Política

Dilma: Petrobras é maior do que qualquer crise

Durante a posse, Dilma declarou que combaterá os ataques contra a Petrobras, e que haverá aumento da poupança interna e da produtividade do país.

03/01/2015 00:00

Lula Marques / Fotos Públicas

Créditos da foto: Lula Marques / Fotos Públicas

Um sol absoluto recebeu no dia 1º de janeiro a presidenta Dilma Rousseff às 14h58, quando saudou, de um Rolls Royce sem capota, o público reunido em frente à Catedral, no centro de Brasília, durante o desfile prévio ao discurso de posse em que ratificou sua defesa da estatal Petrobras. “Não podemos permitir que a Petrobras seja alvo de um cerco especulativo dos interesses contrariados com a adoção do regime de partilha e da política de conteúdo local”, dos equipamentos e plataformas, assegurou na parte mais significativa de sua fala diante do Congresso.

Economista com experiência em assuntos energéticos, a presidenta que iniciou seu segundo mandato é coautora do novo modelo de exploração que outorga prerrogativas à Petrobras e reduz benefícios de empresas estrangeiras nos mega campos descobertos a partir de 2007, localizados a cinco mil metros de profundidade.

Em seu discurso, repetiu a mesma tese formulada dias atrás em um café da manhã oferecido a jornalistas locais e correspondentes: o escândalo de corrupção da Petrobras é um biombo que dissimula um plano para desnacionalizar a exploração de hidrocarbonetos.

O regime em vigor desde 2010, quando foi parcialmente anulado a herança do governo do social-democrata Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) “assegura o controle nacional de nossas riquezas. A Petrobras é maior do que qualquer crise e por isso é capaz de superá-las e seguir adiante”, defendeu Dilma diante de senadores e deputados da base aliada, pois a oposição boicotou o ato.

Surpreendeu que a presidenta enfrentasse desta maneira um assunto tão espinhoso, que diz respeito a empresários, executivos da estatal e políticos da coligação oficialista, em uma solenidade que habitualmente é dedicada à tratar de temas gerais e esboçar prioridades do novo governo. De acordo com uma causa movida por um juiz federal responsável pelo caso Petrobras, as principais empresas construtoras subornaram ex-diretores da petroleira mas, até o momento, nada indica que essa mancha comprometa toda a diretoria.

A oposição conservadora, a imprensa locais e os meios de comunicação financeiros estrangeiros exigem que a condução da Petrobras seja substituída por algum especialista procedente de uma companhia privada.

Desde que o juiz e a polícia, claramente favoráveis à oposição, começaram a filtrar informações da causa apesar do segredo de Justiça, as ação da empresa caíram nas Bolsas de São Paulo e de Nova York. Paralelamente, um fundo abutre e acionistas patrocinados por grandes escritórios de advocacia abriram causas contra a Petrobras, em uma delas mencionando Dilma, nos tribunais de Nova York.

Dilma reconheceu a existência de irregularidades na companhia estatal “e é por isso que vamos investigar com todo rigor para fortalecê-la cada vez mais. Vamos criar mecanismos para que estes fatos não se repitam”. “O Brasil sabe que jamais pactuei com a corrupção, com ninguém ilícito, meu governo foi o que mais apoiou o combate à corrupção... a corrupção tira do povo seu poder legítimo”, completou.

E ali firmou um “Pacto Nacional contra a Corrupção existente... tanto no âmbito público como no privado”, que precisará do apoio do Congresso para a sanção de uma legislação mais dura contra crimes eleitorais e do Poder Judiciário para abreviar os processos.

Parte do público de vários estados que esteve em Brasília viu o pronunciamento de Dilma diante de congressistas reproduzido em telas gigantes, enquanto muitas pessoas tentavam se proteger do sol.

Vestindo um conjunto cor nude, a presidenta parecia segura ao falar com uma eloquência bem dosificada. Esta Dilma é uma política mais experiente do que aquela um pouco vacilante, mas modulada ao falar, da cerimônia de posse de seu primeiro mandato no chuvoso 1º de janeiro de 2011.

Na passagem mais emotiva de seu discurso, lembrou seus anos como prisioneira da ditadura cujos crimes foram investigados pela Comissão Nacional da Verdade, responsável por um grande relatório apresentado em 10 de dezembro. “Sou uma ex-opositora de um regime de força que provocou em mim dor e me deixou cicatrizes mas que jamais destruiu em mim o sonho de viver num país democrático e a vontade de lutar e construir este sonho, mas não tenho nenhum revanchismo... sempre me emociono ao dizer que sou uma sobrevivente”, lembrou Dilma.

Do lado de fora do Palácio do Legislativo, com suas duas cúpulas símbolo da arquitetura brasiliense (uma do Senado e outra da Câmara dos Deputados), os vendedores ambulantes ofereciam água gelada, guarda-chuvas, chapéus e camisetas com a estampa “Dilma, coração valente”, ilustradas com uma foto antiga dos tempos de guerrilheira, aos 23 anos, pouco tempo depois de ser presa nos anos 70.

“Meu nome é Carlos Carvalho, vim de São Paulo... melhor, coloque que vim da periferia de São Paulo com meus amigos para estar neste dia importante”, disse um homem de barba e óculos de sol. “Confiamos em Dilma, é guerreira... o governo não foi maravilhoso, não foi a redenção de todos os problemas do povo. Vai melhorar. Lula disse que acontecerá com Dilma o mesmo que aconteceu com ele no primeiro governo. As coisas vão indo aos poucos, no segundo se aprende com os erros e se sairá melhor”.

Alguns passos afrente de Carlos e seus amigos paulistanos ia um adolescente com uma bandeira argentina. “Não sou argentino”, respondeu quando perguntei de onde era, e ao lado dele, uma garota, Lelina da Cruz, caminhava agitada com um guarda-chuva meio quebrado. “O sol está pesado. Sou de Belo Horizonte, agora faz alguns meses que não tenho trabalho, vim com minha irmã Simone, que é cobradora em um terminal de ônibus, nós duas viemos com a caravana do PT, estamos no acampamento”, montado pelo partido em uma quadra de basquete ao lado do estádio Mané Garrincha.

“Como não iríamos ver a Dilma, nós votamos nela porque é das nossas... vimos ela passar justo na nossa frente... estava linda, linda”, despediu-se Lelina com o guarda-chuva escuro quase destruído.

Além de assumir a presidência, Dilma esteve na quinta-feira com os 29 ministros de seu novo gabinete, em que se sobressai o chefe da Casa Civil, Aloízo Mercadante, petista de fidelidade à presidenta comprovada. Outro dos nomes mais citados é o de Joaquim Levy, economista neoliberal que nunca militou no PT e tem alguma simpatia partidária pelo partido de oposição PSDB, derrotado por uma estreita margem de erro nas eleições de outubro.

Levy foi o preço que Dilma pagou para saciar as demandas do capital financeiros sob o risco de uma disputa bancária desestabilizadora, da que Lula foi vítima em 2002, antes de aceitar que o Banco Central ficasse nas mãos de um ex-presidente do Banco de Boston.

Ortodoxia e corte de gastos são as palavras que resumem o plano econômico de Joaquim Levy, ao qual Dilma, economista de convicções desenvolvimentistas, se referiu como se falasse de uma penitência inevitável para reativar uma economia que em 2014 cresceu 0,2%, segundo estimou a Cepal.

“Ninguém mais do que eu sabe que o Brasil precisa voltar a crescer, os primeiros passos desta caminhada passam por um ajuste nas contas públicas, um aumento na poupança interna, a ampliação do investimento e a elevação da produtividade”, disse com gesto de quem acaba de saborear um sapo na brasa.

“Faremos isso com o menor sacrifício possível para a população, em especial para os mais necessitados. Reafirmo meu profundo compromisso com a manutenção de todos os direitos trabalhistas e previdenciários”, comprometeu-se Dilma.

Há uma semana, Levy manifestou algo diferente ao que sua chefe disse, quando apoiou um projeto de lei de terceirização trabalhista repudiado oficialmente pelo secretário do PT, Angelo Dagostino.

Apesar do rigor do plano que virá, a presidenta assegurou que manterá de pé programas como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, além de anunciar que o lema de seu segundo governo será “Brasil: Pátria educadora”, e prometeu mais fundos procedentes dos royalties cobrados das petrolíferas.

Depois de falar no Legislativo a chefa de Estado se dirigiu ao Planalto, sede do governo, onde recebeu saudações de vários presidentes latino-americanos como o venezuelano Nicolás Maduro, o uruguaio José Mujica e a chilena Michelle Bachelet. Do telão montado fiante da Praça dos Três Poderes, o público, onde predominavam militantes do PT e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), continuava essa parte da cerimônia com alguns vivas para Dilma e algumas vaias, por exemplo, à rede Globo.

“Vamos apoiar a luta pela democratização da mídia, é uma luta que está acontecendo em vários países da América Latina e esperamos que também aconteça no Brasil. O que deve ser feito é regulamentar a Constituição em que há artigos contra monopólios”, disse o historiador Rodrigo Cezar, de São Paulo, segurando uma faixa de vários metros junto de outros militantes do PT.

Cartazes contra a Globo e por uma lei de mídia ocuparam a Praça dos Três Poderes junto a outros em apoio à reforma política e por uma constituinte. Dois militantes começaram a gritar “huuuu, huuuu, foraaaaa”, enquanto Dilma estava aparentemente sendo saudada pelo vice-presidente norte-americano Joe Biden.

Biden é o funcionário da Casa Branca que mais vezes viajou ao Brasil desde o escândalo desatado pela espionagem da agência NSA, com a finalidade de roubar dados do escritório de Dilma, arquivos da Petrobras e outras empresas estatais. Biden já convidou ao menos duas vezes Dilma para uma visita de Estado depois de ser suspensa aquela agendada para 2013.

É evidente que o assunto voltou a ser abordado na posse, quando ambos se encontraram reservadamente no Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, instituição que até o fechamento desta edição havia se limitado a divulgar uma foto de ambos dialogando.
 
Consultado sobre seu encontro de 10 minutos com Dilma, o enviado do presidente Obama declarou que se tratou de “um novo ato, um novo começo”, Depois, foi questionado sobre a possibilidade de Dilma realizar a primeira visita de Estado de um governo brasileiro a Washington desde os anos noventa, ao que respondeu “espero que sim”.



Conteúdo Relacionado