Política

Desiludidos, intelectuais de esquerda optam por voto nulo

27/09/2004 00:00

São Paulo – Por falta de concorrentes com orientação verdadeiramente “transformadora”, um grupo de intelectuais e militantes de esquerda defendeu o voto nulo em um documento sobre a disputa eleitoral pela Prefeitura de São Paulo. O primeiro turno das eleições municipais serão realizados no próximo domingo (03) em todo o Brasil.

 

Assinam o “Manifesto pelo voto crítico”, o advogado e ex-deputado constituinte pelo PT Plínio de Arruda Sampaio, o sociólogo Chico de Oliveira, o filósofo Paulo Arantes, Waldemar Rossi, da Pastoral Operária, e Plínio de Arruda Sampaio Jr., filho do ex-parlamentar que disputou as prévias com Marta Suplicy.

 

“Os candidatos majoritários que monopolizam as atenções da opinião pública encontram-se todos perfeitamente enquadrados nos parâmetros políticos da ordem e não representam qualquer possibilidade de mudança qualitativa nos interesses que comandam a organização da cidade. Não se vislumbra, portanto, nenhuma melhoria substantiva nas condições de vida da população paulistana”, afirmam os signatários no documento. “A falta de perspectiva de mudanças substantivas esteriliza o debate, gerando um sentimento de frustração e desalento na população. Não é de estranhar que a disputa eleitoral tenha se tornado um bizarro torneio de marketing [leia também: Pasteurização programática favorece "candidato-produto"]”.

 

Em um “esforço de recompor as forças políticas comprometidas com as bandeiras do socialismo”, o grupo assume como seu dever “aproveitar a eleição municipal para mostrar os estreitos limites do processo político em curso”. “Assim, convocamos todos os que ainda acreditam que um dia a esperança possa, de fato, vencer o medo para exercer o voto crítico e manifestar sua inconformidade com os candidatos comprometidos com a defesa do status quo. Julgamos que, em São Paulo, esse gesto pode se expressar pelo voto nulo ou pelo voto em uma candidatura que faça a crítica pela esquerda à administração Marta”.

 

De acordo com Plínio de Arruda Sampaio, os intelectuais e militantes que assinaram o manifesto vem se reunindo há cerca de três meses para discutir a conjuntura local, nacional e internacional. “Chegamos à conclusão de que não temos como atuar de outra forma. É preciso que alguém assinale que não é todo mundo que está de acordo com o que vem acontecendo. É o jeito”, declarou Sampaio à Agência Carta Maior.

 

“O PT não é mais o partido da transformação social”, aponta o ex-deputado petista. Para ele, a administração de Marta em São Paulo deixa isso claro quando fez a opção pela construção de grandes obras para “ganhar” o povo. “É o modo mais clássico de se governar”.

 

Perpetuação da pobreza e da marginalização


O documento reconhece importantes diferenças entre as candidaturas. Segundo o grupo, porém, “não há como ignorar que nenhuma delas questiona os fundamentos do poder conservador que subordina as políticas públicas à lógica perversa da especulação imobiliária, dos interesses econômicos que aprisionam o orçamento público, do ajuste fiscal sem fim que  condena a prefeitura à penúria, do clientelismo político que desorganiza o movimento popular e de uma hierarquia de prioridades que privilegia sistematicamente as necessidades dos ricos e perpetua o desamparo dos pobres” .

 

“Não vejo uma palavra na campanha sobre o problema do tamanho da cidade de São Paulo. Como se a metrópole pudesse se expandir infinitamente para abrigar mais de 40 milhões de pessoas e trazer água encanada da Amazônia na maior facilidade”, questiona Plínio de Arruda Sampaio.

 

Na opinião do ex-deputado, é inegável que a administração do PT em São Paulo é menos corrupta e promoveu importantes mudanças qualitativas na questão dos gastos sociais em comparação com as gestões anteriores. “Mas para mim, o mais importante é marcar posição e deixar claro que estamos diante de uma encruzilhada”.

 

A falta de enfrentamento do “poder do capital” na maior cidade do país, na perspectiva de Sampaio, joga fumaça sobre o novo tipo de colonialismo em curso no plano internacional. “O Brasil corre o risco de voltar a ser colônia e praticamente não existe tensão social, debate sobre isso. Não se discutem as formas de enfrentamento do capital. O PT decidiu simplesmente administrar tudo isso. Não haverá transformações com relação à pobreza e à marginalização em São Paulo”.

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