Política

Coronavírus: um raio em céu azul?

 

19/03/2020 16:15

Uma funcionária passa por um cliente próximo a prateleiras vazias em uma loja da Sainsbury em Harpenden, no Reino Unido, durante a epidemia do novo coronavírus (COVID-19) (Peter Cziborra/Reuters)

Créditos da foto: Uma funcionária passa por um cliente próximo a prateleiras vazias em uma loja da Sainsbury em Harpenden, no Reino Unido, durante a epidemia do novo coronavírus (COVID-19) (Peter Cziborra/Reuters)

 
Numa visão puramente economicista, alguns decretaram o fim da globalização, ignorando sua importante dimensão social, ambiental e cultural. A pandemia, passando por cima das fronteiras nacionais, vem agora mostrar, mais uma vez, que vivemos num mundo globalizado.

A crise provocada pela doença COVID-19 – abreviação de Corona Virus Disease 2019 - revela a extrema fragilidade da globalização neoliberal. Um colapso financeiro é provável. A crise atual vai jogar o mundo numa recessão e contribuir para mostrar o caráter perverso do capitalismo financeiro globalizado.

O crescimento global será sensivelmente afetado. A começar pelo crescimento chinês que está caindo. Alguns já evocam uma recessão futura na China (Le Monde, 4/3/2020). O crescimento da economia chinesa entre 1983 e 2013 foi de 10,2% por ano, em média, mas uma redução ocorreu nos últimos dez anos, com "apenas" 8,1% em média entre 2008 e 2018, 6,6% em 2018 e 6,1% em 2019.

O perigo da recessão global está agora ameaçando todos os países, industrializados ou não. No mundo atual, o capitalismo financeiro faz a lei que busca fortalecer o mercado e enfraquecer o Estado, as multinacionais dominam a economia nacional, a desregulamentação do mercado se tornou a regra. Tudo isso apesar de os recursos naturais do planeta estarem se esgotando e ameaçando a sobrevivência da humanidade.

Na atual crise, as emissões globais de gases de efeito estufa e todas as outras poluições caem acentuadamente sob o efeito da queda acentuada na produção global. Nos EUA e na China, por exemplo, já é visível a diminuição da poluição atmosférica. Essa queda pode durar alguns meses e se recuperar ou produzir um colapso financeiro. Isso causaria ainda mais exclusão, desemprego e angústia que superariam os eventuais benefícios ecológicos, pois uma pandemia global afetaria fortemente as populações mais pobres. Assim, dizer que o coronavirus é revolucionário, como afirmaram alguns, é uma ideia infeliz, pois a desigualdade social vai provavelmente aumentar. No Brasil, o Governo anunciou que vai autorizar as empresas a cortarem salário pela metade!

Um coronavírus teria um impacto econômico mais limitado em um mundo onde as finanças estivessem sob controle público, onde predominasse o bem comum, e não o interesse particular, onde a maioria das produções essenciais (incluindo energia) fosse realocada, onde a sobriedade material e energética suplantasse o consumismo, e onde o domínio econômico e político das multinacionais fosse controlado por uma política de sustentabilidade socioambiental.

No contexto de globalização financeira neoliberal, o coronavírus caiu como um raio em céu azul, para lembrar a famosa frase de Marx em O 18 Brumário de Luis Bonaparte. Assim, a crise atual pode revelar as fraquezas extremas da globalização neoliberal e contribuir para sua condenação. A partir de agora, os chamados liberais, se forem honestos, vão admitir a importância do Estado. O mercado não resolve os problemas trazidos pela pandemia. A iniciativa privada vai depender das políticas públicas. As empresas não propõem nenhuma medida para combater os danos produzidos pela COVID-19. Estão acostumadas com um capitalismo que privatiza os lucros e socializa os prejuízos.

A base social irracional do bolsonarismo, principalmente os evangélicos neopentecostais e católicos de extrema direita, se forem honestos, terão de reconhecer a importância da ciência e da tecnologia. Se caírem doentes, não vão recorrer ao fundamentalismo religioso para afastar esse vírus “trazidos pelo demônio”, como afirmam diversos pastores. E os que apoiaram o bolsonarismo por interesse, como o mercado e os militares, terão de rever seu apoio a um presidente que, pessoalmente, é um cafajeste repugnante e, politicamente, um destruidor das normas democráticas visando à implantação de uma ditadura.

A pandemia provocada pelo COVID-19 tem um aspecto didático. Descortinou a fragilidade da globalização capitalista com dominância financeira, que desregula o mercado e reduz ao máximo o papel do Estado. No Brasil, caso único no mundo, o Estado está proibido de investir. A lei de teto dos gastos cortou recursos da educação, saúde, pesquisa científica, cultura, meio ambiente etc. O Brasil é talvez o único país que declarou guerra a seus cientistas, professores e artistas. Como o setor privado não investe – por várias razões, inclusive por falta de demanda face aos cortes do Governo no poder aquisitivo da população – estávamos caindo cada vez mais em recessão que a crise provocada pelo coronavirus pode agora transformar em depressão econômica.

Isso se agrava ainda mais num país como o Brasil que assassina florestas, destrói o meio ambiente, em nome de uma ideologia predatória de crescimento. Enquanto continuarmos devastando a Amazônia e os locais onde a vida selvagem se reproduz, os seres humanos podem ser gravemente contaminados. Essa possível origem da pandemia está ganhando cada vez mais adeptos, apesar de a Organização Mundial de Saúde ter afirmado que a origem do vírus ainda não está determinada.

A crise atual provocada pelo coronavírus não coloca em xeque apenas o capitalismo, modo de produção dominante no mundo. Afinal, a produção econômica do chamado socialismo realmente existente foi muito poluidora. A tal ponto que os EUA só concordaram em 1988 com a realização da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento porque a situação ambiental dos países então socialistas era muito pior. Com a queda do Muro de Berlim em 1989, os EUA tentaram pisar no freio, mas não conseguiram impedir a realização da Conferência Rio-92.

Diferentemente da última crise global em 2008, que tinha mais um caráter financeiro, o impacto do coronavirus aponta para uma crise de civilização, não apenas uma crise econômica. Mostra a necessidade de um novo modo de vida, não apenas de produção. Um modo de vida baseado na cooperação e solidariedade, não mais no individualismo e no mercado. Um desenvolvimento baseado na sustentabilidade socioambiental e não na visão atual de um crescimento puramente quantitativo que não leva em conta o bem estar da maioria.

A doença COVID-19, mais cedo ou mais tarde, será controlada, deixando em sua esteira a perda de vidas humanas e uma assustadora crise econômica. Mas um vírus muito mais perigoso poderá continuar a ceifar vidas e produzir miséria: o vírus do neoliberalismo. Seu enfraquecimento já visível é um dos grandes impactos da atual crise do coronavirus. A vacina contra esse devastador vírus neoliberal é avançar e radicalizar a luta democrática contra o neofascismo instalado no Poder. Os panelaços em todo o Brasil de 18/3 último mostraram que já está mais do que na hora de formalizar o pedido de impeachment.



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