Política

Cuidado com o ''shock'' neoliberal do coronavírus

 

29/03/2020 12:09

(Mauro Pimentel/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: (Mauro Pimentel/AFP via Getty Images)

 
Gostaria de acreditar que uma situação tão dura quanto a que estamos enfrentando diante da pandemia faz com que todos procurem soluções e que as disputas revelem apenas diferenças de opinião sobre a melhor maneira de superá-la. Receio, porém, que ver as coisas assim seja não apenas ingênuo como perigoso. O que percebo é uma disputa muito dura, na qual os setores mais poderosos nos campos político e econômico aproveitam a propagação do vírus em benefício de seus interesses.

Não há como negar o perigo que o novo coronavírus representa para a vida de milhares de pessoas e a necessidade de tomar medidas para tentar evitar o colapso dos sistemas de saúde de cada país. É, sem dúvida, um problema urgente. Mas quero chamar a atenção para o fato de que essa real urgência tem sido usada a partir de uma racionalidade instrumental de um capitalismo que não reconhece limites, nem mesmo quando a vida de milhares de pessoas está em perigo. Esse tipo de racionalidade já foi denunciada como estratégia de “shock” pela jornalista Naomi Klein, uma estratégia política que utiliza crises em larga escala para impulsionar políticas que sistematicamente aprofundam a desigualdade, enriquecendo as elites e enfraquecendo todos os demais grupos.

Nesse sentido, situações de grave contingência e grande impacto na vida das populações, como é caso da crise pandêmica, são utilizadas para impulsionar políticas neoliberais que, em outras circunstâncias, não seriam possíveis justamente em razão da natureza claramente contrária às necessidades e interesses dos setores sociais e populares. Apenas a título de exemplo, é exatamente isso que o Sindicato dos Trabalhadores da Justiça Federal do Rio Grande do Sul denunciou recentemente ao dizer que o governo de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, com o apoio de lideranças parlamentares, incluindo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, busca usar o coronavírus para atacar os direitos dos trabalhadores e desmontar os serviços públicos.

E essa não é a única possibilidade instrumental, ou seja, de que a atual crise seja usada para esconder políticas de austeridade extrema. Há outras formas. Agora dizem que a economia como um todo vai mal em razão da emergência sanitária, escondendo que a crise vem de longe. E aqui o raciocínio está não apenas em "encobrir" problemas econômicos do passado, mas radicalizar propostas a serviço dos grandes capitais. Este é o caso das medidas de transferência de renda para o setor financeiro em montante muito superior aos valores destinados aos setores mais pobres para manter empregos e garantias mínimas de vida.

E não para por aí. A estratégia pode ser ainda mais agressiva quando as empresas e os serviços públicos são atacados. Percebemos que a grande comoção humanitária é usada para encobrir medidas de privatização dos mais importantes ativos do Estado. Enquanto todos estão chocados com o número de vítimas, tentando entender o que está acontecendo e atendendo às recomendações das autoridades de saúde, a comoção social é usada para avançar na privatização dos serviços básicos, como faz o Governo do Rio de Janeiro com o serviço de água e a privatização da companhia pública CEDAE.

Àqueles que lutam pela transformação social, é importante estar atento a essas estratégias e a capacidade do capitalismo de se reinventar em cada crise. Certamente, as circunstâncias não são favoráveis para as formas tradicionais de protesto popular e exigem criatividade perante o novo contexto. Mesmo o parlamento tem funcionamento limitado para encaminhar projetos políticos. Dada a quarentena, não é possível sair às ruas, mas vêm surgindo situações novas, como os protestos pelas redes sociais e novas solidariedades por intermédio da percepção comum da crise.

A pandemia passará, mas os efeitos das medidas tomadas, aproveitando as circunstâncias para aprofundar a ideologia neoliberal, podem permanecer e ser um desastre não natural. Todos nós temos que estar vigilantes.

Manuel Gándara Carballido
Filósofo, doutor em direitos humanos e desenvolvimento,
Diretor do Instituto Joaquín Herrera Flores - IJHF



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