Política

Com conservadores, PT disputa grandes centros contra tucanos

14/07/2004 00:00

Brasília – Apesar das divergências na direção nacional sobre o foco principal da estratégia eleitoral, o PT arranca para as eleições municipais deste ano mais forte, mais organizado, mais espraiado e com uma aliança mais conservadora que nas disputas anteriores. É o que indica o balanço das coligações divulgado nesta terça-feira pelo comando do partido.

Houve um aumento geral de 65% dos candidatos a prefeito. Em 2000, o PT entrou na disputa majoritária pela prefeitura de metade dos 5.560 municípios. Teve 1.316 candidaturas próprias e apoiou 1.416 candidatos de outros partidos. Em 2004, serão lançados aproximadamente 2.200 candidatos próprios a prefeito e o partido apoiará outros 2.400 candidatos de partidos aliados, tendo indicado o candidato a vice em cerca de 900 municípios. Com isso, o partido do presidente da República não disputará a eleição majoritária de apenas 964 cidades (17% do total) que representam menos de 10% do eleitorado.

Também é expressivo o crescimento dos candidatos petistas que disputam cadeiras nas Câmaras Municipais. Mesmo com a redução de 14% no número de vagas para vereadores, o PT está lançando 30% mais candidatos que na eleição anterior. Serão cerca de 33 mil – há quatro anos foram 25.340. Na primeira campanha que o PT organiza uma estrutura específica de acompanhamento e apoio aos candidatos a vereador, o objetivo é eleger ao menos um petista em cada município do País.

Mesmo com essa tendência de capilaridade, a direção nacional decidiu dar atenção especial ao grupo dos 95 maiores municípios do país – que possuem mais de 150 mil eleitores ou são capitais de Estados. É uma escolha semelhante à da eleição presidencial, quando o foco da estratégia foi direcionado aos 62 municípios com mais de 200 mil eleitores. Isso mostra que o PT quer aumentar sua força política nos pequenos e médios municípios, mas o objetivo principal é manter a hegemonia nos grandes centros.

Em 2000, o partido lançou 69 candidatos a prefeito nas maiores cidades (em nove, não fez coligação com ninguém) e apoiou candidatos de aliados em 24. Só não participou das eleições majoritárias em São Gonçalo (SP) e Serra (ES). Os candidatos petistas tiveram 8 milhões de votos nesse grupo de municípios (25% dos válidos), o dobro do que conseguiram nas outras 1.247 disputas em que teve candidato próprio.

Em 2004, o PT participa das eleições majoritárias em todos os 95 municípios com mais de 150 mil eleitores. Serão lançados candidatos próprios a prefeito em 77 (22 deles com chapa pura e seis sem coligação). Em outros 18, o partido apóia candidatos aliados - 4 do PPS, 4 do PDT, 3 do PSB, 3 do PL, 2 do PCdoB, um do PMDB e um do PTB.

Ampliação do arco de alianças
As alianças de outros partidos com o PT tiveram algumas variações de 2000 para 2004. No geral, houve aumento de 64% de apoios (de 183 para 300). Foi verificada pequena redução nas coligações com aliados históricos como o PSB (21 para 19) e o PDT (11 para 10). A grande baixa foi na aliança com o PSTU, que era parceiro de oposição ao governo tucano e continuou na linha oposicionista na gestão Lula. Os dois partidos estiveram juntos em 17 das maiores cidades na eleição anterior e hoje não estão coligados em nenhuma.

O número de alianças com 22 partidos aumentou na comparação entre uma eleição e outra. Houve crescimento nas coligações com nove dos 11 maiores partidos. As variações mais expressivas foram verificadas nas alianças com PL e PTB – partidos do campo conservador, enquadrado politicamente como centro-direita. As coligações com o PL, do vice-presidente José Alencar, aumentaram de três para 20. Com o PTB a parceira eleitoral evoluiu de duas para 22.

Por outro lado, o apoio do PT a candidatos de outros partidos diminuiu de 24 para 18 nas grandes cidades. Os dirigentes do partido consideram natural o movimento de ampliação do arco de coligações, decorrente da aliança feita para chegar ao governo federal e conquistar a maioria no Congresso. O secretário-geral do partido, Silvio Pereira, explica que a presença do PT no governo central acaba influenciando na adesão de partidos conservadores nas eleições municipais. Mas o presidente, José Genoino, sustenta que o partido não está mudando de campo. “O PT continua sendo um partido político ideológico de esquerda, que aprendeu a receber apoio na eleição presidencial”, afirma, chamando a atenção para o fato de o PT ter se apresentado para a disputa com candidatos histórico, contrariando as avaliações de que o partido iria inchar com a conquista da Presidência.

O PT procurou manter a cabeça de chapa nos municípios onde há emissoras de TV, por causa da propaganda eleitoral. A direção nacional deu liberdade para os diretórios municipais negociarem as coligações, exigindo apenas que os candidatos apoiados se comprometessem a defender o governo Lula na campanha. Em apenas um município houve intervenção. Foi em Mogi das Cruzes (SP), berço eleitoral do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. O candidato petista escolhido em convenção foi retirado na marra pela direção nacional em troca do apoio do PL nas principais capitais do País.

De acordo com Genoino, essa intervenção só foi possível porque a base do partido não havia sido consultada sobre eventual coligação, ao contrário do que ocorreu em Fortaleza, onde o Diretório Nacional recomendou o apoiou a Inácio Arrruda, do PC do B, mas a candidatura própria venceu por dois votos na prévia. A direção nacional lamentou a decisão, que sacrificou o apoio do PC do B ao PT no Rio de Janeiro, mas foi obrigada a aceitar o resultado. “Fortaleza é assunto encerrado. Já foi transitado em julgado”, proclama Genoino.

Nem vale-tudo nem isolamento
Ele diz que as circunstâncias políticas não permitiram que as coligações com os parceiros históricos acompanhassem a expansão das candidaturas petistas nas eleições municipais majoritárias. Considera natural que os partidos de centro-esquerda queiram se fortalecer no primeiro turno, para eleger vereadores, pensando na cláusula de barreira e no tempo de TV. Mas também considera natural que o PT queira manter a cabeça de chapa onde é majoritário. “Não é o vale-tudo, porque somos governo, nem é o isolamento do PT”, resumiu Genoino, observando que o eixo das alianças estratégicas com os aliados no governo federal vai se deslocar para o segundo turno das disputas municipais.

O mapa das coligações confirma que a parceria estratégica com o PMDB, ensaiada desde o ano passado, está muito distante. Nos maiores municípios, os dois partidos só estarão juntos em sete disputas (foram cinco em 2000). Nas capitais, formam coligação apenas em Palmas e Curitiba. Com algumas exceções, como Santa Catarina, onde a parceria com o governador Luiz Henrique possibilitou coligações em cerca de 100 cidades, o desprezo da prefeita Marta Suplicy pela aliança com o PMDB custou a aproximação estratégica. Só no Estado de São Paulo, o ex-governador Orestes Quércia interviu em 42 municípios para evitar coligações com o PT.

Silvio Pereira diz que a parceria nacional foi prejudicada pela falta de comando nacional do PMDB. De acordo com ele, além de não conhecer a situação partidária de cada Estado, o presidente do partido, Michel Temer, não tem ascendência sobre as lideranças regionais, ao contrário do comando de outros partidos. Pereira contou ter presenciado a conversa do presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, com o presidente estadual Campos Machado para assegurar o apoio do partido à reeleição de Marta, em São Paulo. “Ou vem por bem, ou vem por mal. Eu acabo com você”, teria dito Jefferson, segundo o secretário-geral do PT.

Prioridades divergentes
A divergência na direção nacional petista sobre a estratégia eleitoral está no foco das prioridades. Genoino defende que o esforço precisa ser concentrado nas capitais que são vitrines do partido, especialmente São Paulo, considerada emblemática para a acumulação de forças rumo à eleição de 2006. “Marta é a prioridade das prioridades”, anuncia Genoino, acompanhando o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem sinalizando há algum tempo.

Mas Silvio Pereira quer ampliar o leque para os 95 municípios maiores. O objetivo é barrar o avanço do PSDB nos grandes centros. Ele lembra que a maior prefeitura governada pelos tucanos hoje é Osasco e prevê um embate duríssimo em colégios eleitorais importantes, principalmente nas grandes cidades do interior de São Paulo – como São José dos Campos, onde o objetivo petista é derrotar o candidato do governador Geraldo Alckimin no berço eleitoral dele. Para fortalecer o PT no enfrentamento com os tucanos, Pereira defende a constituição de um fundo nacional para financiar o apoio político e material aos candidatos petistas – estratégia semelhante à usada na campanha presidencial para alimentar a “onda vermelha”.

Mas Genoino e o Tesoureiro do partido, Delúbio Soares, descartaram a criação de um caixa nacional para a campanha. Disseram que podem, no máximo, abrir caminhos para que as campanhas locais melhorem o sistema de arrecadação e pedir às personalidades nacionais do partido que percorram o País para ajudar os candidatos petistas. “Temos um time militante que vai suar a camisa e gastar sola de sapato. Vamos fazer dessa campanha um dos maiores movimentos eleitorais da história do País”, conclamou o presidente do PT.

Genoino sustenta que as metas desta eleição são manter as prefeituras do PT, crescer nos grandes centros e interiorizar o partido nas médias e pequenas cidades. O partido não divulga as projeções de crescimento para que a circunstância de um insucesso não seja entendida como fracasso. Triplicar o número de prefeitos petistas é um desafio realista. O partido governa hoje 204 prefeituras (elegeu 187, em 2000) e tem condições de avançar muito nos municípios médios. Para isso, o Grupo de Trabalho Eleitoral do PT, coordenado por Silvio Pereira, organizou seminários em 20 Estados e está fazendo acompanhamento das campanhas com consultoria de pesquisas e assessoria jurídica, além da produção de peças de propaganda nacionais.

Risco de derrota psicológica
Com a focalização dos esforços na disputa paulistana, o PT corre o risco de eventualmente transformar uma vitória eleitoral ampla em derrota, se o objetivo principal não for alcançado. Colocado diante dessa questão, o presidente do PT desconversa, demonstrando estar ciente do perigo da derrota psicológica. “Temos confiança na vitória de Marta. A prefeitura tem boa avaliação, tempo de televisão e o PT de São Paulo tem a mais forte militância”, assinala Genoino. “Rejeição a gente tira em campanha”, acrescenta, lembrando que a rejeição a Lula também era grande em 2001.

Eleição paulistana terá acompanhamento especial do presidente do PT. A direção nacional fez uma divisão de trabalho e coube a Genoino cuidar da “jóia da coroa”. O secretário-geral, Silvio Pereira, vai acompanhar a campanha no Paraná e na Bahia, principalmente nas capitais. O secretário de Comunicação, Marcelo Sereno, ficou com o Rio de Janeiro e o secretário de Organização, Gleber Naime, vai cuidar de alguns Estados nordestinos, especialmente a reeleição em Recife.

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