Política

EUA e Reino Unido ‘derrotaram’ criptografia na internet

07/09/2013 00:00

Marcelo Justo

Londres – Com a visita oficial da presidenta Dilma Rousseff aos Estados Unidos por um fio, com as queixas de Brasil e México a Barack Obama na cúpula do G20 e com o pano de fundo de uma investigação do Parlamento Europeu, o jornal The Guardian voltou a colocar o dedo na ferida publicando novas revelações sobre as agências de espionagem eletrônica dos Estados Unidos e Reino Unido. Segundo o matutino britânico, a Agência Nacional de Segurança Nacional (NSA) e sua correlata britânica, o GCHQ, decifraram uma grande parte dos códigos criptografados na internet que protegem a privacidade de e-mails, registros bancários e médicos de centenas de milhões de pessoas. As agências celebraram o feito em tom triunfalista assinalando em suas mensagens que “derrotaram a segurança e privacidade da rede”.

Os documentos entregues ao The Guardian pelo ex-analista de inteligência da CIA, Edward Snowden, revelam que um programa criado há dez anos pela NSA conseguiu em 2010 a decodificação de material criptografado que tornou uma vasta quantidade de dados acessíveis e manuseáveis. O nome do programa é Bullrun em homenagem a uma famosa batalha da guerra civil dos Estados Unidos, enquanto que o programa britânico do GCHQ é Edgehill, primeira batalha da guerra civil inglesa do século 17. Se cabem o simbolismo e a interpretação, poderia se dizer que para ambas as agências a espionagem eletrônica é uma questão bélica e a guerra contra o processo de criptografia é uma espécie de “mãe de todas as batalhas”.

A NSA está gastando cerca de 250 milhões de dólares anuais em outro programa que permite trabalhar com as grandes empresas tecnológicas para obter “uma influência oculta” sobre o desenho de seus produtos com a construção de “portas traseiras” no software para obter acesso á informação antes que seja criptografada e enviada pela internet. Este programa é dez vezes mais caro que o Prisma, revelado também por Snowden e pelo The Guardian em junho deste ano, que permite à agência estadunidense acessar milhões de e-mails e chats ao vivo.

Desde 2011, os Estados Unidos gastaram 800 milhões de dólares nesta colaboração com as empresas tecnológicas. O nome das empresas que trabalham em parceria com a NSA é considerado “top secret” nos documentos estadunidenses, mas nos britânicos se revela que, desde 2010, o GCHQ vem desenvolvendo métodos de ingresso no Hotmail, Google, Yahoo e Facebook.

Essa série de revelações do The Guardian causou uma interminável tormenta política. Em uma entrevista concedida em São Petersburgo, Rússia, no marco da cúpula do G20, Dilma Rousseff comentou que o presidente Barack Obama “assumiu responsabilidade direta e pessoal pela investigação das denúncias de espionagem” e se comprometeu “a responder ao governo brasileiro até quarta-feira o que ocorreu”. No último domingo, Glenn Greenwald, o jornalista do Guardian que revelou as informações vazadas por Edward Snowden, indicou que houve espionagem eletrônica da NSA contra Dilma e o presidente mexicano Enrique Peña Nieto, que também espera explicações de Obama.

Enquanto isso, o parlamento europeu iniciou quinta-feira sua investigação sobre a espionagem da NSA a cidadãos europeus e aos governos e instituições da União Europeia. Na quinta, os parlamentares receberam um pedido por vídeo conferência do editor-chefe do Guardian, Alan Rusbridger, para que a liberdade de imprensa seja protegida. “O jornalismo está profundamente ameaçado pela vigilância massiva”, assinalou Rusbridger.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer



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