Política

Covid-19, o ''solucionismo'' não é a solução

 

09/04/2020 16:14

Campanha da Organização Mundial da Saúde para gestos de barreira ... Google way, disponível em seus vários sites - Google, Maps, YouTube

Créditos da foto: Campanha da Organização Mundial da Saúde para gestos de barreira ... Google way, disponível em seus vários sites - Google, Maps, YouTube

 
A epidemia de Covid-19 sobrevém em um contexto histórico singular. Por um lado, depois de acreditar por trinta anos que não havia outra solução para o alinhamento do capitalismo globalizado e da democracia liberal, a humanidade despertava gradualmente do coma que tinha se imposto. A ideia de que a situação poderia melhorar, mas também se deteriorar repentinamente, não chocava mais ninguém.

Por outro lado, esses últimos quatro anos, marcados pelo Brexit, a eleição de Donald Trump, a ascensão seguida da queda de Jeremy Corbyn - um destino que Bernie Sanders poderá compartilhar em breve [a desistência de Sanders foi posterior à publicação do texto] - mostraram a considerável resiliência do capitalismo mundial. Uma simples mudança de ideologia, do globalismo ao nativismo ou do neoliberalismo à social-democracia, não foi suficiente para transformar as relações sociais e econômicas. Diante da perspectiva de uma refundação completa do capitalismo, as ideologias que antes pareciam tão radicais se mostraram impotentes e banais.

O que pensar da atual emergência sanitária? Aqueles que depositam sua esperança no potencial transformador e emancipatório da crise da Covid-19 correm o risco de rápida desilusão. Não que nossas expectativas sejam excessivas, as intervenções propostas, como a renda básica universal e o Green New Deal, são razoáveis e absolutamente necessárias. No entanto, subestimamos a resiliência do sistema atual, enquanto superestimamos a capacidade das ideias de mudar o mundo na ausência de uma infraestrutura sólida e robusta, no plano tecnológico e político, que permita sua implementação.

O estado solucionista

Se o dogma do "neoliberalismo" é frequentemente considerado a fonte de todos os males, ele não explica tudo. Há quase uma década, eu designo outro culpado, que, de todo modo, é intelectualmente relacionado a ele: o "solucionismo".

Essa ideologia, pretensamente pós-ideológica, recomenda um conjunto de medidas ad hoc, ditas "pragmáticas", para manter em marcha o capitalismo globalizado, enquanto resolve os inúmeros problemas e contradições que ele gera. Com, espantosamente, suculentos lucros como prêmio ao final.

Os efeitos mais perniciosos do solucionismo não estão em nossas start-ups, mas em nossos governos. O estado solucionista, uma versão humanizada, mas também mais sofisticada, do estado de vigilância que o precedeu, tem um duplo mandato. Ele deve garantir que os atores da inovação (desenvolvedores, hackers e empreendedores), por mais difíceis que sejam de se amestrar, não usem suas habilidades e recursos existentes para experimentar outras formas de organização social. Não é por acaso que, para se beneficiar totalmente da inteligência artificial e da nuvem (1), é necessário configurar uma start-up dotada de finança confortável. Pelo contrário, é o resultado de esforços políticos deliberados.

Consequência: os projetos mais subversivos que poderiam produzir instituições de coordenação social não comerciais morrem. Mortos pela raiz. Isso explica por que, em mais de vinte anos, não vimos outras entidades na linhagem da Wikipedia. Numa época em que o mundo é totalmente digitalizado por multinacionais famintas por dados, o Estado deseja obter sua parte no saque. Além da vigilância generalizada, a digitalização conduzida pelas empresas permitiu que os governos realizassem várias intervenções solucionistas, de sua lavra, para beneficiar os mercados.

As técnicas de nudge (2) constituem um exemplo perfeito da prática do solucionismo: graças a elas, podemos manter as causas de um problema inalteradas enquanto focamos na tarefa mais acessível de "ajustar" o comportamento individual à realidade inalterável, por mais cruel que seja.

Todos solucionistas! A Covid-19 está para o estado solucionista como os ataques de 11 de setembro estão para o estado de vigilância. No entanto, as ameaças que o solucionismo representa para a cultura política democrática são muito mais sutis, para não dizer insidiosas.

Muito se falou da estratégia autoritária adotada pela China, Coreia do Sul e Cingapura diante da crise do Covid-19. Nesses três países, foi tomada a decisão, em alto nível, de implantar aplicativos, drones e sensores para prescrever o que seus cidadãos podem ou não fazer. Não surpreendentemente, os defensores declarados do capitalismo democrático no Ocidente foram rápidos em fustigá-los.

A alternativa, ditada nas colunas do Financial Times por Yuval Noah Harari, o bardo mais eloquente da doxa da elites, parecia sair diretamente de um manual de propaganda do Vale do Silício: capacitemos os cidadãos através do conhecimento!

Solucionistas humanitários querem que as pessoas lavem as mãos porque sabem que é para o bem delas e da sociedade, em vez de constrangê-las à força, como fez o governo chinês ao ameaçar cortar seu aquecimento e eletricidade. Tais discursos só podem levar à “appli-ficação” da política, mesmo que os aplicativos assim criadas possam compensar por seu interesse humanitário.

Em suma, o chamado de Harari para capacitar os cidadãos por meio de intervenções cognitivas e comportamentais difere pouco dos passos preconizados por Cass Sunstein e Richard Thaler, entre outros defensores do nudge. Assim, a gestão política da maior emergência sanitária dos últimos cem anos é reduzida a discussões "pragmáticas" sobre a forma dos dispensadores de sabão e pias, na veia das reflexões de Sunstein e Thaler sobre a forma dos mictórios em banheiros do aeroporto.

Na imaginação solucionista, não há grandes coisas a a fazer, pois todos os órgãos e instituições intermediários, como a história, quase desapareceram do cenário político. Para pessoas como Harari e Sunstein, o mundo é essencialmente composto por cidadãos-consumidores, empresas e governos. Esquecem sindicatos, associações, movimentos sociais e qualquer instituição coletiva ligada por sentimentos de solidariedade.

O mantra do "empoderamento através do conhecimento", que é a base do liberalismo clássico, não pode significar mais do que uma coisa hoje: mais solucionismo. Portanto, deve-se esperar que os governos invistam bilhões no que chamei, no ano passado, de "tecnologia de sobrevivência", um conjunto de tecnologias digitais que permitirá a continuidade do espetáculo capitalista, enquanto alivia alguns de seus maiores problemas. O estado solucionista verá, assim, sua legitimidade reforçada ao reivindicar sua recusa pela "via chinesa".

Por uma política "pós-solucionista"

O que precisamos para sair dessa crise não é apenas uma política "pós-neoliberal", mas, acima de tudo, uma política "pós-solucionista". Antes de tudo, poderíamos acabar com a oposição binária artificial entre a start-up e a economia planejada centralizada, que define nossa maneira de perceber hoje a inovação e a cooperação social.

A questão que está no cerne do novo debate político não deve ser "qual força, da social-democracia ou do neoliberalismo, é mais capaz de controlar as forças da concorrência no mercado?" Mas antes “que força será capaz de tirar proveito das imensas oportunidades que as tecnologias digitais trazem em termos de novas formas de coordenação social e solidariedade?"

O "solucionismo", em grande parte, nada mais é do que a aplicação do famoso slogan de Margaret Thatcher: "Não há alternativa" ("não há outra solução"). Nos últimos quarenta anos, pensadores de esquerda expuseram a crueldade e a impraticabilidade de tal lógica. Mas a incoerência não impede a conquista do poder político. Portanto, o mundo tecnológico em que vivemos foi concebido para que nenhuma fuga à ordem mundial, dominada pelos mercados, possa jamais se institucionalizar. Os próprios contornos do nosso debate excluem essa possibilidade.

As dificuldades que estamos enfrentando atualmente em relação à resposta tecnológica a ser adotada em face da Covid-19 ilustram bem o quanto precisamos de uma orientação política pós-solucionista. Em um país como a Itália - estou entrando na minha terceira semana de confinamento em Roma - as soluções propostas carecem, cruelmente, de ambição. O debate gira em torno dos compromissos entre a vida privada e a saúde pública e a necessidade de promover a inovação por meio de start-ups de “tecnologia de sobrevivência” que capacitariam os cidadãos, de acordo com a orientação proposta por Harari (leia “A rebelião ou sobrevivência ”).

Temos o direito de nos perguntar para onde foram as outras escolhas. Por que sacrificar a privacidade em nome da saúde pública? Seria porque as atuais infraestruturas digitais são construídas por empresas tecnológicas e operadoras de telecomunicações para satisfazer seu próprio modelo de negócios? Elas são feitas para nos identificar e nos direcionar como consumidores individuais; pouco esforço foi feito na criação de infraestruturas que forneceriam informações anônimas, em escala macroscópica, sobre o comportamento coletivo. Por quê? Bem, porque nenhum projeto político havia previsto a necessidade de tais análises, uma vez que o planejamento, entre outras formas de coordenação social não comercial, não estava entre as ferramentas neoliberais. Nem mesmo os social-democratas as exigiram.

Infelizmente, a infraestrutura, tal qual existem, é a do consumo individual, não da assistência e solidariedade mútuas. Como qualquer plataforma digital, eles podem ser usados para vários propósitos, como ativismo, mobilização e colaboração, mas por esses usos se paga, costumeiramente, um alto preço, mesmo que não se veja.

Eis os fundamentos bem frágeis para uma ordem social que não seja nem neoliberal, nem solucionista, e que deverá, necessariamente, ser preenchida por outros atores além de consumidores, start-ups e empreendedores. Por mais tentador que seja construir essa nova ordem com base nas bases digitais oferecidas pela Amazon, Facebook ou sua operadora móvel nacional, nada de bom resultará disso: na melhor das hipóteses, um novo playground para os solucionistas, na pior das hipóteses, uma sociedade totalitária invasiva fundada em vigilância e repressão.

Muitas vozes emanadas da esquerda exortam as democracias a se mostrarem capazes de resolver essa crise de modo melhor do que as autocracias. Um apelo que se arrisca a soar vazio, pois as democracias atuais dependem tanto do exercício antidemocrático do poder privado que só têm democracia no nome. Ao celebrar "a-democracia", celebramos involuntariamente o contingente invisível das start-ups à beira da falência e dos tecnocratas, não tão inofensivos assim, que compõem o Estado solucionista.

Se essa democracia morna sobreviver à Covid-19, ela deveria priorizar se engajar em um rumo pós-solucionista, a fim de se libertar totalmente do poder das empresas privadas. Caso contrário, corremos o risco de reproduzir o caminho autoritário, mas com uma elite ainda mais hipócrita em termos de "valores democráticos", "mecanismos reguladores" e "direitos humanos".

(1) Do inglês "cloud computing", computação em nuvem.

(2) Em português, "cutucão". Aplicado à economia, significa uma pequena intervenção em nosso ambiente que altera os mecanismos de escolha. Leia Laura Raim, "Pior que a outra, a nova economia”, Le Monde diplomatique, julho de 2013.

*Publicado originalmente em 'Le Monde Diplomatique' | Tradução de César Locatelli

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