Política

Comissão de Ética ainda não tem data para ouvir Delúbio

08/08/2005 00:00

O Diretório Nacional do PT aprovou, sábado (6), o pedido de suspensão da filiação partidária do ex-tesoureiro Delúbio Soares por tempo indeterminado. A proposta, encaminhada ao Diretório pelo próprio Delúbio, teve 46 votos, vencendo a tese da expulsão sumária (sem direito à defesa na Comissão de Ética), que obteve sete votos. Três integrantes do Diretório abstiveram-se na votação. Na carta enviada à direção do partido, o ex-tesoureiro solicitou a suspensão de sua filiação “até que o processo disciplinar seja concluído e o Diretório Nacional do PT delibere sobre minha situação”.

E o processo disciplinar anda a passos lentos. Delúbio deveria depor, neste domingo, na Comissão de Ética do partido. No entanto, a saída de Danilo de Camargo da coordenação da Comissão de Ética acabou servindo como justificativa para adiar o encontro. A Comissão de Ética se reunirá na terça-feira, em Brasília, para escolher um novo coordenador.
Somente a partir dessa definição é que será marcada uma data para o depoimento de Delúbio, que tem direito a convidar oito testemunhas em sua defesa.

A reunião do Diretório Nacional também aprovou uma resolução “em defesa do PT, das conquistas do governo, da verdade e da democracia”. O documento reconhece que o partido “passa por um dos momentos mais delicados de sua história, afetado por uma crise que emergiu de dentro de sua própria estrutura”. E acrescenta: “após uma fase em que havia dúvidas sobre a natureza das denúncias, a direção nacional do PT acolheu e apoiou todas as investigações e reiterou a defesa da punição exemplar dos culpados”. “Além disso, tomou uma série de decisões para restabelecer as responsabilidades internas”, diz ainda o texto. O atual momento político é caracterizado como “um período de reorientação”, do qual dependerá o futuro do partido.

Proibição de showmícios

Além de defender uma ampla reforma política e eleitoral, a resolução também propõe mudanças para as próximas campanhas eleitorais do partido. “É preciso reduzir os custos das campanhas, mitigar a influência dos marqueteiros, proibir showmícios e brindes de campanha e trazer a política para o debate de idéias e propostas”. Quanto à reforma política, defende “a fidelidade partidária rigorosa e o financiamento público de campanha, com penas rigorosas para quem buscar dinheiro fora dele”.

No que diz respeito às investigações internas, o texto não traz maiores novidades, reafirmando a defesa de uma “apuração rigorosa e as punições, inclusive no âmbito partidário, daqueles que colocaram em risco o patrimônio acumulado pelo PT e pela esquerda brasileira”. Por outro lado, afirma que o partido “não aceita, e denuncia, as estratégias oportunistas da direita” que quer usar esse processo para abreviar o mandato do presidente Lula.


A política econômica foi objeto de uma crítica mediada, particularmente a proposta de uma nova elevação do superávit primário. “O PT rejeita, ademais, as teses de blindagem da economia, pela via do aumento do superávit primário, o que geraria maiores restrições orçamentárias. O que protege a economia são bons fundamentos e crescimento econômico”. Além disso, o documento defende a aceleração da execução orçamentária do governo federal precisa para atender as demandas sociais de programas como o Bolsa Família e o ProUni. E sustenta a necessidade de uma transição para um “modelo de desenvolvimento com estabilidade e altas taxas de crescimento, distribuição de renda e aceleração na criação de empregos, com fortes investimentos públicos para dar suporte a um processo de inclusão e recoesão social do país”. “O Brasil está forte para liberar-se das amarras que a ortodoxia tem imposto aos países endividados”, conclui.

Esquerda vê blindagem em torno de Delúbio

O resultado da reunião do Diretório desagradou à esquerda partidária, que suspeita do andameno de uma operação de blindagem em torno do nome do ex-tesoureiro do partido. “Delúbio sabe muita coisa. Ele não faria operações milionárias de moto próprio e por isso tem que ter blindagem, proteção. O partido não quer ser melindrado e nos deixa reféns, numa situação dramática”, declarou o deputado federal Chico Alencar (RJ) ao jornal O Estado de São Paulo.

Na mesma direção, o deputado Mauro Passos (SC) afirmou: “existe um receio de que Delúbio conte o que sabe, só pode ser isso. Delúbio é uma pessoa acuada, sujeita a cometer impropérios. Tornou-se perigoso do ponto de vista de que pode liquidar figuras do nosso partido e do nosso governo. Imagino o esforço para que não abra o verbo”. Segundo a avaliação dos representantes da esquerda partidária, essa operação de blindagem estaria sendo coordenada pelo deputado José Dirceu.


Além de tentar afastar Delúbio do olho do furacão das investigações internas, essa operação teria como objetivo também impedir a aprovação de uma resolução que impedisse aqueles deputados petistas que vierem a renunciar a seus mandatos a concorrer novamente em 2006 pela legenda do PT. Pelo menos na reunião do Diretório essa intenção acabou se confirmando. Na última semana, Tarso Genro havia falado publicamente neste sentido. Mas, na reunião deste final de semana, o assunto permaneceu congelado.

A lógica dessa operação foi explicitada pela fala de um dos nomes mais próximos do “núcleo duro” do chamado campo majoritário. Segundo o deputado Professor Luizinho (SP), “transformar a luta política interna em tribunal de execução é uma violência com a história do PT”. Ao dizer que o deputado José Dirceu e o ex-presidente José Genoino estariam sendo “execrados publicamente sem qualquer comprovação objetiva”, o Professor Luizinho declarou: “o que existem são denúncias e boatos, mas os processos estão em andamento”.

 


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