célebre treinador argentino Marcelo Bielsa, então técnico do Chile, e o presidente neopinochetista daquele país, Sebastián Piñera, após a Copa do Mundo da África do Sul. E embora alguns jogadores do time sim abraçaram Bolsonaro (como foi o caso do capitão Dani Alves), a verdade é que o tema mais comentado no Brasil após a partida foi a postura de Tite para com Bolsonaro. Inclusive porque, em outros tempos, Tite sim foi muito amigável com seu inimigo político, o ex-presidente Lula da Silva, que foi visitado pelo técnico em 2012 após a conquista da Copa Libertadores com o Corinthians, e inclusive levou a ele uma réplica do troféu e uma faixa de campeão.

No dia anterior à final também houve um pouco de política com futebol, quando o craque argentino Lionel Messi se recusou a receber a medalha de terceiro lugar da Copa América, alegando que “nós (os jogadores argentinos) não temos que ser parte dessa corrupção, da falta de respeito com a que nos trataram durante toda esta Copa”.

Além disse, voltou a dizer que Copa América estava armada para que o Brasil ganhasse, e que a briga dele com o chileno Gary Medel, que terminou em cartão vermelho para os dois atletas, “não era para expulsão para nenhum dos dois (…) uma amarela no máximo”. Claro, faltou um jornalista ali que se atrevesse a perguntar algo mais profundo, e pedisse que ele explicasse quais foram as forças ocultas que teriam manejado os detalhes do torneio a favor do time da casa. A Conmebol somente? O governo de Jair Bolsonaro? Será que houve desta vez o mesmo que se viu na Copa do Mundo de 1978? Curiosamente, o mandatário brasileiro esteve presente em três dos seis jogos do Brasil no torneio: na inauguração, na final e na semifinal, justamente a polêmica partida em que os anfitriões eliminaram a Argentina de Messi, e que esteve marcada por dois pênaltis não anotados a favor dos argentinos, o que contestado pelos atletas em campo, que reclamara que o VAR (árbitro de vídeo) sequer foi consultado em ambos os lances, “sendo que em toda a Copa América ele sempre esteve frequentemente presente”, lembrou o capitão da equipe branquiceleste.

Embora não tenhamos as impressões mais profundas de Messi sobre esses temas, podemos dizer com certeza que esta é a versão mais maradoniana que já vimos até agora do craque nascido em Rosário (assim como o mítico Che Guevara), ao menos em termos de declarações. Resta saber se ele seguirá por esse caminho, dando opiniões políticas mais progressistas, como fez o “Diego de la gente”.

*Publicado originalmente em eldesconcierto.cl | Tradução de Victor Farinelli

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