Política

Começam obras do PAC em três favelas do Rio de Janeiro

10/03/2008 00:00

RIO DE JANEIRO – Começaram nesta segunda-feira (10) as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em três das maiores favelas do Rio de Janeiro. Com investimentos inicialmente previstos em R$ 1,2 bilhão, as comunidades do Complexo do Alemão, de Manguinhos e da Rocinha serão, de acordo com o governo, parcialmente transformadas em canteiros de obras pelos próximos dois anos. Entre as melhorias previstas no PAC estão a construção de cerca de cinco mil novas habitações, oito escolas públicas e diversas unidades de atendimento médico, além de um teleférico, um elevador em plano inclinado e uma passarela desenhada por Oscar Niemeyer.

O governo espera que o início das obras traga um impacto positivo imediato à economia local. Quatro mil e seiscentos postos de trabalho oferecidos pelo PAC foram preenchidos pelos próprios moradores, e parte desse contingente já começou a trabalhar. A grande procura por um posto no PAC, no entanto, mostrou que a necessidade de inclusão da população das três comunidades é bem maior, já que 16.462 pessoas se inscreveram em busca de trabalho, gerando uma relação candidato/vaga de quase quatro para um.

As obras do PAC nas favelas do Rio foram inauguradas oficialmente na sexta-feira (7), em cerimônia que contou com as presenças do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governador Sérgio Cabral Filho, além dos ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Márcio Fortes (Cidades), entre outras autoridades. Lula fez questão de visitar as três comunidades, e discursou em cada uma delas para uma platéia formada por moradores.

Na Rocinha, o presidente prometeu que as obras estarão concluídas no prazo previsto: “Essa é uma obra que eu faço questão, antes de deixar a Presidência, de vir aqui inaugurar”, disse. Em Manguinhos, Lula falou sobre a construção de novas moradias: “Se a gente permite que as pessoas morem apinhadas em barracos de dois ou três metros quadrados e que durmam, cozinhem e façam suas necessidades fisiológicas no mesmo quarto, as pessoas vão deixando de ser racionais”, disse.

No Complexo do Alemão, Lula aproveitou para “apresentar” a ministra Dilma Rousseff aos moradores: “A Dilma é uma espécie de mãe do PAC, é ela que cuida, é ela que acompanha, é ela que vai cobrar, junto com o Márcio Fortes, se as obras estão andando ou não estão andando”, disse. Na Rocinha, o presidente voltou a citar Dilma, que é apontada por muitos como possível candidata à sua sucessão pelo PT: “A Dilma é a responsável por toda a organização, pela determinação das prioridades e pelo controle nacional das obras do PAC”, disse.

Uma vez iniciadas, as obras do PAC no Complexo do Alemão, em Manguinhos e na Rocinha terão agora que enfrentar um primeiro obstáculo, que é garantir segurança aos trabalhadores, já que as três comunidades são dominadas pelo tráfico de drogas. Um aperitivo do que pode vir por aí aconteceu na manhã desta segunda-feira (10) na Rocinha, quando, ao mesmo tempo em que alguns moradores recebiam instruções em seu primeiro dia de trabalho nas obras, traficantes e policiais militares protagonizaram intensa troca de tiros.

Medo do confronto

Durante o confronto ocorrido no alto da favela - na localidade conhecida como Noventa e Nove -, o sargento João Luiz Nunes Rafero, de 41 anos, foi atingido por um tiro de fuzil e morreu. A casa de um morador, atingida por uma granada atirada por traficantes, pegou fogo, mas ninguém ficou ferido. O primeiro dia do PAC na Rocinha também não impediu que o principal ponto de vendas de drogas na favela, na localidade conhecida como Via Ápia, funcionasse normalmente.

O medo de um confronto entre traficantes e os policiais que estiverem protegendo as obras do PAC é grande entre os moradores das três comunidades. Para evitar a expansão do clima de insegurança decorrente desse medo, a Secretaria Estadual de Segurança Pública anunciou que os policiais escalados para proteger as obras trabalharão dentro das comunidades com armas não-letais, como balas de borracha, granadas de luz e som e sprays de pimenta, entre outras.

O pedido de verba para a aquisição desses equipamentos já foi encaminhado pelo governo estadual à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), mas as obras do PAC começaram sem que nada tenha sido ainda comprado. A liberação da verba pela Senasp não tem data para acontecer, já que depende da aprovação do orçamento do governo federal pelo Congresso Nacional. Enquanto isso não acontece, os policiais trabalharão com armas letais mesmo, o que aumenta o risco de confronto com os traficantes.

O secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, anunciou que a Polícia Civil fará um “cinturão para o PAC”, que consiste na unificação do trabalho de doze delegacias próximas às três comunidades onde se realizarão as obras. O objetivo é acompanhar todas as ocorrências registradas nas comunidades e vigiar de perto os passos _ e possíveis deslocamentos _ dos traficantes. A Força Nacional de Segurança (FNS), por sua vez, anunciou que pretende dobrar seu efetivo no Rio (atualmente com 650 homens) durante as obras do PAC.

Confira as principais obras do PAC nas três comunidades

Complexo do Alemão (Zona Norte, 95 mil moradores, investimento de R$ 601 milhões):

- Teleférico ligando a base e o alto da favela, com capacidade para transportar 30 mil pessoas por dia;
- Construção de três mil unidades habitacionais e reforma de outras 5.600 casas;
- Construção de um centro de atendimento médico, três postos de saúde, duas escolas de ensino médio e uma de ensino técnico, duas creches, uma biblioteca e um posto policial.

Manguinhos (Zona Norte, 45 mil moradores, investimento de R$ 358,7 milhões):

- Elevação, numa área de dois quilômetros, da linha férrea que corta a favela;
- Construção de doze quilômetros de rede de esgoto, cinco de pavimentação e doze de drenagem;
- Criação do “Parque Metropolitano”, que terá área equivalente ao Parque do Flamengo;
- Construção de um centro de atendimento médico, dois postos de saúde, um complexo esportivo, duas escolas de ensino médio e uma de ensino técnico e uma biblioteca.

Rocinha (Zona Sul, 120 mil moradores, investimento de R$ 180,2 milhões):
- Construção de um complexo esportivo com piscina olímpica, quadras de esporte e uma passarela desenhada por Oscar Niemeyer;
- Construção de um elevador em plano inclinado ligando as partes baixa e alta da favela;
- Construção de um centro pré-hospitalar, dois postos de saúde e duas creches;
- Construção de cinco quilômetros de pavimentação, cinco de drenagem e três de rede de esgoto.

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