Política

Celso Amorim: ''Nunca houve uma subordinação tão vergonhosa aos EUA, nem na ditadura''

Celso Amorim, considerado o melhor chanceler do mundo nos governos Lula, exclusivo para a Web Rádio Carta Maior: ''Confesso minha perplexidade com a falta de reação dos militares''

22/09/2019 22:17

Lula e Celso Amorim

Créditos da foto: Lula e Celso Amorim

 
Celso Amorim: O escudo internacional que montamos foi fundamental e despertou -- como diria Chávez - 'a ira do império'

Temos que recriar a multipolaridade que foi um esteio geopolítico importante dos governos do PT

Esse escudo bem sucedido despertou, ao mesmo tempo --com despertará-- reações contrariadas

Será necessário, talvez, construir uma frente interna mais sólida para reagir quando a pressão se elevar



O papel da China -- antes não tão acentuado --, passa ter grande peso numa retomada, mas não exclusivo

Celso Amorim: A China terá que ser tratada como parceira estratégica e de longo prazo. E o empresariado sabe disso.

A China coloca seus interesses à frente, é verdade, mas todos praticam o seu 'American, First', exceto o Brasil atual.

Claro que a China tem interesse em comprar matéria-prima barata e vender industrializados.

 Mas se eles querem investir aqui em infraestrutura, então terão que comprar também óleo de soja, e não só grão.

A reciprocidade industrial é possível: eles mesmos queriam isso na área tecnológica com a Embraer, agora, infelizmente, vendida.


Celso Amorim e Carlos Tibúrcio

Existe espaço para parcerias de maior complexidade tecnológica: os únicos satélites efetivos do Brasil nasceram em associação com os chineses.

Celso Amorim: O clima político nos BRICs mudou em boa parte pela relação atual,privilegiada e obsessiva, com os EUA

A Rota da Seda é importante como investimento em infraestrutura, mas o foco prioritário dos BRICs também era esse.

Houve uma quebra de confiança com o Brasil e embora a China seja pragmática, a moeda comum dos Brics, por exemplo, parece agora improvável.

O clima político nos BRICs mudou em boa parte pela relação atual, privilegiada e obsessiva, com os EUA.

Nunca houve uma subordinação tão vergonhosa e submissa aos EUA quanto agora. Nem no governo militar.

 Celso Amorim: Um diplomata brasileiro na Europa me relatou o que ouve --Mas vocês prenderam o Mandela brasileiro?!"

Eu defendo a democracia no Brasil e não concebo uma democracia plena com Lula preso.

Isso me foi contado por um diplomata brasileiro na Europa que ouviu a seguinte pergunta: 'Mas vocês prenderam o Mandela de vocês?'

Tenho a esperança de que o Supremo venha a decidir pela nulidade do processo contra Lula, pelas irregularidades gritantes, agora comprovadas.

Lula está lendo, refletindo, tem enorme lucidez sobre o que é preciso fazer no Brasil e o eixo da soberania está muito presente nas suas preocupações.

Reverter quando as coisas avançam é muito difícil. Embraer, por exemplo. Nosso governo interrompeu as privatizações, mas não revertemos.

Celso Amorim:' Você ouvia falar em internacionalização da Amazônia sob Lula e Dilma? Não. Porque soberamente agíamos em sintonia com o interesse global'

A primeira soberania a ser conquistada é a das mentes: juízo crítico para não aceitar as receitas que vem de fora.

A lógica rentista, a dos investidores em Bolsa, não pensa o país a longo prazo. Querem ganhos imediatos apenas.

Soberania não é deliquência: isso que o Brasil está fazendo, por exemplo, desrespeitar acordos ambientais que nós mesmos ajudamos a construir.

A Amazônia é nossa, mas se o apartamento que é seu inunda, e prejudica outros, você não pode alegar soberania para não agir cooperativamente.

A floresta amazônica é um enorme sumidouro de carbono e isso a vincula a interesses globais que são também nossos, de todo o planeta.

Celso Amorim: 'Confesso minha perplexidade, já era para ter tido uma reação dos militares à total subalternidade do governo atual.

A cobiça internacional de mineradoras americanas, por exemplo, é antiga na Amazônia. Eu me lembro do Hermann Khan. Era o Bannon de extrema direita dos anos 70.

No governo Costa e Silva, Herman Khan e seu Hudson Institute, fez uma proposta de alagar a Amazônia para facilitar o transporte de minério. Foi repudiado.

Claro que não sou a favor de golpes, nem de esquerda, nem de direita e acho que as Forças Armadas não devem participar da política.

Então diante dessa submissão, quando você entrega seus recursos naturais à exploração estrangeira, caso da Petrobrás; quando abre mão de uma empresa de tecnologia de ponta como a Embraer, abre mão de uma política externa independente, fico um pouco perplexo . Porque acho que já deveria ter ocorrido uma reação (dos militares) .

Nunca houve esse alinhamento incondicional aos EUA: o Brasil reconheceu a independência conquistada pela guerrilha, em Angola, em plena guerra fria. Reconhecemos a China sem pedir licença; reconhecemos o escritório da OLP; os governos militares reconheceram Cuba, fizeram as 200 milhas que nos garantiram o pre-sal em aguas profundas -- isso foi no governo Médici!

 Na ditadura militar tivemos coisas horríveis, a tortura, por exemplo. Mas o que se tem agora, essa submissão declarada, eu nunca vi. A política externa do Brasil nunca foi tão ruim quanto agora.

Insisto, sou contra a participação dos militares na política, mas Forças Armadas constitucionalmente também são guardiãs da legalidade.

E a legalidade se baseia também na soberania nacional que não pode ser contrariada. E aí é preciso fazer um julgamento sério porque isso está sendo contrariado (por essa omissão). Nós nunca adotamos esse papel de total subalternidade que se tem hoje.

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