Política

Disputa eleitoral pode beneficiar a Baixada Fluminense

11/05/2005 00:00



Rio de Janeiro - São 13 municípios e cerca de 3,6 milhões de habitantes que sofrem cotidianamente com os mesmos problemas: falta de saneamento e de água tratada, precariedade nos serviços de saúde e desigualdade social. A Baixada Fluminense, região conhecida pela violência e que expandiu sua notoriedade nacional e internacional depois da chacina que deixou 29 mortos, há 40 dias, é cenário também de disputa política.

 

Nas eleições municipais do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva investiu pesado na campanha de Lindberg Farias (PT) para a prefeitura de Nova Iguaçu. O petista concorreu contra Mário Marques, candidato do PMDB, apoiado pelo presidente regional do partido no Rio, Anthony Garotinho, que deverá disputar as eleições presidenciais no ano que vem, enfrentando Lula pela segunda vez.

 

Apesar da oposição da governadora Rosinha Matheus (PMDB), que chegou a romper contratos do Estado com o município, Lindberg, depois de eleito, tornou-se o presidente da Associação de Prefeitos da Baixada Fluminense e porta-voz dos anseios da região. A associação e a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) anunciaram nesta terça-feira (10) a criação do Conselho de Desenvolvimento da Baixada, que apesar de não ter a participação do governo federal, contou em seu lançamento com a presença dos ministros Jacques Wagner (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social), e José Dirceu (Casa Civil).

 

A chacina do dia 31 de março chamou mais atenção do governo para os problemas que perduram na Baixada. No massacre, 29 pessoas foram assassinadas nos municípios de Queimados e Nova Iguaçu, no que foi a maior chacina já ocorrida no Estado. Apontados pelos crimes estão 11 policiais militares, todos presos temporariamente.

 

O motivo do crime ainda não foi descoberto pelos investigadores. Uma das linhas de apuração aponta para o descontentamento dos PMs com a troca de comando em batalhões da Polícia Militar. No dia da chacina, o ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, anunciou que, por ordem do presidente da República, a Polícia Federal investigaria também o caso. A intervenção da PF numa apuração que era por lei do Estado foi recebida como afronta pela polícia estadual, que considerou ser politização do massacre.

 

Agora, 40 dias depois da chacina, e um ano e meio antes da eleição para a Presidência, ao menos projetos não faltam. Apesar de o Conselho apresentado nesta terça-feira (10) não ter participação financeira do governo federal, dois ministros estavam lá para apoiar a iniciativa privada de 33 empresas que atuam na Baixada, ou que têm interesse em investir na região.


“Política integrada”

No encontro, depois de elogiar a iniciativa e afirmar que haverá “uma política integrada entre governo federal e Baixada Fluminense”, Dirceu aproveitou para anunciar novos números dos programas do governo federal para a região: “O Bolsa-Família já atende a 69 mil famílias na região e mais 33 mil farão parte do programa. Teremos um aumento de 35% no atendimento do Programa Saúde da Família. Estamos também discutindo a inclusão do Hospital da Posse no programa Quali-Sus, o que daria condição à Nova Iguaçu de ter uma unidade regional para atender a toda a região. Estamos ampliando na região mais onze unidades de prótese dentária, que é o programa Brasil Sorridente, e ainda negociando mais oito unidades das farmácias populares em municípios com mais de 200 mil habitantes”, disse o ministro.

 

O Ministério das Cidades informou que, desde o início do governo Lula, já investiu mais de R$ 138 milhões na região. Contando com projetos que já estão em fase de implantação ou prestes a sai do papel, esse número sobe para R$ 320,3 milhões, que beneficiam 16.061 famílias.

 

Já a Firjan informou que, dos R$ 50,7 milhões que a federação vai investir no Estado nos próximos três anos, quase metade deles (R$ 23,2 milhões) irá paras a Baixada Fluminense. A maior parte dos investimentos será nos setores plástico, químico e petroquímico, com expectativa de geração de 49 mil novos empregos. Não se pode deixar de considerar que na Baixada está o 6º maior PIB (Produto Interno Bruto) do país, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada na semana passada.


Saneamento é difícil

A notícia que a maior parte dos prefeitos da Baixada quer ouvir, no entanto, foi até agora apenas alvo de discurso. Se em fevereiro deste ano os prefeitos, em encontro com o presidente Lula, esperavam buscar soluções para o saneamento, um dos maiores problemas da região, hoje nada mudou. Durante o lançamento do Conselho de Desenvolvimento da Baixada, Dirceu se restringiu a dizer que esta é a “área mais difícil”, já que a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), “endividada” detém a concessão da distribuição e tratamento de água e esgoto no Estado.

 

Lindberg Farias espera a votação de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF) para resolver o impasse do saneamento e distribuição de água na região. Para o prefeito de Nova Iguaçu, há injustiça com a Baixada: “Há injustiça com a Baixada, já que o rio Guandu, que abastece 80% da Região Metropolitana do Rio passa em boa parte da Baixada, mas 50% das casas não têm esgotamento sanitário e apenas 30% têm água tratada”, afirmou. Boa parte do esgoto acaba sendo despejado na Baía de Guanabara, trazendo outros transtornos para a população, entre eles doenças.

 

Arco rodoviário

Do encontro com Lula, saiu a promessa da duplicação do Arco Rodoviário. A duplicação da BR-101 (parte do arco rodoviário) vai ligar todos os municípios da Baixada ao porto de Sepetiba.  Lindberg define a obra como um grande salto para a região: “A obra já está em processo de licitação e será fundamental para a economia dos municípios da Baixada porque facilitará o escoamento da produção”, afirmou.

 

Segundo o secretário de Indústria, Turismo e Esporte de Itaguaí, Alexandre Vale Cardoso, foi o único ponto realmente acertado: “Naquele encontro, a duplicação do arco foi a única coisa definida. Agora estamos esperando o plano diretor da Baixada, que vai começar a ser discutido com a criação do Conselho de Desenvolvimento”, espera Cardoso.


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