Política

Crianças petistas resgatam a estética da esperança

Página no Instagram e no Twitter traz imagens de ''crianças petistas'' nos anos 90 e 2000 e resgata a ''estética da esperança''

11/10/2021 13:16

(Colagem/Reprodução)

Créditos da foto: (Colagem/Reprodução)

 
Sem crianças não há socialismo. Um projeto político de vanguarda não pode deixar de fora os pequenos pensadores que são, também, agentes políticos em seus nichos. Foi pensando nisso, que três amigas criaram a página “Crianças Petistas”, espaço que resgata a memória de crianças dos anos 90 e 2000 que participavam de campanhas políticas com os pais.

A ideia inicial era postar só conteúdo de amigos e conhecidos, uma coisa pequena, para os amigos próximos. E de repente a página tomou outra proporção, e virou um espaço catalizador. "Quando a gente começou a fazer, a ideia era postar umas duas vezes por semana. Eu acho que nos primeiros dez dias a gente já começou a receber muita foto. E agora temos post programado até maio do ano que vem”, conta Maria, uma das administradoras da página.

Cassio e Carol - SP

Muito rápido a página cresceu e saiu do círculo de amigos das três administradoras que hoje vivem entre São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. São os adultos que outrora foram “crianças petistas” que enviam e autorizam o uso de suas imagens de infância. Um dos critérios é não publicar fotos de crianças “atuais”. “A gente tem muito a preocupação com a proteção da imagem também e com o processo de consciência política de cada um. Essas pessoas que enviam fotos foram crianças petistas e hoje são adultos que têm orgulho de ter tido essa trajetória”, explica Camille Bolson.

Lizi - RS

Essas crianças - que hoje são adultos - tem em comum o fato de terem crescido num Brasil que era o país do futuro, o país das possibilidades. Muitos estrearam na urna eletrônica votando no Lula, ou na Dilma. Mas ao chegar na vida adulta, este projeto foi interrompido por um golpe de Estado e neste momento de profunda crise, é fundamental se apegar à esperança de que é possível mudar de novo o rumo da história.

“Quando chegou nossa vez de viver esse Brasil do futuro, que estava posto, minimamente, aí teve o golpe. E todo mundo viu como era viver de novo na década de 90, só que sem a esperança. A página ajuda a resgatar um pouco deste sentimento. Se foi possível lá atrás construir isso coletivamente… E daí também tem essa discussão, todo mundo fazia política o tempo todo. É diferente de hoje que as pessoas tentam não tocar nesse assunto para não gerar conflitos”, defende Camille.

Rayssa - RS

Quem entra na página se perde em meio a tantas imagens bonitas de crianças com camisetões vermelhos, bandeiras do PT, camisetas do “PTzinho”, e o clássico bigodinho do Olívio Dutra da campanha de 1998 a governo do estado do Rio Grande do Sul. Essa campanha, aliás, é a que mais faz sucesso na página. Pelo visto, o famoso bigode foi o acessório mais cobiçado entre as crianças gaúchas no final dos anos 90. As fotos mostram como o período de campanha era algo festivo e que envolvia a família como um todo. Um ambiente de debate e disputa, mas sem a hostilidade e violência que existem hoje.

Para Gabrielle Paiva, cuidar da página acaba sendo um respiro em meio à falta de horizonte político que o Brasil de Bolsonaro nos impõe. "Nesse contexto político que a gente está vivendo, tem vezes que é a página que segura a gente. Ver aquelas histórias é uma coisa que nos faz muito bem".

Luana - PR

O que era pra ser só uma brincadeira entre amigas, cresceu e agora já conta até com a presença de “crianças ilustres”. O filho do ex-presidente Lula, e o deputado federal Zeca Dirceu, filho de José Dirceu, integram o hall de adultos que começaram cedo a trajetória política e se orgulham disso.

Camille conta que a partir das relações que nasceram através da página, elas encontraram todo um universo de herdeiros políticos - filhos de dirigentes do PT - que hoje não são ligados diretamente ao partido, mas atuam politicamente em suas áreas e estão dispostos a construir coletivamente um processo de mudança. “E aí tem uma galera do partido que abraçou a causa. A assessoria da Maria do Rosário, tem as contas verificadas que nos seguem, a família Tatto também tem sido super ativa, mandando imagens, dando uma força”.

Levi - CE

Maria é quem passa a maior parte do tempo recebendo as imagens e conversando com as pessoas. Segundo ela, hoje a página já caminha um pouco “com as próprias pernas” porque quando sofre algum ataque de bolsonarista - não são muitos, mas acontecem - os próprios seguidores se organizam e respondem, defendem. E também são eles que ajudam a buscar novas imagens. “Tem umas histórias muito parecidas. Eu lembro de pelo menos umas 3 crianças que foram enganadas pelos pais, era aniversário, e os pais saíam dizendo que iam comprar bolo e quando a criança via, estavam num comício do PT (conta rindo). É muito legal ouvir essas histórias porque traz um contexto de esperança, de um período em que a família toda era envolvida no processo político. Não era uma coisa que politica é algo que não se deve falar, como é hoje”.

"Eu cresci num contexto em que meu pai e minha mãe são petistas, então a gente sempre falou sobre política. Nunca meus pais disseram pra mim que esse não era um assunto para criança. Então ter contato com outras pessoas que tiveram isso na infância, é uma coisa que vai nos retroalimentando. E o legal é que são pessoas que tiveram infância nesse contexto e tem orgulho de terem sido crianças petistas”, conta Maria.

Assim como Maria, Camille também vem de uma família petista. Já Gabrielle é o contrário, apesar de ter tido muito contato com política na infância, não foi no campo da esquerda. Na adolescência, com os pôsteres do Che no quarto e aulas de história, foi que chegou a consciência política e a vontade de atuar coletivamente num partido.

Caetano - Acre

A estética da esperança

Com o volume de imagens que elas recebem, começaram a notar que em muitos casos as estampas das camisetas se repetiam. E aí veio a ideia de recriar essa estética de esperança dos anos 90. Neste mês de outubro, para o Dia das Crianças, elas lançaram uma camiseta de campanha do Lula nos anos 90 para sortear na página. E a partir daí, não param de surgir novas ideias e convites. “Nos sugeriram fazer um podcast para contar as histórias das fotos, nos convidaram para integrar um projeto de um livro”, aos pouquinhos, o projeto vai tomando novas proporções.

“Imagina que legal a gente sair na rua e ver as pessoas usando essas camisetas?! É algo que traz mesmo uma esperança, a gente pensa muito nisso”, afirma Gabrielle. Para Maria, o movimento em torno da página vem um pouco do momento de reclusão que estamos vivendo. “Nós ficamos dois anos sem ver ninguém, e agora tu vai num ato, as pessoas estão de máscara, tu não reconhece assim tão fácil. Então a página tem um pouco disso também, virou um lugar que é um encontro”.

As administradoras da página Camille, Maria e Gabrielle

Apesar do sucesso da página, o projeto ainda é só militância e paixão. Mas as três administradoras atuam profissionalmente em outras áreas. Camille é pesquisadora, comunicadora política e documentarista. Doutoranda em Tecnologia e Sociedade (UTFPR) pesquisa, desde 2013, o desenvolvimento tecnológico das cooperativas de catadoras de materiais recicláveis. Maria Galant é artista visual, atriz, e investigadora das potências da linguagem audiovisual para educação. Graduada em Artes Visuais - licenciatura pelo Instituto de Artes da UFRGS, desde de 2021. E Gabrielle Paiva é formada em Produção Multimídia pela Faculdades Opet em 2013 e Especialista em Cenografia pela Universidade Federal Tecnológica do Paraná em 2017. Freelancer desde 2015, atua hoje em projetos para Cinema e Publicidade.

Beatriz-DF

Com vistas para 2022, elas pensam em organizar um grupo no Telegram, para manter essas pessoas em contato porque acreditam que a política passa também pelo campo dos afetos e, mais que nunca, é necessário ampliar o diálogo. Segundo Camille, a página virou um ambiente que acolhe as pessoas que são envolvidas em política, mas não sabem muito bem o que fazer. "A gente pensa nisso como um próximo passo, até porque ano que vem tem campanha... então pensamos em talvez criar um grupo no telegram, ou algo assim, mas a ideia é ser um espaço de encontro dessas pessoas também”.

Leonardo - RS

Para enviar imagens e contar histórias de “crianças petistas”, basta entrar em contato com as administradoras através das próprias páginas no Instagram ou no Twitter. Mas vale lembrar que já têm posts programados até maio do ano que vem.

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