Política

Crivella come o pão que o diabo amassou na campanha do Rio

14/07/2004 00:00

Rio de Janeiro – Está aberta a temporada de caça ao pastor. Talvez pelo incômodo que causa aos adversários por aparecer em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura do Rio, ou talvez porque tenha tentado omitir fatos que acabaram voltando à tona no pior momento, o candidato do PL, senador Marcelo Crivella, apanha de todos os lados e vive um começo de campanha dos diabos. Completando uma seqüência negativa que incluiu uma intimação para depor na Polícia Federal por envolvimento em crime de evasão de divisas, uma acusação de declaração irregular de patrimônio a justiça eleitoral e a denúncia de problemas trabalhistas e sanitários surgidos em seu principal projeto social, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio recebeu segunda-feira (12) um pedido de impugnação da candidatura de Crivella.

O pedido de impugnação da candidatura do PL foi protocolado no TRE pelo nanico Partido Humanista da Solidariedade (PHS), que faz parte da frente que apóia o candidato do PMDB, Luiz Paulo Conde. A justificativa apresentada no pedido do PHS, entregue no tribunal pelo presidente do partido, Clemente Campos, é o fato de Crivella ter omitido sua participação acionária em duas emissoras de televisão na declaração de bens que entregou a Justiça Eleitoral. Outro pedido de impugnação semelhante deve ser encaminhado nos próximos dias ao TRE por algum dos partidos que compõem a frente de apoio ao candidato do PT, Jorge Bittar. Depois de acionado, o tribunal costuma levar cerca de dez dias para se pronunciar sobre o mérito do pedido.

O pecado do pastor foi ter omitido, na declaração de bens entregue por todos os candidatos ao TRE em junho, sua razoável participação acionária na TV Cabralia, de Itabuna (BA), e na TV Record, de Franca (SP). Ambas as emissoras fazem parte do pool de mídia comandado pelo bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus e tio de Crivella. Inquirido por adversários do candidato liberal, o Ministério das Comunicações confirmou que o senador aparece nos documentos como diretor da TV Cabralia e sócio da TV Record. Ao saber da confirmação, o presidente do TRE, desembargador Marcus Faver, confirmou que a omissão de informações sobre o patrimônio pode levar a impugnação da candidatura ou a cassação do candidato, se for eleito.

Aparentando a habitual tranqüilidade, Crivella nega que tenha participação nas duas emissoras. Segundo ele, essas participações já foram vendidas "há muitos anos" e "somente a terrível burocracia do Ministério das Comunicações" pode explicar porque seu nome ainda consta como titular das empresas. O senador, no entanto, não declarou o dinheiro recebido na venda dessas participações acionárias, além de não ter sabido informar a imprensa quais foram os compradores. "A prova de que não faço parte dessas empresas há muitos anos é que nem me lembro para quem vendi minhas ações. Só sei que não foi para ninguém da Igreja Universal", afirmou.

A repercussão da descoberta, aliada a falta de memória do senador, colocaram Crivella numa saia justa que os adversários esperam ver traduzida em queda nas intenções de voto. O mal-estar junto aos eleitores se acentuou porque o candidato do PL declarou ao TRE um patrimônio de apenas R$ 21,8 mil, o menor entre os cinco principais concorrentes na disputa pela Prefeitura. Apesar do bombardeio, o candidato continua sua campanha de rua. Sobre a ação movida pelo PHS, afirma, por intermédio de sua assessoria de imprensa, que "confia no TRE e está seguro de que não existem motivos que fundamentem a impugnação" de sua candidatura.

O Kibutz saiu pela culatra
Outra propaganda negativa que Crivella ainda precisará exorcizar diz respeito ao principal projeto social mantido pelo senador: a Fazenda Nova Canaã, localizada no município de Irecê, em pleno sertão da Bahia. Fartamente mostrada na propaganda eleitoral que conduziu o pastor ao Senado nas eleições de 2002, a Nova Canaã é composta por um conjunto de casas, escolas e templos, e foi criada para funcionar nos mesmos moldes de produção desenvolvidos nos kibutzes israelenses. Lá, entre outras atividades, Crivella mantém o atendimento a 520 crianças de três a oito anos que, na fazenda, recebem auxílio médico e educacional.

O filme desse bom cartão de visitas, no entanto, acabou queimando depois que veio a público esta semana um relatório, elaborado pela Subdelegacia Regional do Trabalho de Feira de Santana (BA) em maio de 2003, em que são apontadas diversas irregularidades na Nova Canaã. As principais irregularidades são de ordem trabalhista e fizeram com que a fazenda recebesse multa de R$ 15 mil. Os fiscais relataram péssimas condições de trabalho, apontando falta de higiene, água potável, assistência médica, uniforme de trabalho e até mesmo mesas e cadeiras no refeitório para os trabalhadores.

No mesmo ano, foi a vez de inspetores sanitários da Secretaria Municipal de Saúde de Irecê baixarem na Nova Canaã, onde também apontaram diversas irregularidades. Desta vez, o relatório incluiu alimentos guardados sem condições de higiene, falta de tratamento na água da piscina, consumo de alimentos com o prazo de validade vencido e infestação de insetos na padaria e no restaurante da fazenda. Crivella reconhece os problemas, mas afirma que tudo "já vem sendo solucionado" desde que as inspeções foram realizadas. "Desenterram isso porque estamos vivendo um momento eleitoral", diz.

A realidade sugerida pelas inspeções realizadas na Nova Canaã foi mantida longe do conhecimento público, mas acabou vindo à tona no pior momento para Crivella. Resta agora ao pastor orar a Deus para que esse momento passe rápido, e para que as novidades negativas não signifiquem o fim do seu sonho de ser o adversário no segundo turno do prefeito Cesar Maia, candidato à reeleição pelo PFL. Só assim Crivella conseguirá alcançar a sua terra prometida: a Prefeitura do Rio.


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