Política

Crônica de uma década perdida anunciada

Muitos na esquerda ainda se agarram à esperança de que a crise do Covid-19 vai se traduzir no uso do poder estatal em benefício dos impotentes. Mas as autoridades nunca hesitaram em usar a intervenção estatal como preservação da oligarquia, e somente uma pandemia não vai mudar isso

02/06/2020 17:18

Para os oligarcas e funcionários da Big Tech, Big Pharma e outras megafirmas, que se deram bem com os homens fortes na autoridade, a globalização prosseguiu em ritmo acelerado (Sergii Kharchenko/NurPhoto via Getty Images)

Créditos da foto: Para os oligarcas e funcionários da Big Tech, Big Pharma e outras megafirmas, que se deram bem com os homens fortes na autoridade, a globalização prosseguiu em ritmo acelerado (Sergii Kharchenko/NurPhoto via Getty Images)

 
Para exorcizar meus piores medos sobre a próxima década, escolhi escrever uma desoladora crônica sobre ela. Se, em dezembro de 2030, alguns desenvolvimentos a invalidarem, espero que tais previsões sombrias tenham desempenhado um papel ao nos impulsionar para a ação apropriada.

Antes dos confinamentos induzidos pela pandemia, a política parecia um jogo. Partidos políticos se comportavam como times esportivos com dias bons ou ruins, marcando pontos que os impulsionavam em uma tabela de ligas que, no final da temporada, determinava quem formaria um governo e, então, quem realizaria quase nada.

Então, a pandemia da Covid-19 tirou a camada de indiferença que revelou a realidade política: algumas pessoas possuem sim o poder para dizer ao resto de nós o que fazer. A descrição da política de acordo com Lênin como “quem faz o quê para quem” pareceu mais adequada do que nunca.

Em junho de 2020, enquanto os confinamentos começam a flexibilizar, continuou o otimismo da esquerda de que a pandemia reavivaria o poder estatal em benefício dos impotentes, levando amigos a fantasiar sobre uma renascença dos comuns e uma definição ampla de bens públicos. Margaret Thatcher, eu vos lembro, deixou o estado britânico maior, mais poderoso e mais concentrado do que quando o encontrou. Um estado autoritário era necessário para apoiar mercados controlados por corporações e bancos. As autoridades nunca hesitaram em usar a intervenção estatal como preservação da oligarquia, e somente uma pandemia não vai mudar isso.

Como resultado da Covid-19, a ceifadora cruel quase reivindicou ambos primeiro-ministro britânico e o príncipe de Gales, e até a melhor estrela de Hollywood. Mas foram os mais pobres e marrons que a ceifadora de fato levou. Eram as escolhas mais fáceis.

Não é difícil entender por quê. A falta de empoderamento gera pobreza, que envelhece as pessoas mais rápido e, em última instância, as prepara para o abate. Na sombra dos preços, salários e juros em decaída, nunca foi provável que o espírito da solidariedade, que acariciou nossas almas durante os confinamentos, se traduziria no uso do poder estatal para fortalecer os fracos e vulneráveis.

Ao contrário, foram as mega empresas e os ultra-ricos que agradeceram o fato de o socialismo estar vivo e bem. Temendo que as massas, condenadas à arena selvagem dos mercados desenfreados em meio a um desastre de saúde pública, não poderiam mais comprar seus produtos, eles realocaram seus gastos para iates, mansões e ações. Graças ao dinheiro recém impresso que os bancos centrais injetaram neles por meio dos financiadores de sempre, os mercados de ações floresceram enquanto as economias colapsaram. Banqueiros de Wall Street aliviaram sua culpa, que vem se arrastando desde 2008, ao deixar os clientes de classe média lutarem pelas migalhas.

Planos para a transição verde, que os jovens ativistas colocaram na agenda antes de 2020, receberam somente um tapinha nas costas enquanto os governos se apertam embaixo de montanhas de dívidas. Poupanças preventivas de muitos reforçaram a depressão econômica, gerando um descontentamento em escala industrial em um planeta que está ficando marrom.

A falta de conexão entre o mundo financeiro e o mundo real, no qual bilhões batalham, ampliou inevitavelmente. E com ela cresceu o descontentamento que deu origem aos monstros políticos sobre os quais eu alertava meus amigos esquerdistas.

Nos anos 30, nas almas de muitos, as vinhas da ira estavam ficando mais pesadas para uma nova vindima. No lugar das plataformas dos anos 30 onde demagogos prometiam restaurar a dignidade às massas, a corporação da tecnologia (“Big Tech”) forneceu aplicativos e redes sociais perfeitamente adequados para a tarefa.

 Quando as comunidades se renderam ao medo da infecção, os direitos humanos pareciam um luxo insustentável. A Big Tech desenvolveu braceletes com biometria para monitorar nossos dados vitais 24 horas. Junto com governos, eles combinaram os resultados com dados de geolocalização, alimentaram os algoritmos, e garantiram que a população recebesse mensagens de texto úteis informando a eles o que fazer e onde ir para evitar novos surtos em seus caminhos.

Mas um sistema que monitora nossas tosses também pode monitorar nossas risadas. Pode saber como nossa pressão sanguínea responde ao discurso do líder, à conversa estimulante do chefe, ao anúncio policial banindo uma manifestação. A KGB e a Cambridge Analítica de repente parecem neolíticas.

Com o poder estatal novamente legitimado pela pandemia, agitadores cínicos tiraram vantagem. Ao invés de fortalecer vozes pedindo por cooperação internacional, a China e os EUA impulsionaram o nacionalismo. Em outros lugares, também, líderes nacionalistas incitaram a xenofobia e ofereceram aos cidadãos desmoralizados uma troca simples: orgulho pessoal e grandeza nacional em troca de poderes autoritários para protegê-los de vírus letais, estrangeiros astutos e dissidentes manipuladores.

Assim como as catedrais eram o legado arquitetônico da Idade Média, o ano de 2020 nos deixou com paredes altas, cercas elétricas e bandos de drones de vigilância. O reavivamento do estado-nação deixou o mundo menos aberto, menos próspero, e menos livre precisamente para aqueles que sempre acharam difícil viajar, fazer sobrar dinheiro no final do mês e falar o que pensam. Para os oligarcas e funcionários da Big Tech, Big Farma, e outras mega empresas, que se dão tão bem com as autoridades, a globalização procedeu a passos largos.

O mito da vila global deu espaço a um equilíbrio entre grandes blocos poderosos, cada um exibindo crescentes exércitos, cadeias de fornecimento separadas, autocracias peculiares, e divisões de classe reforçadas por novas formas de nativismo. As novas segmentações socioeconômicas colocaram em evidência as características políticas remanescentes de cada país. Como pessoas que se tornam caricaturas de si mesmas em uma crise, países inteiros focaram em suas ilusões coletivas, exagerando e consolidando preconceitos pré-existentes.

A grande força dos novos fascistas durante os anos 20 era que, ao contrário de seus antecessores políticos, eles nem tiveram que entrar no governo para ganhar poder. Partidos liberais e social-democratas começaram a cair em cima uns dos outros para abraçar a xenofobia “leve”, depois o autoritarismo “leve” e depois o totalitarismo “leve”.

Então, aqui estamos, no final da década. Onde estamos?

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares

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