Política

Dois anos de Temer e nada para celebrar

Mais de cinco milhões de brasileiros foram excluídos do programa social mais importante e visível dos tempos de Lula e Dilma, o Bolsa Família. Outro programa social, o Minha Casa Minha vida, sofreu sérios cortes

23/05/2018 08:28

EFE

Créditos da foto: EFE

 

No dia 12 de maio o Brasil viveu o dia em que o golpe institucional que instalou Michel Temer no escritório presidencial cumpriu dois anos.

Até agora, ele era uma figura um tanto obscura, cuja carreira de deputado se resumiu basicamente a um certo talento em articular alianças, e outro maior ainda para operar o balcão negócios no qual se baseia o sistema político brasileiro. Exatamente por sua habilidade em articular e controlar a maior parte do seu partido, o PMDB, ele foi indicado por Lula da Silva para ser o vice de Dilma Rousseff em duas eleições seguidas. Entretanto, em vez de usar essa experiência acumulada para assegurar maioria no Congresso, como fez no primeiro mandato da presidenta traída, optou por empregá-la na construção de um golpe institucional.

Para celebrar a ocasião do aniversário de sua chegada à presidência, Michel Temer programou uma série de eventos. Numa clara mostra de sua quase insuperável capacidade de fazer o ridículo, o convite para a cerimônia ostentava o slogan especial para a data, elaborado por seu publicitário: “O Brasil voltou, vinte anos em dois”.

Tão medíocre quanto seu chefe, o publicitário não previu o que terminou acontecendo: nas redes sociais, a frase perdeu a vírgula e, em poucos minutos, circulavam milhares de piadas confirmando o que é a verdadeira sensação popular: com Temer, “o Brasil voltou vinte anos em dois”.

Ao longo de seu discurso de celebração, Temer deu luminosas mostras de outro de seus talentos: mentiu, mentiu e mentiu. Sem demostrar o menor temor ao ridículo, afirmou solenemente que “hoje me informaram que foram criados em abril 115 mil postos de trabalho”.

A verdade é que o respeitado IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indica que, no primeiro trimestre deste ano, o desemprego cresceu 1,3%, alcançando a marca de 13,1% da mão de obra, o que significa pouco menos que 14 milhões de brasileiros.

Por qualquer aspecto que se analise, o retrocesso desses dois anos é evidente, e brutal. Por exemplo, pela primeira vez desde 2015 o número de analfabetos brasileiros registrou um aumento. Mais de cinco milhões de cidadãos foram excluídos do mais importante e visível programa social dos tempos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, o Bolsa Família. Outro programa transformador, o Minha Casa Minha Vida, que entregava moradias populares, sofreu um corte de mais da metade do seu orçamento, alcançando principalmente a oferta de imóveis à população de mais baixa renda.

Ao assumir, há dois anos, Temer prometeu formar um governo “de notáveis”. O que existe hoje é um governo cheio de denúncias de corrupção, com ministros – para começar pelos dois mais próximos e poderosos – que têm os dias contados para enfrentar graves problemas com a Justiça, assim que deixarem seus cargos e os foros privilegiados que os mantêm livres. Destino que também está reservado ao próprio Temer, que responde por duas denúncias e vê uma terceira surgindo no horizonte, mas aproveita que elas se manterão congeladas enquanto ele seja o presidente.

A tão mencionada “recuperação econômica” é outra mentira. O déficit primário do governo central deverá rondar os 139 bilhões de reais, o que significa, no câmbio atual, cerca de 37,5 bilhões de dólares. O crescimento do PIB, alegremente anunciado como de 3% este ano, dificilmente alcançará os 2%. Os mais cautelosos dizem que um crescimento de 1,5 ou 1,7% seria uma projeção mais prudente.

É verdade que a inflação se manteve a níveis inéditos. O fenômeno se deve muito mais à recessão, que afastou a maioria dos brasileiros. A mesma maioria que, segundo as pesquisas, considera o governo de Temer péssimo (70%) e reprova massivamente sua imagem pessoal (82%).

Em seus delírios palacianos, Temer anunciou que pretende se candidatar à reeleição. As mesmas pesquisas, ou ao menos as mais otimistas para o ocupante do Planalto, indicam que apenas 1% dos eleitores votariam nele.

A celebração de dois anos da implosão do país antecedeu, em cinco dias o aniversário da implosão do próprio governo: o dia 17 de maio de 2017 foi marcado pela divulgação de uma conversa telefônica entre Michel Temer e o empresário Joesley Batista, nos porões do palácio presidencial. Entre outros maravilhosos registros, a gravação clandestina que Batista realizou mostra como Temer o aconselha a seguir comprando o silêncio do principal operador do golpe institucional – o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que conduziu o processo de destituição de Dilma Rousseff e que está na cadeia desde outubro de 2016, condenado a 14 anos e meio de prisão por corrupção e a possibilidade de ver essa pena aumentar, devido às demais acusações ainda não julgadas.

Desde aquele 17 de maio de 2017 (há um ano) o governo de Temer ficou paralisado. O escândalo foi fulminante. Depois disso, o governo e seus capangas passaram a viver de manobras para comprar deputados e senadores, para impedir que fossem julgados, e assim manter os seus cargos.

A verdade é que não aconteceu nada no Brasil que mereça ser celebrado. O país retrocede em alta velocidade, e os mais danificados são os de sempre: os mais pobres.

Temer insiste em dizer que defende seu legado. Qual legado?

Também diz que sabe qual será seu lugar na posteridade. Estaria ele, num surto inesperado de sinceridade, se referindo à lata de lixo da história?

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