Política

Deputados dos EUA querem saber envolvimento do país na Lava Jato

Uma carta assinada por 23 deputados democratas ao procurador-geral pergunta sobre o papel do Departamento de Justiça na investigação que levou à prisão injusta do ex-presidente Lula

08/06/2021 10:54

Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, coloca máscara facial durante coletiva de imprensa após condenações contra ele terem sido anuladas, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 10 de março de 2021, em São Bernardo do Campo, Brasil. (Alexandre Schneider / Getty Images)

Créditos da foto: Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, coloca máscara facial durante coletiva de imprensa após condenações contra ele terem sido anuladas, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 10 de março de 2021, em São Bernardo do Campo, Brasil. (Alexandre Schneider / Getty Images)

 

Um grupo de democratas da Câmara está exigindo respostas do procurador-geral Merrick Garland sobre o papel do Departamento de Justiça dos EUA na ampla investigação anticorrupção do Brasil, conhecida como Operação Lava Jato. Em carta, obtida por The Nation, enviada hoje (7) a Garland, 23 democratas da Câmara, liderados pelo deputado da Geórgia, Hank Johnson, renovaram preocupações sobre a colaboração secreta entre o Departamento de Justiça dos EUA e funcionários brasileiros na Lava Jato, que levou à prisão injusta do ex-presidente Luíz Inácio Lula da Silva e abriu caminho para o nacionalista de extrema-direita Jair Bolsonaro ganhar a presidência.

Os legisladores estão seguindo uma carta semelhante enviada ao procurador-geral William Barr em 2019 - bem como uma carta em que 77 legisladores brasileiros escreveram aos membros do Congresso dos EUA no ano passado, pedindo-lhes para ajudar a investigar o envolvimento do Departamento de Justiça na Lava Jato - mas esta é a primeira carta desse tipo para Garland. "A resposta que recebemos, quase dez meses depois, não continha informações substantivas e parecia desconsiderar o papel de supervisão constitucional do Congresso", escreveu o escritório de Johnson em um e-mail do Dear Colleague (um sistema interno da Câmara) pedindo aos membros que endossassem a carta.

"Os membros do Congresso merecem uma resposta verdadeira e, mais importante, os brasileiros merecem uma resposta verdadeira", disse Alexander Main, diretor de política internacional do Centro de Pesquisa Econômica e Política, em comunicado enviado ao Nation por e-mail. "Com Lula e a esquerda brasileira agora bem posicionados para vencer as eleições do próximo ano, Garland e o governo Biden devem ser transparentes sobre o envolvimento dos EUA na Lava Jato e tomar medidas corretivas para garantir que as atividades do Departamento de Justiça no exterior não promovam operações judiciais antiéticas e potencialmente antidemocráticas no Brasil ou em qualquer outro país estrangeiro."

A carta também é a primeira desde que o Supremo Tribunal Federal do Brasil decidiu anular as condenações criminais contra Lula, permitindo que ele concorresse à eleição presidencial do ano que vem. Primeiro presidente do Partido dos Trabalhadores do Brasil, Lula terminou seu segundo mandato com uma taxa de aprovação de 87%. Mas ele foi preso em 2018 por acusações duvidosas de corrupção e lavagem de dinheiro, desqualificando-o de servir em cargos políticos mesmo enquanto liderava as pesquisas. Uma série de vazamentos publicados pelo Intercept revelou uma conspiração jurídica, incluindo o envolvimento do governo dos EUA na Lava Jato, e ajudou a provar que o caso contra Lula foi politicamente motivado. No mês passado, o Supremo Tribunal Federal considerou que o juiz que presidiu os casos de corrupção era tendencioso.

"A Lava Jato foi usada, de forma bastante flagrante, para avançar uma agenda política de direita e acabou prejudicando profundamente a democracia brasileira", continuou Main. "Ao prender o político mais popular do Brasil por acusações espúrias e forçar sua retirada das urnas nas eleições de 2018, os operadores da Lava Jato ajudaram a garantir a eleição de Jair Bolsonaro, um perigoso demagogo de extrema direita que frequentemente elogia a ditadura militar passada do país. A Lava Jato está amplamente desacreditada hoje, mas muitos brasileiros ainda têm dúvidas sobre o papel que os EUA podem ter desempenhado no apoio a seus procuradores tendenciosos, particularmente durante sua notória perseguição judicial a Lula."

Apesar dessa oposição organizada, Lula continua imensamente popular, em grande parte porque as políticas de seu governo ajudaram a tirar milhões da pobreza e desencadearam um período de extraordinário crescimento econômico. Embora ele ainda não tenha anunciado se concorrerá à presidência novamente em 2022, isso é amplamente esperado, e pesquisas iniciais sugerem que ele venceria facilmente Bolsonaro em uma disputa de segundo turno.

"Além das questões que levantamos em nossa carta de agosto de 2019", escreveram os democratas da Câmara, "estamos particularmente preocupados que os recursos que deveriam ser direcionados para importantes legislações dos EUA dedicadas ao combate à corrupção, podem ter sido usados de forma não totalmente consistente com a democracia, o Estado de Direito, a justiça igualitária sob a lei e o devido processo legal — sem mencionar os requisitos legais e constitucionais brasileiros".

A carta foi assinada pelas deputadas e deputados Susan Wild da Pensilvânia, Ilhan Omar de Minnesota, Rashida Tlaib de Michigan, Chuy García de Illinois, Mark Pocan de Wisconsin, Raul Grijalva do Arizona, Jim McGovern de Massachusetts, e Jared Huffman da Califórnia, entre outros. Organizações como o Center for Economic and Policy Research, a United Auto Workers e a United Food and Commercial Workers, Retail, Wholesale and Department Store Union também endossaram a carta.

*Publicado originalmente em The Nation | Traduzido por César Locatelli

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