Política

Duda admite caixa 2 e oposição já fala em impeachment

11/08/2005 00:00

Laycer Tomaz/Câmara

Créditos da foto: Laycer Tomaz/Câmara

Brasília - Era para ser a apuração sobre mais um acesso ao "valerioduto". A CPMI dos Correios tinha em sua agenda, nesta quinta-feira (11), audiência com Zilmar Silveira, sócia do publicitário Duda Mendonça, identificada na lista de Valério como destinatária de pouco mais de R$ 15 milhões de reais. Mas, para a surpresa de todos e todas integrantes da comissão, o próprio Mendonça, responsável por grandes campanhas do PT como a do então candidato Lula à presidência em 2002, apareceu voluntariamente para depor. Entre suas revelações, os dois confirmaram ter recebido dinheiro por fora e complicaram a situação do PT ao alegar que Marcos Valério e Delúbio Soares teriam feito os pagamentos por meio de contas no exterior.

No depoimento, a dupla informou que recebeu recursos do PT via Marcos Valério pois “era o único jeito”. “Eu fiz uma campanha completa, a gente tinha que receber. Não quero ficar aqui dando uma de santinho nem de hipócrita ou de cínico. Eu não tinha mais poder de decisão. Ou eu recebia assim ou tomava um cano. Tinha fornecedores a pagar e um nome a zelar”. Os publicitários contaram que foi fechado um pacote em 2002 para campanhas do PT, entre elas a de Lula, no valor de R$ 25 milhões de reais. Em 2003, o PT ainda tinha uma dívida proveniente deste contrato de cerca de R$ 11 milhões e mais débitos no valor de R$ 7 milhões referentes a um novo contrato. Do total, a maior parte, os R$ 15 milhões sacados por Zilmar Silveira, foi paga pelo "valerioduto" e o restante pelo caixa oficial do partido.

Segundo Mendonça, a forma de pagamento foi comandada por Delúbio Soares, que teria orientado para que os recursos fossem repassados “por fora”. Mendonça informou que o esquema foi ganhando complexidade, saindo de pagamento em cheque para malotes de dinheiro. “Primeiro recebíamos em cheque. Mas depois de um tempo de pagamentos atrasados Zilmar me assustou, me ligando e dizendo que tinha recebido da agência SMP&B quase R$ 300 mil em um pacote”, disse. Mas a grande novidade foi a revelação de que Marcos Valério, a pedido de Delúbio Soares, teria orientado Mendonça e sua sócia a abrir uma conta no exterior para receber os pagamentos.

De acordo com os depoentes, Valério teria informado que “estava difícil” fazer o repasse nas formas antigas até então usadas, cheque e dinheiro, e apontou como solução a abertura de uma pessoa jurídica no exterior para receber o repasse. Mendonça teria recebido orientação de seu banco, Bank Boston, para abrir uma empresa nas Bahamas denominada Dusseldorf para servir como depositária. O publicitário Marcos Valério, que estava na Procuradoria Geral da República, respondeu logo após por meio de nota afirmando que a informação de Duda Mendonça é mentirosa e se propondo a participar de uma acareação.

"O empresário mineiro declara que Duda Mendonça e sua sócia Zilmar Fernandes exigiam que os recursos destinados a eles pelo tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, Delúbio Soares, fossem depositados em contas no exterior, das quais o senhor Duda já era titular. Marcos Valério salienta que valores em dinheiro também foram entregues ao consultor financeiro Jader, seguindo instruções de Duda Mendonça e Zilmar Fernandes”, afirma a nota.

Valério não se limitou à nota e foi à CPMI do Mensalão para um novo depoimento onde reafirmou o teor da nota. Ele voltou a reclamar o fato de “estar levando a culpa sozinho” e criticou o termo “valerioduto”. “Por que ninguém fala em Dirceuduto, em ptduto?. É mais fácil colocar a culpa no mineiro lá de Belo Horizonte do que no Duda Mendonça”.

Impeachment aparece de novo como alternativa
As informações apresentadas por Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Silveira, foram um prato cheio para a oposição aumentar o tom das críticas ao PT e ao governo. Para a oposição, o fato de o valerioduto ter pagado serviços das agências de Duda Mendonça evidencia que a tese de “pagamento de dívidas de campanha” sustentada pelo ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e pelo publicitário Marcos Valério, é mentirosa. “As informações deixam claro que a tese de que se trata de crime eleitoral, de que em dois anos e meio se criou caixa pra pagar dívida de campanha não era verdadeira. Primeiro foi pra Aristides Junqueira [advogado contratado pelo PT que recebeu dinheiro das contas de Valério], e agora foi pra o publicitário”, disse o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ). “Fica claro que valerioduto pagou dívidas do PT”, completou o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). Sampaio foi um dos tucanos que começou a onda de projeções de punições para o PT e o governo ao afirmar que se confirmado o pagamento em moeda estrangeira o PT poderia ser extinto.

Outros oposicionistas mais agressivos chegaram a verbalizar a possibilidade de impeachment do Presidente da República, proposta que vem circulando em parcelas do PFL e do PSDB. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR), linha de frente da oposição e vanguarda dos posicionamentos mais duros contra o governo e o presidente, foi o primeiro, sugerindo que o impeachment do presidente já deveria começar a ser discutido pelo Senado Federal por conta do exposto nas declarações dos publicitários. O coro foi seguido pelo prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (PFL), também da ala mais crítica em relação à Lula. "É necessário que se inicie o julgamento do presidente. O presidente está completamente envolvido porque sua campanha envolve dinheiro lavado no exterior. É inevitável que se inicie uma avaliação desse quadro com vistas ao impedimento do presidente. Não podemos dar um jeitinho nas instituições", disse à Folha Online.

A tese central é que parte do pagamento à Duda Mendonça seria destinado ao saldo de dívidas da campanha de Lula, informação contestada pelo próprio publicitário. Mendonça afirmou “acreditar” que a campanha de Lula tenha sido paga com “dinheiro oficial”, mas não respondeu quando questionado sobre os custos dela, alegando que foi contratado para fazer um pacote que incluía além da candidatura do presidente a de Aloísio Mercadante, José Genoíno e Benedita da Silva. “É só cruzar as faturas que eu emiti com a contabilidade de PT para ver se a campanha de 2002 foi paga por dentro ou por fora. Tenho certeza que na hora que o senhor for pegar os dados, que a polícia for investigar, a história fecha”, sugeriu. O publicitário afirmou que confia no presidente e chegou de forma implícita a indicar que se algo aconteceu foi fora do conhecimento de Lula. Levado a um exercício de especulação, disse que se for comprovada a participação do presidente irá parar de fazer campanhas políticas, pois não quer que sua “inteligência e talento sejam usados para coisas ruins”.

Já durante o depoimento outros representantes oposicionistas buscaram baixar o tom, tanto pela falta de evidências quanto por avaliar que ainda não é o momento de trazer a tona o impeachment como alternativa real. O líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP), avaliou que as informações caminham para o envolvimento do presidente, mas que não se deve falar em impeachment agora. A mesma linha foi seguida por Eduardo Paes (PSDB-RJ), afirmando que ainda não é possível ligar diretamente o presidente ao "valerioduto". Já o líder do PSDB no Senado, Artur Virgílio (AM), foi enfático ao dizer que o governo “acabou” e que Lula deveria ir à TV “se explicar”.

Os governistas tentaram abaixar os ânimos, afirmando que as informações são graves mas que é preciso cautela. “Foi um depoimento contundente, pois abre novo patamar de investigação. Que dinheiro é este que está no exterior?”, questionou o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP). “Disso não se pode extrair a conclusão de que há envolvimento do presidente da República. É preciso ter calma, atenção aos fatos, pois as punições só podem vir depois das provas, que não existem hoje para justificar um pedido de impeachment. Há sim é a necessidade de se investigar. O que não pode é transformar a disputa política eleitoral em uma crise”, completou.

As falas da oposição mostram que várias posições em relação à tática a ser adotada. Há ataques fortes, médios e fracos à Lula. Mas a reação desta quinta mostra que o impeachment não é mais um horizonte distante. Entre os mais receosos, ainda paira o medo de instaurar um clima “venezuelano” no país, em um cenário no qual Lula contaria com forte apoio popular. Este medo já se coloca evidente nas críticas freqüentes aos discursos mais duros e críticas de Lula e às viagens do presidente para inaugurar obras e ganhar exposição pública. Outro medo é a incerteza da entrada do vice José de Alencar (PL), que vem criticando os juros altos e defendendo as pautas do chamado setor produtivo do empresariado. Para algumas parcelas do PT, no entanto, a reação de Lula e a reafirmação de sua candidatura à reeleição feita por ele mesmo podem ser a faísca para a opção por uma saída mais perigosa para a crise.


Conteúdo Relacionado