Política

De maio a maio, noves fora... tudo!

 

07/06/2020 17:38

 

 

A expressão “Maio de 68” leva de imediato a três associações principais: movimento estudantil; Paris, naquele mês e naquele ano; e uma revolução libertária nos costumes da juventude. Na verdade a expressão simboliza muito mais e reúne uma topografia de alcance mundial, ainda que um de seus principais motes - "Il est interdit d’interdire” - “é proibido proibir” - tenha ganhado o mundo a partir de Paris. Na verdade o mote foi lançado na rádio francesa RTL por um comediante - Jean Yanne - como um comentário sobre as primeiras revoltas estudantis deflagradas em Nanterre, nas vizinhanças da capital francesa, a partir do final de 1967, lideradas por um estudante que também se tornaria símbolo do movimento - Daniel Cohn-Bendit. O mote viraria título de uma canção de Caetano Veloso e dos Mutantes, apresentada no Festival de MPB de setembro de 1968, no TUCA, em São Paulo (“É proibido proibir”) sob intensa vaia do público presente, uma coisa até hoje difícil de entender, se não levarmos em conta os sectarismos de então.

Neste ano de 2020 os movimentos de protesto nos Estados Unidos, no mês de maio, depois do assassinato de George Floyd, negro, por um policial branco que esmagou seu pescoço, sufocando-o, em Minneapolis, no dia 25 de maio, têm sido associados àquelas revoltas de 1968.

Claro: há semelhanças. A revolta contra o racismo recorrente, intermitente, renitente nos Estados Unidos, gatilho das gigantescas manifestações que sacudiram o país de ponta a ponta. O tom pacifista de algumas manifestações, em que, quando a polícia chega, os manifestantes sentam-se no chão, erguem as mãos, e gritam: “don’t shoot” - “não atirem” - vai ao encontro das marchas pela paz em 68. O clamor por democracia parece semelhante às nossas manifestações e correrias de 68, a braços que estávamos com um odiosa ditadura, tão repulsiva como esta que Bolsonaro quer implantar no país. Outra semelhança: as manifestações de hoje tiveram e têm repercussão internacional. As de 68 também. Os movimentos estudantis se esparramaram pelo mundo. Em 26/05/1968, o poeta Carlos Drummond de Andrade publicava no “Correio da Manhã” o seu “Relatório de maio”. A certa altura lia-se: “naquele maio/o fogo o fogo o fogo o fogo/vinha no vento do telex/soprado de muito longe/tornado muito perto”…

Mas há diferenças notáveis entre ambos os momentos. Para começo de conversa, o telex, embora concebido desde os anos 20 na Alemanha, se expandira como meio de comunicação preferencial na imprensa a partir do fim da Segunda Guerra, sobretudo nos anos 50. Era ainda uma relativa “novidade”, logo disputada e suplantada, nos anos 70, pelo fax. E o telex fazia transmissões fantasticamente velozes, à razão de 60 palavras por minuto!

Mas isto fazia parte, digamos, da paisagem tecnológica. Havia as questões de fundo: a Guerra Fria entre os EUA e a URSS (hoje, EUA x China); a Guerra do Vietnam, que provocara protestos nas universidades norte-americanas desde 1964; o mundo comunista seria sacudido pela Primavera de Praga, tragicamente sufocada pelos tanques soviéticos; a Revolução Cubana não completara ainda dez anos, e inspirava movimentos armados pelo mundo inteiro, na América Latina, incluindo o Brasil; não fazia um ano, Guevara fora assassinado na Bolívia; na China, campeava a Revolução Cultural (bom, hoje campeia por lá uma forma de capitalismo de estado que ninguém consegue decifrar direito); o PCdoB armava, na surdina, a Guerrilha do Araguaia; nas cidades, campeava o começo (e o começo do fim) da guerrilha urbana. A luta armada era um tema mundial: além das guerras declaradas, como no sudeste asiático ou nas colônias portuguesas na África, havia grupos guerrilheiros em ação ou formação na Alemanha, na Itália, na Espanha, no Japão e alhures.

1968 foi também um ano de assassinatos e de atentados: na Alemanha, Rudi Dutschke, líder estudantil, em abril; no mesmo mês, Martin Luther King e em junho Robert Kennedy, nos Estados Unidos. Rudi não morreu no atentado, mas perdeu massa encefálica, virou epilético e morreu em sua banheira, afogado, vítima de um ataque, em 1979.

No México, a revolta estudantil levou ao Massacre de Tlatelolco, em 2 de outubro daquele ano. No Brasil, depois da Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1968, o cerco contra a resistência estudar til começou a se fechar. Em 12 de outubro a polícia paulista prendeu mil estudantes que participavam do Congresso da UNE em Ibiúna, a pouco mais de 60 km. da capital do estado. A direção da entidade já vivia na clandestinidade. Seu último presidente daquela época, Honestino Guimarães, é até hoje um desaparecido político. Deve ter sido assassinado depois de preso, em outubro de 1973.

É difícil precisar quando “1968” começou. Alguns citam o movimento de Nanterre, na França, no fim de 67. Outros falam na “Ofensiva do Tet”, ou Ano Novo Lunar Vietnamita. A ofensiva começou em 30 de janeiro de 1968, e catapultou a guerra para o noticiário internacional. Desenvolvida em várias frentes, seu feito mais espetacular foi a invasão do jardim da Embaixada dos Estados Unidos, na madrugada de 31, por uma equipe de 19 guerrilheiros Vietcongs. Dos 19, 18 morreram na hora, e um foi feito prisioneiro, cujo destino é desconhecido. Na ocasião, um oficial sul-vietnamita executou a sangue frio um guerrilheiro Vietcong, Nguyên Van Lém, diante da câmera de um repórter da rede norte-americana NBC e do fotógrafo Eddie Adams que, com a foto, ganhou o prêmio Pulitzer do ano.

Também é difícil dizer quando “maio de 1968” acabou. Pode ter sido no mesmo ano, quando o general Charles De Gaulle capitalizou o voto conservador que o elegeu presidente na França, e o mesmo aconteceu com Richard Nixon nos Estados Unidos. No Brasil, o ano se encerrou com a edição do Ato Institucional n*5, que agora Bolsonaro e seus asseclas querem reeditar. Ou ele pode ter acabado apenas em 30 de abril de 1975, quando os Vietcongs tomaram Saigon e puseram fim à guerra. Ou ainda, como diz o livro de Zuenir Ventura, ele pode não ter acabado nunca.

Uma outra diferença relevante é a de que em 1968 havia mais lideranças carismáticas e emergentes tanto na frente política, como na estudantil. Hoje os movimentos são mais difusos, midiáticos e freqüentemente dispersivos.

Nas drogas, há uma diferença muito grande. Em 68, simbolicamente, elas representavam uma “expansão da experiência sensorial”. Hoje, esta expansão faz parte da paisagem, enquanto as drogas são normalmente associadas à expansão do narcotráfico e da corrupção policial.

No sexo, o erotismo galopante de 68 foi substituído muitas vezes pela pornografia na internet, ainda mais em tempos de corona-vírus. Vivíamos então um alargamento do "reconhecimento das diferenças”. Hoje estas são reconhecidas, mas há um pacote de gente querendo afogar este reconhecimento.

Para finalizar, há uma diferença de governantes. De Gaulle era conservador, mas era um estadista (bem, Angela Merkel também é). Nixon revelou-se um pobre coitado. Já Trump e Bolsonaro são mitômanos contumazes e irremediáveis.

Por outro lado, Francisco I é uma edição revista e muito melhorada de Paulo VI, o papa daquela época, que já era bem melhor do que o reacionário João Paulo II.

Somando e diminuindo, multiplicando e dividindo, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

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