Política

Descompasso estratégico

O processo eleitoral evidenciou limitações importantes que, se não forem trabalhadas e superadas, comprometerão a eficácia política, social e cultural da oposição ao nazi-bolsonarismo

07/11/2018 10:47

 

 
O tamanho do antipetismo, a extensão subterrânea do bolsonarismo, o poder manipulador do WhatsApp, a profusão de mensagens odiosas e notícias falsas, o financiamento da fraude por empresários corruptos, o peso do neopentecostalismo, a leniência do TSE, a “boca-de-urna” do Moro com a delação forjada do Palocci – são alguns dos fenômenos da eleição que tanto surpreenderam analistas, observadores, a mídia, os políticos e a sociedade em geral.

O fato, entretanto, de haver enorme surpresa e espanto com a ocorrência de tais fenômenos não deixa de ser, em si mesmo, também muito surpreendente.

Isso porque todos esses fenômenos, em graus e magnitudes variadas, estavam presentes na realidade; não brotaram como num passe de mágica na sociedade brasileira e na eleição.

Ou é de se estranhar a estigmatização antipetista enfastiante, fabricada pela Globo e Lava Jato nos últimos 4 anos, que é repetida diuturnamente nos cultos de certas igrejas lideradas por charlatões que manipulam pessoas de boa fé com uma pregação ideológica sectária?

Ou é de se ignorar que eleições sujas como a deste ano são dominadas por fraudes e baixarias inomináveis, corrupção empresarial, derramamento de dinheiro ilegal de caixa 2 e acusações caluniosas e notícias falsas através de mídias sociais manietadas?

Fake news é como Donald Trump – o mentiroso que inspira Bolsonaro – define as mentiras que vitimaram o PT em todas as eleições em que o partido participou: do sequestro do Abílio Diniz e a ameaça da FIESP de fuga de 300 mil empresários do país em 1989 à bolinha de papel na cabeça de José Serra em 2010 ao caos político e econômico em 2014.

Diante desses antecedentes, seria razoável confiar-se que Sérgio Moro e o judiciário, que haviam banido Lula da eleição e cujas trajetórias a serviço da engrenagem do golpe são bem conhecidas, dessa vez haveriam de agir com decência e legalidade para impedir a fraude e a lisura da eleição? É óbvio que não.

É preciso admitir-se que a campanha do PT se ressentiu da falta de inteligência estratégica e de infra-estrutura capaz de ombrear a ilegal campanha bolsonarista – que contou, inclusive, com o aporte de estrategistas, planejadores, conhecimentos e tecnologias militares de geração avançada.

Pelo menos desde 2015 Bolsonaro segue uma estratégia bem traçada para a ciberguerra. A menos de 2 anos da eleição, ele já tinha mais de 18 milhões de seguidores nas mídias sociais – 1 em cada 3 dos 57 milhões de eleitores que o elegeram – cultivados com ódio, associação do PT à corrupção; críticas à “imprensa comunista”, ao sistema, aos públicos LGBTQs, aos “vagabundos” do bolsa-família; com evocação da intervenção militar etc.

É fundamental realizar-se um investimento estratégico para suplantar o descompasso no enfrentamento à sofisticada guerra híbrida que a extrema-direita empreende no Brasil e em várias partes do mundo com técnicas semelhantes.

Esta guerra mescla recursos da ciberguerra, inteligência artificial, pregação religiosa que flerta com a teocracia, disseminação de notícias falsas, promessas de purificação da sociedade com a eliminação de “inimigos” [estrangeiros, imigrantes, árabes, africanos, pobres, negros, petistas etc], desmoralização do sistema, do Estado de Direito e da política.

É difícil predizer se um outro posicionamento estratégico da campanha do PT conseguiria mudar o curso dos acontecimentos.

A verdade, contudo, é que o processo eleitoral evidenciou limitações importantes que, se não forem trabalhadas e superadas, comprometerão a eficácia política, social e cultural da oposição ao nazi-bolsonarismo, que exige outro patamar de preparação estratégica e política.

*Publicado originalmente no blog do autor



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