Política

Com Maluf e Bolsonaro, PP pleiteia espaço na coalizão de Lula

20/12/2006 00:00

BRASÍLIA – O presidente Lula se reuniu nesta quarta-feira (20) com a maioria dos 41 deputados que integrarão a bancada do PP na próxima Legislatura. Entre eles o ex-governador de São Paulo e ex-prefeito da capital paulista, Paulo Maluf, o mais votado do país, em números absolutos (739.827 votos), nas eleições para a Câmara Federal deste ano. Foi a segunda reunião do presidente com bancadas de parlamentares que irão formar a coalizão governista. A primeira foi com a bancada do PTB, que ainda não participa formalmente da aliança por resistência do presidente do partido, Roberto Jefferson.

O PP formalizou seu ingresso no governo Lula no início deste ano, quando o ex-deputado Severino Cavalcanti foi eleito presidente da Câmara. Como contrapartida ao apoio parlamentar, o partido indicou para substituir o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, no Ministério das Cidades, o então secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Márcio Fortes, um antigo assessor do deputado Francisco Dornelles (PP-RJ), eleito senador pelo Rio de Janeiro.

Até então, no entendimento da cúpula do governo, o PP estava representado pelo ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que não é do partido, mas tinha afinidade com a ala ruralista da legenda, que o teria adotado. No governo FHC, a pasta da Agricultura também ficou nas mãos do PP, particularmente no período em que o ministro era o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores, Pratini de Morais.

Nas eleições deste ano, o PP se dividiu, com uma parte apoiando a candidatura do tucano Geraldo Alckmin. Por essa razão, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, imaginava que o PP não iria se integrar formalmente à coalizão do governo. Ele chegou a dizer claramente a uma comitiva do partido, semanas atrás, que haveria uma diferenciação entre os formalmente coligados e os que estavam apoiando o governo com a maioria de suas bancadas.

Os dirigentes do partido entenderam o recado. Em menos de uma semana reuniram a Comissão Executiva Nacional, aprovaram a entrada na coalizão e levaram a ata para o presidente Lula ver na reunião que teve semana passada com os presidentes dos partidos que pretendem dar sustentação ao seu governo. Não havia mais porque tratar o PP como um aliado de segunda categoria.

O presidente ainda não definiu se o partido permanecerá no comando do Ministério das Cidades, mas deixou claro na reunião que estarão representados no governo. Os dirigentes do PP sonham com pelo menos a metade dos ministérios que deverão ficar sob a responsabilidade do PMDB, já que a bancada do partido na Câmara corresponde a quase metade da peemedebista. Está nas cogitações do partido manter o atual ministério e recuperar o da Agricultura. Mas o presidente avisou que só vai tratar do assunto no ano que vem.

De acordo com o líder da bancada, deputado Mário Negromonte (BA), Lula disse que estava feliz pela integração do PP ao governo e que espera contar com o partido no apoio às propostas para acelerar o crescimento do país. Mas observou, pedindo a concordância daqueles com experiência de ex-governadores e ex-prefeitos, como Paulo Maluf, que isso não é uma tarefa fácil. “Você que foram governadores, foram prefeitos sabem, o Maluf sabe, que tem muitas coisas que não dá para fazer do dia para a noite”, teria dito o presidente segundo Negromonte.

Maluf chegou dizendo que não queria roubar a cena da atual direção do partido, apesar de ter sido duas vezes candidato do partido à Presidência da República. Mas não agüentou. “A eleição acabou. Hoje o que interessa é o projeto Brasil. E nós vamos ajudar”, assegurou o ex-governador, que tem uma lista de pendências na Justiça por acusações de improbidade administrativa. Sendo a mais contundente a que o acusa de ter recebido milhões de dólares em propina de construtora para realizar obras na época em que foi prefeito de São Paulo, e enviado o dinheiro para contas no exterior de parentes e empresas localizadas em paraísos fiscais.

Também estiveram na reunião com Lula deputados que fizeram oposição ao governo Lula neste primeiro mandato. O catarinense Zonta, da bancada ruralista, saiu do encontro entusiasmado. Ele estava acompanhado da ex-prefeita de Florianópolis Ângela Amim, mulher do ex-governador Esperidião Amim. Ela foi eleita deputada federal e o marido perdeu a eleição para o atual governador Luiz Henrique no segundo turno em disputa apertada. Zonta explicou que neste ano, ao contrário de 2002, o PT apoiou Amim no segundo turno, o que contribuiu para estreitar a relação com o governo Lula.

O deputado Jair Bolsonaro (RJ) chegou avisando que não tinha sido cooptado. Permaneceria com o mesmo comportamento oposicionista que teve nos últimos 16 anos. “Só vou ouvir o que o presidente quer falar. Não vou apoiar ninguém. Meu voto e minha retaguarda não negocio com ninguém”, assegurou. Mas deixou aberta uma porta de interlocução dizendo que aceitaria negociar o aumento do soldo para os militares. Lembrou que um recruta ganha R$ 208,00 e que, recentemente, 120 capitães e tenentes pediram baixa das Forças Armadas por causa da baixa remuneração. O que, segundo ele, não teria sido devidamente noticiado pela imprensa.

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