Política

Desemprego é a chave para popularidade do presidente

30/06/2004 00:00

Brasília – Em uma sociedade cada dia mais soterrada por índices e estatísticas, as pesquisas eleitorais ou de avaliação dos governantes se transformaram em uma mercadoria tão volátil quanto os negócios dos mercados futuros de câmbio, juros e bolsas. Informações que deveriam ser balizadoras de trajetórias de longo prazo são usadas para orientar decisões de curto prazo – que algumas vezes tem a capacidade de deslocar a trajetória natural. Analisados isoladamente, muitos indicadores podem confundir mais do que ajudar a explicar. Do mesmo modo que os recordes dos índices de desemprego de abril deveriam ser observados como sinal de alívio e não de desespero, os resultados das mais recentes pesquisas de avaliação do governo e popularidade do presidente Lula precisam ser analisados sem o alarme dos apostadores orientados pela pressão do imediatismo.

Quem toma decisões políticas olhando para o presente, enxergou nuvens carregadas para o governo petista na pesquisa do Ibope patrocinada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgada nesta terça-feira (29). A pior avaliação do governo Lula em 18 meses (29% de ótimo e bom ao lado de 26% de ruim e péssimo – já foi 51% a 36%). O menor índice de aprovação (51% para 42% de desaprovação – 73% a 13% em março de 2003). E a mais baixa taxa de confiança no presidente (54% contra 43% - comparado a 80% e 16% do início do governo). Em síntese: a frustração da população brasileira com o governo Lula está aumentando, mas o saldo de esperança ainda é um pouco maior que a desilusão. A pesquisa tem combustível suficiente para acionar o alarme no Palácio do Planalto e adjacências.

Para projetar o cenário futuro, no entanto, é preciso ir além da trajetória declinante de popularidade. Analisar os cortes segmentados, cruzar resultados, identificar os fatores que estão influenciando na queda e observar a tendência de outros indicadores e os movimentos do governo para alterar as respectivas trajetórias. A sensação de que a inflação vai aumentar nos próximos seis meses cresceu de 48% (março) para 55% (junho) dos entrevistados. Mas a de que o desemprego vai aumentar permaneceu estável, oscilando de 54% para 55%. A impressão de que a renda geral vai diminuir aumentou de 28% para 32% e a de que a renda individual cairá nos próximos seis meses passou de 18% para 20%.

Com base na análise dos dados feita pela MCI Consultores, o diretor de Desenvolvimento da CNI, Marco Antonio Guarita, registra que essa expectativa negativa ainda não captou a reversão da tendência apontada pelos indicadores econômicos mais recentes: retomada do crescimento econômico, queda no desemprego, aumento das taxas de investimento e poupança, principalmente. A análise segmentada aponta que nos grupos de maior instrução e renda, a expectativa é mais otimista do que há três meses, enquanto nos de menor instrução e renda o pessimismo aumentou.

Algo semelhante ocorre no corte pelo tamanho das cidades. A queda de popularidade do governo foi estancada na Região Sudeste, na periferia das cidades e áreas de grande concentração populacional, onde o desgaste apontado na pesquisa anterior foi maior. Foram justamente as áreas priorizadas pelo governo para canalizar os investimentos e ampliar os programas sociais. A insatisfação cresce nas Regiões Nordeste e Sul e nas cidades médias, o que pode ser a reprodução de uma onda de expectativas e percepções já registradas e superadas nos núcleos formadores de opinião. No Norte e Centro-Oeste e nas cidades pequenas essa onda ainda não chegou.

O debate do aumento do salário mínimo pode ter influenciado na queda de popularidade do governo – 23% dos entrevistados registraram o assunto quando lhe perguntaram qual a notícia mais lembrada. Mas a viajem à China foi comentada por 10%, o que pode ter repercutido favoravelmente. Mas o principal fator de descontentamento continua sendo o desempenho no combate ao desemprego. É apontado como o pior resultado do governo Lula por 41% dos entrevistados (43% na pesquisa anterior). O combate à fome e à pobreza ainda é considerado o melhor campo de ação, mas está perdendo prestígio (caiu de 38% para 34% o índice dos que consideram o melhor resultado e aumentou de 11% para 16% o dos que consideram o pior).

Os índices de desaprovação das políticas de combate ao desemprego (67%), de taxas de juros (60%) e de segurança pública (64%) são elevados e crescentes. E a aprovação dos programas sociais está caindo (53% para 49%). “Com relativa estabilidade o combate ao desemprego continua sendo a principal preocupação da população e o desempenho da economia é o item mais importante na avaliação do governo”, disse Guarita durante a divulgação da pesquisa realizada entre 17 e 21 de junho. Ele não avança mais na análise, mas está claro que o destino do presidente Lula está atrelado ao desempenho da economia.

Os sinais de recuperação são positivos e podem influenciar nas eleições de outubro se as ações desencadeadas neste semestre chegarem a tempo na ponta dos beneficiados. Mas os gargalos estruturais ainda estão bloqueando a pista de decolagem. A associação entre taxa de juros e emprego, por exemplo, começa a ser percebida pela população. Qualquer derrapagem na condução da economia ou sinal de incapacidade na indução do crescimento será fatal para o presidente na eleição de 2006.

Isso está sinalizado nos cenários de intenção de votos capturados pela pesquisa. Se a eleição fosse hoje, Lula teria o mesmo patamar de votos obtido no primeiro turno de 2002 (34,2%). Com o presidente do PSDB, José Serra, no páreo, Lula receberia 30% dos votos. Se o adversário fosse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o índice aumentaria para 33%. A diferença é que Serra teria 25% dos votos, segundo a projeção – 50% mais que os 17,1% que recebeu no primeiro turno de 2002. Entre as mulheres, o preferido já é o candidato tucano que enfrentará a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), nas eleições de outubro. Elas dariam 28% dos votos para presidente a Serra, enquanto Lula teria apenas 25% da preferência feminina.

Mais três dados chamam atenção nessa projeção das eleições presidenciais. Os candidatos Ciro Gomes (ministro da Integração Nacional) e Antony Garotinho (secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro) continuam sendo referência para a mesma parcela do eleitorado que os escolheu no primeiro turno de 2002. A preferência pelos dois oscila entre 10% e 14% dependendo do cenário. A senadora Heloisa Helena (PSOL-AL) já tem um eleitorado cativo de 3% a 4% - bem maior que a soma dos candidatos da estrema esquerda na eleição passada (0,35% para Zé Maria do PSTU e 0,03% para Rui Pimenta do PCO). E o presidente FHC teria dificuldade para chegar ao segundo turno. Apenas 16% votariam nele novamente – a diferença para Ciro e Garotinho ficaria dentro da margem de erro de três pontos percentuais.

Parece que o eleitor está rejeitando a repetição de experiências que priorizaram a estabilidade mas não deram conta de criar condições para o País crescer, gerando empregos e promovendo a inclusão social. É melhor Lula prestar atenção no recado e tomar cuidado.

Clique aqui e veja o relatório completo da pesquisa do Ibope patrocinada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).


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