Política

Divisão da esquerda no Rio começou em Fortaleza, diz Bittar

29/09/2004 00:00

Rio de Janeiro – Demonstrando sincera animação a cinco dias das eleições, o candidato do PT a Prefeitura do Rio de Janeiro, Jorge Bittar, aposta na conquista dos indecisos para chegar ao segundo turno. Nessa entrevista exclusiva, concedida a Agência Carta Maior num dos rápidos intervalos de uma agenda que tem 11 atividades programadas para os próximos dois dias, Bittar não foge de nenhum assunto. Ele credita a divisão da esquerda no Rio ao "erro nacional do PT" de lançar candidatura própria contra o PCdoB em Fortaleza e avalia que a candidatura da comunista Jandira Feghali "termina melancolicamente".

Deputado federal que sempre defendeu a unidade do complicado PT do Rio, Bittar acredita que o partido marchará unido depois dessas eleições. "Tive o apoio de Chico Alencar e de Vladimir Palmeira, ainda que eles tenham críticas com relação a aspectos da política econômica do governo Lula", afirma. Bittar surpreende ao afirmar que conta com o apoio do PMDB de Anthony Garotinho se for para o segundo turno contra Cesar, e considera muito difícil a aliança regional com o PFL em 2006. Para ele, o PT deve se consolidar no Rio como "alternativa democrática e popular, que não seja nem o autoritarismo de Cesar Maia nem o populismo rasteiro de Garotinho, em sintonia com o projeto de reeleição do presidente Lula, que é o que estará em pauta em 2006". Leia abaixo a íntegra da entrevista com Jorge Bittar. 

Agência Carta Maior - Faltando poucos dias para as eleições, qual avaliação o senhor faz do momento atual? Apesar do que mostram as pesquisas, ainda é possível chegar ao segundo turno? Em que tática está apostando o PT nessa reta final?
Jorge Bittar - É importante que se registre que as pesquisas de opinião revelam que 25% dos eleitores da cidade do Rio ainda estão indecisos faltando apenas cinco dias para as eleições. Nossa estratégia de ação nesses dias busca sensibilizar os eleitores para a necessidade de haver segundo turno na eleição da cidade do Rio de Janeiro, com o argumento de que uma parte da elite pensante aposta na idéia da continuidade desse governo conservador e autoritário de Cesar Maia. Nos afirmamos com um novo projeto de desenvolvimento para a cidade, que trata do desenvolvimento econômico, urbano e social do Rio de Janeiro. O argumento fundamental é que há necessidade de segundo turno para o debate que não houve no primeiro turno. Nós temos feito uma série de críticas ao prefeito, não só com relação ao esvaziamento econômico e à crise social da cidade, mas ao caos da saúde pública, à ausência de investimentos de transportes e à baixa qualidade da educação municipal.

CM - Se o senhor conseguir chegar ao segundo turno contra Cesar Maia, quais apoios aceitará? O PT aceitaria o apoio do PMDB, que é seu aliado nacional, mesmo sendo Luiz Paulo Conde uma peça do grupo político de Garotinho contra o qual o PT e Cesar se uniram em outros municípios do Rio de Janeiro?
JB - Entendo que no primeiro turno os candidatos apresentam seus projetos, no segundo turno eles constroem alianças para a vitória e para criar condições de governabilidade futura. O Cesar Maia, por sua própria característica, se encontra muito isolado politicamente. O prefeito teme o segundo turno porque sabe que a tendência é a união de todos os adversários contra ele, criando um novo fato político. Então, eu acho que, chegando ao segundo turno, terei o apoio dos demais partidos que disputam as eleições municipais do Rio de Janeiro.

CM - O senhor se arrepende de não ter buscado com mais força no início da campanha o apoio do PCdoB e das forças políticas que apóiam Jandira Feghali? Se a esquerda não for ao segundo turno, podemos creditar a culpa pelo fracasso a esta divisão?
JB - Eu não me arrependo de nada porque me empenhei muito para que houvesse a união da esquerda no Rio de Janeiro. Foi uma decisão equivocada nacional do PT permitir que o partido lançasse candidatura própria em Fortaleza, prejudicando a candidatura de Inácio Arruda, do PCdoB. Em função disso, o PCdoB se sentiu liberado para lançar candidatura própria no Rio de Janeiro. Jandira já há muito tempo afirmava o desejo forte de ser candidata na cidade e, com o problema de Fortaleza, não nos sentimos com autoridade política para exigir do PCdoB apoio no Rio. Certamente a divisão da esquerda é um dos fatores que têm nos prejudicado, mas não é o único fator.

CM - E, se o senhor for eleito, vai chamar essas forças da esquerda para compor o seu governo? Como fica a relação entre o PT e o PCdoB no Rio daqui pra frente?
JB - Se eu chegar ao segundo turno, evidentemente desejarei o apoio do PCdoB, não só apara assegurar a vitória, mas para assegurar um governo progressista de esquerda na cidade do Rio de Janeiro. Quero registrar que a candidatura de Jandira se apresentou na contramão da maioria da direção nacional do PCdoB. Ela se apresentou, na prática, como uma candidata de oposição ao governo federal aqui no Rio. Esse é um problema a ser resolvido pelo PCdoB e não por nós do PT. As relações do PT com o PCdoB seguem seu curso normal, não será um episódio ocorrido na campanha municipal do Rio de Janeiro que irá prejudicar uma perspectiva de aliança mais duradoura nacionalmente ou mesmo aqui.

CM - Essa pergunta é mais para o quadro partidário do que para o candidato. Quais são as suas expectativas políticas em relação ao PT do Rio após essas eleições?
O partido se uniu em torno de sua candidatura, mas alguns analistas avaliam que o divórcio entre a chamada esquerda petista e o Campo Majoritário no Rio não tem mais volta. O senhor, que sempre pregou a unidade do partido, acredita nesta tese? O que fazer para garantir que a unidade permaneça após estas eleições?
JB - Eu acredito na permanência da unidade petista aqui no Rio de Janeiro. Eu tive o apoio de Chico Alencar e de Vladimir Palmeira, ainda que eles tenham críticas com relação a aspectos da política econômica do governo Lula, e aposto na manutenção da unidade do PT aqui. Quero lembrar que o PT tem uma perspectiva de vitória em importantes cidades do nosso estado, como em Niterói, Nova Iguaçu, e sairá com o maior número de vereadores no estado, tendo tudo para consolidar a sua unidade na cidade do Rio. Temos que trabalhar nessa direção.

CM - Como o senhor se sentiu ao ver antigos aliados que são quadros históricos do PT apoiarem outra candidatura por conta das divergências com o governo Lula? A questão federal atrapalhou o diálogo político no Rio?
JB - Não foi a questão federal que atrapalhou o diálogo político aqui. Acho que foi a incompreensão desses companheiros sobre o que o governo Lula deveria fazer para enfrentar o desafio de governar o Brasil. Não entenderam a necessidade das alianças, não entenderam a necessidade de medidas econômicas duras para que se pudesse recuperar a economia brasileira. Hoje, percebem que erraram politicamente, porque o governo Lula está numa trajetória positiva. A posição desses companheiros foi profundamente equivocada e eles apostaram na idéia de que, ao apoiar a Jandira, iriam fazer a candidatura dela crescer no rol do desencanto de setores da cidade com o governo Lula. Isso não aconteceu. A candidatura dela não foi a grande candidatura da esquerda como imaginavam. A verdade dos fatos é que a candidatura da Jandira termina melancolicamente. É verdade que nós do PT ainda não estamos muito bem, mas fizemos uma campanha com muita firmeza, defendendo o governo federal com muita dignidade e apresentando projetos para a cidade. Acho que há um quadro muito especial no Rio que decorre do fato de que o prefeito Cesar Maia construiu uma estratégia de marketing muito sólida em torno da imagem de bom administrador e que as pessoas sempre confrontam a imagem de Cesar com Garotinho e Rosinha, que têm uma imagem horrorosa para os setores mais politizados e mais esclarecidos do Rio. É verdade também que os efeitos da política econômica do governo federal não chegaram plenamente ao Rio de Janeiro, porque a economia do estado vive um processo de esvaziamento econômico e isso faz com que os empregos aqui não cresçam de maneira tão intensa como cresceram no Brasil afora. Isso faz com que as pessoas não percebam, de maneira tão clara quanto em outros lugares, os efeitos benéficos do crescimento econômico registrados pelo governo Lula.

CM - Num eventual segundo turno contra Cesar, quais táticas o PT adotará para reverter a vantagem do candidato do PFL? Quais temas o senhor pretende tornar predominantes num eventual segundo turno?
JB - Confrontar um governo autoritário e conservador com uma proposta progressista, participativa e que priorize os mais pobres e os gastos nas áreas sociais como estratégia fundamental para reverter esse quadro de esvaziamento econômico e crise social na cidade. Vamos buscar a capacidade que a sociedade tem de fazer da nossa candidatura uma representação de todos os que querem oferecer ao Rio uma nova perspectiva de futuro e vamos questionar profundamente a incapacidade do prefeito de agir no plano da atividade econômica, estimulando atividades que são vocações da cidade como turismo, a indústria da moda, da construção naval, cultural, de base tecnológica. Afinal, nós temos uma base para isso que é a construção da Agência Municipal de Desenvolvimento. Iremos também criticar profundamente o caos em que o prefeito deixou áreas fundamentais para a qualidade de vida do carioca, como a saúde pública, a educação e os transportes.

CM - O casal Garotinho não deve ter nessas eleições vitória política tão expressiva quanto imaginava no RJ (vide Niterói, Baixada e até mesmo Campos). Como se dará, na sua avaliação, a correlação de forças entre o grupo político de Garotinho e o PT depois das eleições? O PT do Rio vai combater a candidatura de Garotinho a Presidência em 2006 na linha de frente?
JB - Entendo que no Rio de Janeiro imperam duas forças que têm incidência considerável sobre o quadro nacional. De um lado, o prefeito Cesar Maia, que representa o PFL, uma vertente da oposição ao governo Lula e que tem expressão na cidade e em outros municípios do estado. Do outro lado, o ex-governador Garotinho e sua mulher, que governam o Estado e que não escondem a posição de oposição ao governo federal e o desejo de lançar a candidatura de Garotinho às eleições de 2006. O PT surge como uma terceira força, buscando atrair aliados importantes que possam se confrontar com essas duas outras forças e que possam se constituir em uma alternativa para apresentar uma candidatura do Estado em 2006, trabalhando com aliados como o PTB, o PL, o próprio PCdoB, tentando atrair o PPS. Uma alternativa democrática e popular, que não seja nem o autoritarismo de Cesar Maia nem o populismo rasteiro de Garotinho, em sintonia com o projeto de reeleição do presidente Lula, que é o que estará em pauta em 2006.

CM - Aparentemente bem-sucedida em Nova Iguaçu e Niterói, a aliança do PT com Cesar Maia pode mesmo se consolidar como alternativa a Garotinho no Estado? Essa aproximação pode culminar numa eventual candidatura única em 2006, como já sugeriu o prefeito?
JB - Tudo depende das circunstâncias políticas. Em princípio, o mais provável é que o PT construa um campo de alianças que lance uma candidatura própria desse campo. A alternativa de uma aliança com o PFL se mostra complexa porque provavelmente o PFL estará no campo da oposição à candidatura de Lula à reeleição de 2006. Dificilmente o PFL vai querer apoiar uma candidatura aqui no Rio de Janeiro que esteja em sintonia com o governo Lula já que o partido está em confronto com o nosso projeto nacional. 

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