Política

Defensor do combate à “pobreza política”, especialista elogia SP

30/09/2004 00:00

São Paulo – Especialista em políticas públicas na área social, o professor de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), Pedro Demo, utiliza o conceito de “pobreza política” para avaliar programas sociais. “Política social que foca o confronto social como eixo dinâmico considera que o horizonte mais desafiador dela não é a carência material – por mais importante que seja – mas o déficit de cidadania”, afirma o professor em artigo recente intitulado “Política social - Dialética do confronto”.

 

“Admitindo que na dinâmica histórica da pobreza não compareça apenas a destituição material, mas a imposição de desigualdades forjadas e mantidas, ou seja, opressão, marginalização e exclusão, não se combate pobreza minimamente sem atacar esta face. Não se trata, assim, apenas de distribuir bens, mas de “redistribuí-los”, refazer a estruturação de sua apropriação histórica”, explica o professor no artigo. “Como ser político que é, o ser humano somente se acomoda por imposição, quando, em vez de fazer história própria, pendura-se na história do outro”.

 

Para o especialista, a pobreza política é referência crucial do combate à pobreza. “Para a política social do confronto é essencial uma população que saiba pensar, para que possa questionar a pobreza e participar como agente crucial do combate. Cidadania contém essa pretensão: i) exige a construção da consciência crítica – o pobre precisa saber criticamente que é pobre, sobretudo que é feito e mantido pobre; ii) exige a organização política coletiva, para empreender o bom combate; iii) pode contrapropor alternativa de sociedade, do ponto de vista dos marginalizados. É típico de um país como o Brasil que, enquanto grassam as assistências irrelevantes por toda a parte, imbecilizando a torto e a direito os pobres, não se percebe ou deixa-se na penumbra um dos maiores disparates nacionais: a aprendizagem quase nula em nossas escolas básicas”, destaca o professor em seu texto.

 

Consultado pela Agência Carta Maior, o professor declarou que o conjunto de programas sociais aplicados pela Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade (SDTS) do município de São Paulo é  “das melhores coisas que já foram feitas” na área. Demo destacou que, além de fugir do paradigma assistencialista, os programas do secretário Márcio Pochmann têm vinculação clara com a superação da pobreza de forma mais ampla por meio da inserção no mercado de trabalho e de ações de auto-sustentação. “Ele [Pochmann] também faz um cuidadoso controle dos dados e dispõe de bases científicas atualizadas. Portanto, conhece bem a realidade”.

 

O conceito de “pobreza política” faz parte das diretrizes de emancipação presentes nos programas de Pochmann. “A valorização do protagonismo do usuário está no centro de políticas sociais”, garante o secretário.

Demo classifica os programas sociais federais implementadas durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o atual Fome Zero do governo Lula como meramente assistencialistas. Nas políticas sociais desse tipo, explica o professor em seu artigo, aparece nítida capitulação. “A sorte das maiorias está lançada: terá que acomodar-se na marginalização, que é o paradigma. (...) Passo a passo, vamos capitulando e nos contentando com assistências, já tipicamente assistencialistas. Com isto nada resolvemos, mas vamos evitando o confronto”.

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