Política

Deus, a Farda e a Família - a galeria dos hipócritas

 

11/07/2019 17:18

O jornalista norte-americano Glenn Greenwald, autor do livro ''Great American Hypocrites: Toppling the Big Myths of Republican Politics'' (Agência Brasil)

Créditos da foto: O jornalista norte-americano Glenn Greenwald, autor do livro ''Great American Hypocrites: Toppling the Big Myths of Republican Politics'' (Agência Brasil)

 
Glenn Greenwald ficou muito famoso desde junho deste ano de 2019. Todos sabemos a razão. Pouca gente o conhecia. Talvez ainda mal conheça, já que uma certa malta de psicopatas tenta construir uma “biografia paralela” do jornalista.

Para começar, antes de ser o repórter premiado e autor de numerosos livros de investigação, ele era advogado, com larga experiência em litígios. Não nasceu ontem.

Um de seus livros talvez tenha particular interesse para o leitor brasileiro, por conta das pimentas que fornece para que compreendamos a fauna que nos rodeia e, infelizmente, nos governa.

O livro é este: Great American Hypocrites: Toppling the Big Myths of Republican Politics (Crown Publishers, N. York. 2008)

A narrativa prima pelo foco e pelos detalhes, sobre os quais, evidentemente terei pouco espaço para falar. Localiza um paradoxo de lá deles, dos gringos, com evidentes analogias para nós, os tupiniquins. Afinal, grandes hipócritas existem lá como cá. Não poderia ser diferente numa terra em que militar expulso por baderna e indisciplina enche a boca para falar das virtudes da caserna. Mas o livro de Greenwald pega no pé dos falsários do Partido Republicano do nosso Grande Irmão do Norte. Não porque não os haja entre aqueles do partido democrata, mas, sim, porque o PR, sobretudo nas últimas décadas, vestiu de modo espalhafatoso a fantasia do comportamento exemplar.

A síntese do livro-reportagem poderia ser esta:

"Nas últimas três décadas, a política americana tem sido impulsionada por uma anomalia bizarra. As pesquisas mostram continuamente que em quase todas as questões, os americanos preferem amplamente as políticas do Partido Democrata frente aquelas do Partido Republicano. Ainda assim, durante esse tempo, os republicanos ganharam a maioria das eleições. Este livro examina como e por que isso aconteceu".

A vantagem republicana depende de vários fatores, mas o livro destaca uma como primordial. Os picaretas republicanos forjam e difundem com incomparável habilidade uns mitos e imagens que os fazem parecer sempre seres superiores aos demais: corajosos, fortes, de ilibada moralidade familiar, honestos, empreendedores, gestores ímpares. Além de tudo, parecem gente “simples”, patriotas e heróis de Guerra, promotores da restrição fiscal e da defesa do indivíduo contra a ingerência governamental.

Os democratas, em contraposição, são sempre retratados como tipos afeminados, fracos, displicentes, imorais, esbanjadores. De vez em quando alguém escapava. Hillary Clinton, por exemplo, era pintada como a macha-castradora, gelada e dominadora.

Não importa que juízo façamos de Hillary, é constrangedor que seja assim retratada por republicanos como o radialista Rush Limbaugh: “onde estão os homens de verdade do Partido Democrata? Hillary Clinton é um deles, mas onde estão os outros?”.

O próprio Limbaugh é um impostor rematado, cuja vida não bate com a imagem. Entre outras tantas baixarias, basta lembrar o modo como se livrou do recrutamento militar, nas tantas vezes em que os americanos se envolveram invadindo outros países. Primeiro tentou inventar que era estudante de faculdade. Deu ruim – a junta militar ficou sabendo ele havia abandonado a escola. Daí ele achou um atestado médico maroto, dizendo que ele tinha um quisto... no ânus. A junta abriu mão de verificar a existência do caroço incômodo. Dá para ver...

Essa é prática usual dos cínicos retratados. Pintam os adversários como anormais para fazer pose de durões exemplares. Quando você olha para a vida real... encontra casamentos e divórcios em série, aventuras variadas no quesito camas, enfim, vidas pouco tradicionais e pouco “cristãs”. Isso vale para sacripantas de várias profissões. Radialistas como Limbaugh ou Bill O’Reilly, políticos profissionais como Ralph Giuliani e Newt Gingrich – figuras que mostram em seu currículo inegáveis aptidões para gerenciar prostíbulos, cassinos ou bancas do jogo de bicho.

Mas voltemos ao argumento do livro. Ele começa por um ícone dessa tribo. Nosso também muito conhecido John Wayne, o macho dos machos, reto dos retos.

Wayne do filme é um, na vida é outro, muito diferente. No filme, o cowboy macho, o herói de guerra, o patriota do pedaço.

Na vida real, o cara chegado ao copo de destilados fortes e que fez de tudo para escapar da convocação militar – ele preferia que outros morressem na guerra que ele convocava. Outros atores de sua geração foram para a guerra contra o nazismo – William Holden, James Stewart, Clark Gable, Tyrone Power, Henry Fonda.

James Stewart tinha 33 anos quando aconteceu Pearl Harbor, alistou-se e participou de nada menos que vinte missões de combate. Wayne alegou estar fora da idade (tinha 34). Depois disse que precisava cuidar de seus três filhos. Por fim, disse que prestava outros serviços – ganhava dinheiro fazendo filmes patrióticos. E encontrava tempo, claro, para pregar as virtudes da tradicional família americana e simultaneamente casar três vezes e rodar a baiana com muitas outras mulheres.

Repetindo a comparação. Clark Gable se alistou com 40. Henry Fonda tinha 37, três anos a mais que Wayne – e também tinha três filhos. Wayne, 32, tirou o corpo fora e animou os demais a entrar em combate. Em resumo, Wayne era, de fato, o retrato do herói de Guerra dos republicanos. Mais ou menos o Rambo-Stalone de sua geração.

Mas teria imitadores no mundo da política. Como George W. Bush e Dick Cheney. Mas uma referência especial cabe ao antigo líder republicano na Câmara de Deputados, o cristão conservador Newt Gingrich. Cristão conservador – esse termo virou escracho e não é apenas aqui, no Brasil. Gingrich é um exemplo acabado de santo do pau oco. Fez todas a que tinha direito. Arrancou assinatura da primeira mulher nos documentos de divorcio quando ela estava saindo de uma cirurgia de câncer. Naquele momento, já estava em outra, já engatara uns três relacionamentos paralelos. E entrou em vários lençóis e bancos traseiros de automóveis. Ou elevadores. Onde fosse possível. O cara era um azougue, insaciável. O dramático é que mesmo assim pretendia se estabelecer como fiscal da braguilha alheia, inclusive a do Clinton, com cujo impeachment sonhava, por conta do affair Monica Levinsky. Deitou, rolou, caiu no ostracismo e... voltou como mordomo de outro paladino da família cristã, Donald Trump. Trump e Gingrich, tudo a ver. Tudo pela moral, pela família e pela civilização cristã-ocidental. Amém, Deus seja louvado.

Assim é a galeria de hipócritas que o talento de Glenn retrata, lá no hemisfério norte. Talvez o repórter não soubesse que encontraria uma fauna similar quando se mudasse para o Brasil. Aqui, também há pastores que juram Deus e a Família na TV e nos púlpitos ao mesmo tempo em que pintam o sete nas quebradas e nos motéis. Que organizam cofres milagrosos e bíblias que expelem dólares. Ah, sim, alguns deles também juram a família no microfone do Congresso. Há políticos que conclamam marchas contra a corrupção enquanto engordam contas na Suíça. E há ex-militares que exaltam o poder educativo da farda e da guerra, mas apenas para os filhos dos outros.

Talvez precisemos da edição de um Great Brazilian Hypocrites. Ou talvez tenhamos uma prévia nas famosas filtragens do Telegram, a nova novela das oito, só que muito mais apimentada.

Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes é professor aposentado, colaborador na pós-graduação em Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. É também coordenador de Difusão do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-Ineu). Seus livros mais recentes são: “O Peso do Estado na Pátria do Mercado – Estados Unidos como país em desenvolvimento” (2014) e “Educação Superior nos Estados Unidos – História e Estrutura” (2015), ambos pela Editora da Unesp.

*Publicado originalmente no Jornal da Unicamp




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