Política

Covid-19: ''Darwin nos assegura: o mutante que melhor se adapta será necessariamente o vencedor''

A teoria da seleção natural não permite fazer previsões, lembra o exobiólogo Louis d'Hendecourt, mas ensina que há apenas uma resposta para a pandemia: evitar o máximo possível que o vírus circule. Em outras palavras, confinar estritamente e vacinar simultaneamente

29/03/2021 10:35

Centro de vacinação em Estrasburgo, em 18 de março de 2021 (Jean-François Badias/AP)

Créditos da foto: Centro de vacinação em Estrasburgo, em 18 de março de 2021 (Jean-François Badias/AP)

 
A experiência que vivemos há um ano com relação a Covid-19 é uma ilustração perfeita e implacável, uma quase lição de coisas, do que se sabe sobre a teoria de Darwin, cujas bases e suas implicações universais são muitas vezes esquecidas.

Se a evolução de uma espécie animal como a nossa pode parecer lenta e Darwin, equivocadamente, "irrelevante" para muitos, um vírus se replica em alta velocidade e destaca o fenômeno da seleção natural darwiniana à escala de apenas algumas semanas.

Qualquer replicação viral produz inevitavelmente erros de cópia que denominamos mutações. Perfeitamente aleatórias, estritamente imprevisíveis e, acima de tudo, não determinísticas, elas produzirão mutantes que cautelosamente chamamos de variantes, sem dúvida para não assustar muito o público com o uso de uma palavra muito pejorativa na cultura popular, mas que não tem, na verdade, nenhum personagem em particular. Quase todos esses mutantes de fato não terão futuro, incapazes de se adaptar melhor do que o original a um determinado ambiente e, portanto, de serem selecionados por ele.

Se uma vantagem seletiva é conferida a um determinado mutante, é simplesmente porque ele se adapta melhor do que o vírus inicial a este ambiente que não é outro senão os humanos. Desde o aparecimento oficial do SARS-CoV-2, cerca de dezesseis meses atrás, mais de 16.000 mutações foram identificadas, mas apenas algumas unidades de variantes são mencionadas - inglesas, sul-africanas, brasileiras, japonesas, californianas, nova-iorquinas ... - cuja principal característica parece ser sua maior contagiosidade, que na verdade é a razão darwiniana de serem efetivamente detectadas porque emergentes.

Mas então, ouvimos na mídia: "E essa variante, ela vai ganhar?" Darwin está aí para nos assegurar: o mutante se adapta, e aquele que se adaptar melhor e mais rápido será obrigatoriamente o vencedor e fará necessariamente com que o vírus original desapareça. Por que é assim? Simplesmente porque se reproduz mais rápido, pois é mais ... contagioso! Mas então, indaga o político - cujos críticos não entendiam a imprevisibilidade intrínseca do fenômeno -, "como vamos lidar com isso?"

O beabá do método científico

A verdade científica nos obriga a dizer que não há uma resposta definitiva a essa questão existencial. Essas mutações aleatórias só podem ser gerenciadas pela compreensão da própria essência da teoria de Darwin, seu não-determinismo absoluto, mas também a consequência lógica que se segue: o pior nunca é certo, mesmo que seja necessário preparar-se para ele. A resposta ao problema é uma só: evitar o máximo possível que o vírus circule e, portanto, se duplique e produza novas variantes, necessariamente ligadas a sua replicação, ela própria promovida por sua circulação!

Em outras palavras: confinar estritamente e, ao mesmo tempo, vacinar incansavelmente, enquanto as vacinas ainda são eficazes sobre as variantes atuais, até porque as vacinas - ou qualquer tratamento - aumentam inevitavelmente a pressão de seleção. O vírus deve, portanto, ser erradicado. Por que então? É simples: proteger pessoas em risco é ótimo; prevenir o congestionamento no sistema hospitalar é louvável.

Mas esses dois motivos são apenas a ponta do iceberg darwiniano, escondendo uma realidade que é, por definição, totalmente imprevisível. Se uma mutação causa um vírus mais letal e contagioso na população em geral - jovens e crianças inclusive -, não estaremos falando mais de 3 milhões de mortes em um ano, mas de centenas de milhões em seis meses. Essa previsão apocalíptica é apenas uma das inúmeras possibilidades que Darwin nos oferece, mas de forma alguma nos permite estimar qualquer probabilidade.

Mas, se não explicamos simplesmente ao Sr. e à Sra. Todo-o-mundo as bases e implicações de uma teoria científica com mais de cem anos, comprovada por inúmeras observações, deduções e raciocínios - em suma pelo beabá do método científico -, deixamos o caminho aberto ao obscurantismo e à desconfiança dos cidadãos.

Ao explicar os fundamentos do darwinismo, proporcionando à população as chaves do conhecimento sobre o mecanismo implacável de uma lei fundamental da natureza, restituíamos à democracia suas letras de nobreza, aquelas da educação e da transparência quanto ao real propósito da luta contra uma terrível pandemia, desafio lançado ao conjunto da população mundial e que nos torna todos solidários.

Louis d'Hendecourt é exobiólogo, Diretor de Pesquisa Emérito do CNRS, Aix-Marseille Université. Trabalha com o problema da emergência molecular da vida em ambiente planetário e em contexto darwiniano.

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Aluisio Schumacher

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